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Ataques de tubarões: Pernambuco retoma monitoramento interrompido há uma década

Após sequência de ataques em 2026, o governo de Pernambuco retoma o monitoramento científico de tubarões na Região Metropolitana do Recife, parado desde 2015

Diandra Guedes
Diandra Guedes

Colaboradora

Publicado em 17 de julho de 2026 às 10h14.

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Pernambuco vai voltar a monitorar cientificamente os tubarões que circulam pelo seu litoral. A ação estava parada havia mais de dez anos e será retomada pelo projeto Ecotuba, coordenado pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), com apoio do governo do estado.

A decisão foi acelerada depois de dois ataques graves registrados em menos de 24 horas, no fim de maio e início de junho de 2026, nas praias de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e de Boa Viagem, no Recife.

As duas vítimas, um menino de 11 anos e uma jovem de 19 anos, precisaram amputar uma das pernas.

O programa tem investimento de R$ 1.052.000,00, aprovado por meio do edital "Cientista Arretado", da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe), em parceria com a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti-PE) e a Secretaria de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha (Semas-PE).

A execução começou em junho, e as operações de captura em mar aberto têm início previsto para julho.

A meta é capturar, avaliar e implantar chips transmissores em cerca de 50 tubarões, priorizando as duas espécies mais associadas a incidentes na região: o tubarão-cabeça-chata (também chamado de tubarão-touro) e o tubarão-tigre.

Depois de identificados, medidos e submetidos à coleta de sangue e tecido, os animais recebem o transmissor por meio de uma pequena cirurgia e são devolvidos ao mar.

Com os dados de deslocamento, os pesquisadores querem entender como esses tubarões usam o espaço costeiro em diferentes horários, marés e fases da lua, informação que deve orientar políticas públicas de sinalização, restrição de banho e educação ambiental na faixa de cerca de 33 quilômetros de litoral entre Olinda e o Cabo de Santo Agostinho, considerada a mais crítica do estado.

Por que o monitoramento foi interrompido?

O monitoramento contínuo de tubarões na Região Metropolitana do Recife (RMR) nasceu em 2004, com o projeto Protuba, tocado pelo Departamento de Pesca e Aquicultura da UFRPE dentro do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit), criado naquele mesmo ano pelo governo do estado.

Uma pesquisa de doutorado apresentada à Secretaria de Defesa Social de Pernambuco apontou que, entre a criação do Cemit em 2004 e 2019, os incidentes com tubarões no estado caíram 97%.

Mesmo assim, o financiamento do monitoramento de campo na costa continental foi interrompido a partir de 2015, por falta de investimento contínuo.

Depois disso, o acompanhamento sistemático de tubarões com transmissores passou a existir apenas no Arquipélago de Fernando de Noronha, mantido por uma parceria entre a Administração da ilha, a UFRPE, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a concessionária Econoronha.

No litoral continental, restaram apenas ações de sinalização e educação ambiental.

Não foi a primeira vez que o governo tentou reverter esse cenário. Em 2023, depois de três ataques em um único mês, o estado já havia anunciado a retomada da parceria com a UFRPE para o monitoramento na RMR, mas o plano não saiu do papel.

Desde então, o novo edital de pesquisa só foi lançado em janeiro de 2026, teve resultado divulgado em maio e começou a ser executado em junho, agora sob o nome Ecotuba, que amplia para o litoral continental um modelo já usado em Fernando de Noronha.

Ataques de tubarão no Brasil: onde acontece?

Pernambuco é o estado brasileiro com o maior histórico de incidentes com tubarões do país, e a região com mais registros do tipo em toda a América Latina. Segundo o Cemit, o litoral pernambucano soma 84 incidentes desde 1992, sendo 70 na Região Metropolitana do Recife e 14 em Fernando de Noronha.

As praias com mais casos registrados são:

  • Boa Viagem (Recife): 25 incidentes registrados, é o principal ponto turístico e urbano afetado pelo problema, com trechos interditados à prática de esportes náuticos desde 1999.
  • Piedade (Jaboatão dos Guararapes): 24 incidentes, vizinha de Boa Viagem e também dentro da faixa considerada de risco.
  • Demais praias da Região Metropolitana do Recife: somam o restante dos 70 casos continentais, concentrados no litoral entre Olinda e o Cabo de Santo Agostinho.
  • Fernando de Noronha: 14 casos, arquipélago que mantém monitoramento contínuo por meio do projeto Ecotuba local.

Entre as espécies presentes no litoral pernambucano, seis costumam ser identificadas pelo Cemit: cabeça-chata, tigre, bico-fino, flamengo, galha-preta e limão.

As duas primeiras, cabeça-chata e tigre, concentram a maior parte dos ataques e por isso são o foco do novo monitoramento.

No cenário nacional mais recente, os dois ataques de maio e junho de 2026 se somaram a um caso fatal registrado em janeiro do mesmo ano, em Olinda, e elevaram para quatro o número de incidentes no estado em 2026.

No comparativo mundial, dados do Museu de História Natural da Flórida, referência internacional em estatísticas do tipo, colocam o Brasil na quarta posição em registros históricos de incidentes com tubarões, atrás de Estados Unidos, Austrália e África do Sul.

Dentro do total brasileiro, Pernambuco responde pela grande maioria dos casos.

Especialistas apontam a combinação de fatores naturais e urbanos como explicação para a concentração de incidentes na costa pernambucana: a proximidade entre recifes de coral e águas profundas, que facilita a aproximação de tubarões durante a maré alta, além de alterações no ecossistema marinho local ligadas à urbanização da orla.

Para reduzir o risco, o Núcleo de Educação Ambiental da UFRPE recomenda evitar o mar em dias de água turva ou maré cheia, permanecer nas áreas protegidas por recifes e respeitar a sinalização e as orientações dos guarda-vidas.

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