Brasil

Brasil mantém segunda pior nota da história no Índice de Percepção da Corrupção

Relatório da Transparência Internacional aponta avanço do crime organizado e escândalos de macrocorrupção

Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 08h23.

O Brasil repetiu, em 2025, a segunda pior pontuação de sua série histórica no Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela Transparência Internacional, ao registrar 35 pontos em uma escala de 0 a 100. O país permaneceu na 107ª posição, entre 182 países e territórios avaliados, segundo dados divulgados nesta terça-feira, 10.

Em relação a 2024, quando obteve 34 pontos, o Brasil subiu apenas um ponto, variação considerada estatisticamente insignificante, o que indica estagnação no combate à corrupção.

Publicado anualmente desde 1995, o IPC é o principal indicador global sobre corrupção no setor público. Quanto menor a nota, maior é a percepção de corrupção no país avaliado.

Desde 2012, após uma reforma metodológica, o índice permite a análise em série histórica, possibilitando comparações ano a ano. Na edição de 2025, o IPC avaliou 182 países e territórios, com base em até 13 indicadores independentes, que refletem a percepção de especialistas, pesquisadores e executivos sobre práticas corruptas e mecanismos de prevenção.

No caso brasileiro, foram considerados oito indicadores, o mesmo número do ano anterior. Detalhes metodológicos estão descritos na nota técnica do índice.

Histórico do Brasil no índice

Na série histórica, os melhores desempenhos do Brasil ocorreram em 2012 e 2014, com 43 pontos, seguidos por 2013 (42) e 2016 (40).

As piores pontuações foram registradas em 2024 (34 pontos), 2018 e 2019 (35 pontos) e 2023 (36 pontos). Desde 2015, o Brasil permanece abaixo da média global, sem apresentar avanços consistentes.

Em 2025, o país ficou abaixo tanto da média das Américas (42 pontos) quanto da média global, também de 42 pontos.

Os países com melhor desempenho em 2025 foram Dinamarca (89 pontos), Finlândia (88) e Cingapura (84). Na outra ponta do ranking aparecem Somália e Sudão do Sul (ambos com 9 pontos) e a Venezuela (10 pontos).

O Brasil ficou próximo de países como Sri Lanka (35 pontos); Argentina, Belize e Ucrânia (36 pontos); e Argélia, Bósnia e Herzegovina, Indonésia, Laos, Malawi, Nepal e Serra Leoa (34 pontos).

Dois novos países — Brunei e Belize — passaram a integrar o ranking em 2025, ambos posicionados acima do Brasil.

Segundo Bruno Brandão, diretor executivo da Transparência Internacional – Brasil, o país viveu um ano marcado por contradições.

“Embora o Brasil tenha chamado a atenção internacional em 2025 pela resposta firme e histórica do Supremo Tribunal Federal na responsabilização do ex-presidente Bolsonaro e de outros conspiradores que atentaram contra a democracia, também chocou o mundo com casos de macrocorrupção em escala inédita, impunidade generalizada mesmo para corruptos confessos e condutas desmoralizantes de ministros do próprio STF”, afirmou.

Para ele, a corrupção segue corroendo a democracia brasileira, o que torna urgente a retomada da agenda anticorrupção.

Paralelamente ao IPC, a Transparência Internacional – Brasil lançou o relatório Retrospectiva 2025, que analisa os principais avanços e retrocessos do país no enfrentamento à corrupção ao longo do ano.

O documento aponta o agravamento da infiltração do crime organizado no Estado brasileiro, com destaque para vulnerabilidades no sistema financeiro e na advocacia, reveladas por uma sequência de escândalos de grande impacto.

Entre eles estão os desdobramentos das operações Sisamnes, que apurou comércio de sentenças no STJ, e Overclean, que investigou desvios de emendas parlamentares, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro em contratos públicos em ao menos cinco estados.

Escândalos de grande escala em 2025

Em abril, a Operação Sem Desconto revelou o maior esquema de corrupção previdenciária da história, atingindo centenas de milhares de aposentados e pensionistas e expondo falhas graves de governança no INSS.

Em agosto, a Operação Carbono Oculto desvendou um sistema estruturado de sonegação, evasão de divisas e lavagem de dinheiro, envolvendo facções criminosas infiltradas em fintechs, fundos de investimento e no setor de combustíveis.

Já em novembro, a Operação Compliance Zero, conhecida como caso Master, escancarou a maior fraude bancária já registrada no país.

A Carbono Oculto foi classificada como a maior operação contra o crime organizado da história recente e marcou uma mudança de paradigma ao priorizar inteligência financeira e integração entre órgãos públicos.

O relatório destaca o contraste entre essa abordagem e operações policiais de caráter bélico, como a chacina no Complexo do Alemão, reforçando a importância do uso de dados financeiros e coordenação institucional.

A Retrospectiva também critica a resposta do governo federal ao escândalo do INSS, considerada tardia e insuficiente, além da substituição do ministro da Previdência por um aliado político direto.

No Legislativo, o relatório aponta a consolidação da captura orçamentária, com crescimento recorde das emendas parlamentares, que ultrapassarão R$ 60 bilhões no orçamento de 2026.

O caso Master revelou ainda redes de influência envolvendo os três Poderes, com foco especial no Judiciário, sobretudo no STF. A Transparência Internacional – Brasil recomenda investigações independentes pela PGR e pelo Senado Federal sobre fatos envolvendo dois ministros da Corte.

Oportunidades para retomada da agenda anticorrupção

Apesar do cenário crítico, o relatório identifica duas oportunidades: a mobilização social que barrou a chamada PEC da Blindagem e a coincidência de magistrados com perfil reformista no comando dos cinco tribunais superiores.

Segundo a entidade, esse contexto pode abrir espaço para a aprovação de um Código de Conduta na cúpula do sistema de Justiça, com potencial de gerar mudanças mais duradouras na cultura jurídica do país.

A Transparência Internacional – Brasil destaca que a Retrospectiva 2025 é um relatório qualitativo e não tem relação causal direta com o resultado do IPC, que é compilado pelo secretariado global da organização a partir de fontes independentes.

As análises e conclusões do documento são de responsabilidade da equipe técnica da entidade no Brasil e visam ampliar o debate público sobre integridade e corrupção.

Acompanhe tudo sobre:Corrupção

Mais de Brasil

Novos ônibus elétricos têm sensores para evitar atropelamento de pedestre

Vai chover hoje? Veja a previsão do tempo nos estados do Brasil

Tempestade causa novos deslizamentos em São Sebastião e interdição em rodovia

Câmara aprova urgência de projeto que acaba com a patente do Mounjaro e Zepbound