Correios valem o mesmo que Mercado Livre, diz associação de funcionários

Vice-presidente da entidade também argumenta que deveriam ser contratados 20 mil funcionários e define as denúncias de corrupção como casos pontuais

Com a privatização dos Correios cada vez mais nos holofotes, o vice-presidente da Associação dos Profissionais dos Correios, Marcos César Alves, argumenta que os Correios têm o mesmo valor de mercado que o Mercado Livre, considerada uma das empresas mais valiosas da América Latina. Os Correios tiveram prejuízo entre 2013 e 2016, carregando um passivo de pelo menos 6,8 bilhões de reais. Em entrevista à EXAME, ele também defende a abertura de 20.000 vagas para dar mais agilidade às entregas e discute a última greve, que durou 35 dias. Alves comenta ainda os escândalos de corrupção envolvendo a empresa. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como vocês chegaram ao valor de mercado de 60 bilhões de dólares dos Correios, divulgado pela Associação na sexta passada, dia 25?

É porque isso é o que vale o Mercado Livre.

Mas o Mercado Livre não é uma empresa de logística e, mesmo que fosse, seria necessário levar em conta uma série de indicadores na avaliação de mercado dos Correios, como acontece em qualquer empresa, não? E o Mercado Livre é a empresa mais valiosa do Brasil.

A maior parte do resultado financeiro do Mercado Livre vem das entregas e os Correios também fazem entregas. Temos a maior capilaridade do Brasil e temos um papel fundamental na entrega de encomendas, maior do que a de empresas do setor. Na última década, os Correios tiveram um lucro de meio bilhão de reais. Nos últimos três anos, foi de mais de 800 milhões de reais. Por isso, não faz sentido falar em prejuízo num quadro desse.

E quanto aos indicadores dos Correios? De quanto é o passivo, por exemplo?

Não sei dizer.

Há dívidas relativas ao plano de previdência e plano de saúde?

E outras também, como encargos trabalhistas, mas não tenho esses dados.

A greve dos Correios, que durou 35 dias, pode interferir na avaliação da empresa e na percepção da população em relação ao serviço?

A qualidade do serviço aumentou nos últimos anos. O que acontece é que houve um aumento muito grande da demanda por entrega de encomendas, por causa do crescimento do e-commerce e da pandemia. Não estávamos adequadamente preparados para isso. Essa é uma questão que cabe à direção da empresa.

O que seria preciso para adequar os Correios a essa nova realidade?

Precisa reforçar a estrutura de transporte e o pessoal para dar mais vazão às entregas, o que é uma decisão da direção da estatal.

Precisaria então de investimentos em logística e contratação de pessoas?

Sim. No ano passado os Correios receberam 5.000 vans e motos. Sobre a contratação e abertura de novas vagas por concurso público, hoje temos 95.000 funcionários. Precisaríamos de uns 120.000.

Então, fazendo uma conta aqui levando em conta a média salarial de 3.000 reais dos funcionários, daria uma boa quantia adicional de folha de pagamentos…

Já houve períodos em que os Correios abriam concurso para 5.000 vagas. Algumas pessoas dizem que ter 95.000 funcionários, o atual contingente dos Correios, é muito. Mas não é, dado que entregamos em todo o Brasil, em todas as cidades.

E qual é sua avaliação sobre a greve, que durou 35 dias?

Ao final, após o julgamento na Justiça, mantidos basicamente apenas os benefícios previstos na CLT. Foram retirados vários outros, referentes, por exemplo, ao abono de Natal de cerca de 1.000 reais. Isso era uma espécie de estímulo para os funcionários num período, o mês de dezembro, que os Correios costumam ter mais encomendas. Foi retirada também a licença-maternidade de 180 dias, por exemplo. Essas cláusulas constavam de um acordo coletivo que deveria valer até 2021, mas foi barrado pela direção da empresa este ano sob alegação de que a pandemia poderia prejudicar a saúda da empresa.

A greve foi um tiro no pé, como tem dito o governo, porque pode interferir negativamente na avaliação da empresa, promovendo o interesse de mais empresas pela privatização?

As cláusulas que mencionei constavam de um acordo coletivo que deveria valer até 2021, mas foi barrado pela direção da empresa neste ano sob a alegação de que a pandemia poderia prejudicar a saúde da empresa. Os benefícios funcionavam como uma compensação salarial. Não acho que a paralisação possa afetar a avaliação da empresa. Acredito que as entregas devem ser retomadas em algumas semanas.

Caso a privatização realmente ocorra, muitos funcionários poderiam ser demitidos?

O principal é discutirmos como o governo está conduzindo a privatização. O normal e correto é que primeiro o assunto seja discutido no Congresso e que depois se faça um marco regulatório do setor, o que não aconteceu. Só em um terceiro momento deveria ser encaminhado o tema da privatização, e isso precisaria ser feito com bases em estudos. É isso temos falado. O processo está todo errado.

Mas uma consultoria foi contratada para realizar os estudos, não?

Sim, mas nenhum funcionário dos Correios tem confiança nela. O governo está orientando o que a consultoria precisa dizer nesses estudos. A consultoria vai fazer o que o governo mandar. Inclusive, essa mesma consultoria fez um trabalho de reestruturação dos Correios há alguns anos e não adiantou nada.

O senhor comentou que fez parte do conselho de administração dos Correios. Como o senhor se sentiu frente aos escândalos de corrupção da estatal?

Sim, estive no conselho entre 2013 e 2018. Olha, foram casos isolados, pontuais. Não dá para imaginar que nunca vai ter um evento pontual de desvio em nenhuma empresa. Temos de pensar que haverá punições e que precisamos fazer todos os esforços para reforçar o compliance. Mas não dá para imaginar que nenhum funcionário nunca vai tirar nada.

O conselho de administração foi pego de surpresa com as denúncias de corrupção?

Nós sempre trabalhamos pelo compliance e pela punição dos casos pontuais que surgiam. Sempre defendi isso, que os culpados deveriam ser punidos.

Mas parece que o compliance não adiantou muito, já que foram surgindo novos casos de corrupção, não? Neste ano, em agosto, houve uma operação da Polícia Federal para desarticular uma organização criminosa de dentro dos Correios que subfaturava os valores para postagens de cartas, com prejuízo de 94 milhões de reais ao patrimônio público.

Foi um caso envolvendo franquias, não dá para dizer que havia uma organização criminosa dentro dos Correios. E esses casos são punidos. E, de novo, são questões pontuais.

O senhor alguma vez pensou em sair do conselho de administração por causa dos casos de corrupção ou até em se demitir?

Não. Sempre tive ciência de que eram casos pontuais e sempre nos empenhamos em fazer o melhor pela empresa.

 

 

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