Carne bovina: EUA passa por crise nos EUA (Freepik)
Redação Exame
Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 11h19.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na sexta-feira, 6, uma diretiva que amplia novamente a quantidade de carne bovina importada da Argentina, em mais um movimento para tentar conter a alta dos preços dos alimentos no país.
A medida formaliza os termos de um acordo comercial bilateral assinado na quinta-feira entre Estados Unidos e Argentina, que eliminou centenas de tarifas e barreiras comerciais. O entendimento é considerado uma vitória política para o presidente argentino Javier Milei, aliado de Trump.
Pela nova diretriz, a cota de importação de carne bovina argentina com tratamento tarifário preferencial em 2026 aumentará em 80 mil toneladas métricas e será composta principalmente por aparas magras, utilizadas na produção de carne moída nos Estados Unidos.
No documento, Trump afirma que a decisão de “aumentar temporariamente” as importações é necessária para “ampliar a oferta de carne moída para os consumidores dos Estados Unidos”.
Com o novo ajuste, a Argentina passa a poder exportar até 100 mil toneladas métricas de carne bovina para o mercado americano, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores argentino.
Antes disso, a cota era de 20 mil toneladas, volume que já havia sido elevado para 80 mil toneladas em outubro do ano passado. Autoridades estimam que o aumento mais recente represente cerca de US$ 800 milhões adicionais em exportações argentinas.
A decisão ocorre em um momento de pressão inflacionária sobre os preços da carne bovina nos EUA, que atingiram níveis recordes e colocam em xeque uma das principais promessas de campanha de Trump, de reduzir o custo de vida.
Lula diz que agora é amigo de Trump e fala em 'amor à primeira vista'Pesquisas recentes indicam que a maioria dos americanos desaprova a condução da economia e dos preços ao consumidor, fator que ameaça as chances dos republicanos nas eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro.
Apesar do potencial impacto positivo nos preços da carne moída, a ampliação das importações carrega riscos políticos para o presidente. O aumento da oferta externa ainda não foi suficiente para compensar a escassez estrutural de gado nos Estados Unidos, cuja reversão deve levar anos.
A recomposição do rebanho é considerada essencial para reduzir os preços de cortes premium, como bifes. Nesse contexto, a maior entrada de carne estrangeira pode gerar insatisfação entre agricultores e pecuaristas americanos, um grupo central da base eleitoral de Trump.
Uma coalizão formada por 27 ex-líderes de associações agrícolas e ex-autoridades do governo enviou nesta semana uma carta à Casa Branca alertando que as políticas comerciais estão prejudicando as fazendas americanas e pedindo uma “ação substancial” para corrigir o rumo.
Dados recentes do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês) mostram que o rebanho bovino americano permanece no menor nível em 75 anos.
A população de novilhas de corte, essencial para a reconstrução do rebanho, cresceu apenas 1%, ritmo considerado insuficiente.
No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo maior acesso a áreas de pastagem.
Ainda assim, muitos produtores seguem optando por vender os animais para abate, em vez de mantê-los para reprodução, diante de secas prolongadas e altos custos de insumos.
O acordo também reforça os laços entre Trump e Milei, que tem promovido uma abertura comercial agressiva como parte da reformulação da economia argentina.
A aproximação ocorre em paralelo a bilhões de dólares em apoio financeiro dos EUA, que ajudaram a estabilizar a moeda argentina antes de uma votação legislativa crucial no ano passado.
Trump já havia removido, em 2025, tarifas sobre a carne bovina brasileira, também com o objetivo de aliviar os preços domésticos.
Mesmo assim, a maior parte da carne consumida nos Estados Unidos continua sendo produzida internamente, e as importações seguem representando menos de 20% da oferta total, segundo projeções do USDA.
A ampliação do acesso da carne argentina, no entanto, tende a manter a pressão política sobre o governo, ao colocar em lados opostos consumidores preocupados com preços e produtores rurais afetados pela concorrência externa.
O aumento das importações ocorre em um momento especialmente delicado para a indústria de carne bovina nos Estados Unidos. As perspectivas para o setor seguem pouco animadoras, e grandes empresas já admitem dificuldades relevantes para atravessar o atual ciclo de escassez de gado.
A Tyson Foods, maior processadora de carnes do país, afirmou que projeta um prejuízo entre US$ 250 milhões e US$ 500 milhões em sua divisão de carne bovina ao longo de 2026. A estimativa reflete diretamente a menor oferta de animais no mercado americano, que tem comprimido margens e elevado custos operacionais.
*Com informações de O Globo