O governo dos Estados Unidos deixou o café e a carne bovina do Brasil fora da lista de produtos sujeitos à tarifa de 25% anunciada nesta quarta-feira, 15. A medida foi adotada após uma investigação contra o Brasil com base na Seção 301, iniciada em julho de 2025.
No começo de junho, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) concluiu que o Brasil adota práticas consideradas desarrazoadas no comércio bilateral, citando, entre outros pontos, o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.
No caso da carne bovina, a exclusão da proteína da lista de produtos tarifados está relacionada ao momento vivido pela pecuária americana.
Os frigoríficos dos Estados Unidos enfrentam um dos períodos mais difíceis do ciclo pecuário, marcado pelo aumento dos custos de produção e por margens mais apertadas.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. Já o rebanho bovino total dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir as áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar o caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
Nesse contexto, os preços da carne bovina nos Estados Unidos vêm acumulando sucessivos recordes. Desde 2020, a valorização chega a 75%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis.
De acordo com o USDA, os preços da proteína estão 16% acima dos níveis registrados há um ano, tornando a carne bovina um dos principais símbolos da inflação persistente no país, especialmente durante a temporada de churrascos de verão.
Além disso, o país enfrenta um aumento dos casos da bicheira do Novo Mundo, enfermidade causada por uma mosca que deposita ovos em feridas abertas de animais. As larvas se alimentam de tecido vivo e podem levar o hospedeiro à morte se não houver tratamento.
Diante do avanço da doença, os Estados Unidos suspenderam as importações de carne bovina do México, onde foram registrados os focos.
No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras de carne bovina para os EUA cresceram 13% em relação ao mesmo período de 2025 e alcançaram 205 mil toneladas. O país é o segundo principal destino da proteína brasileira, atrás apenas da China, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).
Café nos EUA
No caso do café, a Associação Nacional do Café (NCA, na sigla em inglês), entidade que representa a indústria cafeeira dos Estados Unidos, pediu ao governo Donald Trump que mantivesse a isenção tarifária para as importações de café verde brasileiro e estendesse o benefício ao café instantâneo.
O pedido foi apresentado durante as consultas públicas sobre as tarifas aplicadas a uma série de produtos brasileiros.
O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo e responde por cerca de um terço do abastecimento do mercado americano. A produção brasileira deve crescer 17% nesse ano e atingir 66 milhões de sacas de 60 quilos, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
No ano passado, o país foi atingido por uma tarifa de 50%, medida que afetou a indústria cafeeira dos Estados Unidos até que Washington decidiu incluir o café verde na lista de produtos isentos.
"Garantir a isenção de tarifas para as importações desses códigos tarifários de café trará benefícios significativos para a economia dos EUA e para os quase 200 milhões de adultos americanos que consomem café diariamente", afirmou William Murray, presidente da NCA, durante audiência realizada na semana passada.
O café instantâneo, no entanto, permaneceu sujeito à tarifa de 50% até a decisão da Suprema Corte que derrubou a maior parte das tarifas impostas por Trump. Atualmente, o produto está sujeito a uma tarifa global de 10%.
Segundo Murray, as tarifas contribuíram para uma "inflação de preços bastante visível em produtos populares", pressionando as empresas americanas que produzem bebidas prontas para consumo, bases líquidas de café, xaropes e misturas destinadas ao setor de alimentação.
Na safra 2025/26, os Estados Unidos perderam a liderança para a Alemanha e passaram a ocupar a segunda posição entre os principais destinos do café brasileiro. O país importou 4,243 milhões de sacas, volume equivalente a 11% de todas as exportações brasileiras do grão.
O volume representa uma queda de 43,2% em relação à safra anterior, refletindo diretamente os efeitos da política tarifária adotada pelo governo de Donald Trump.
Produtos do agro fora das tarifas
A lista de produtos isentos inclui, ainda, itens como aviões, autopeças e frutas tropicais. Veja alguns itens beneficiados:
- Carne Bovina
- Café
- Atum, tilápia e outros peixes
- Mel orgânico
- Frutas tropicais
- Açaí
- Sucos cítricos
- Água de coco
A nova taxa entra em vigor em 22 de julho, com algumas exceções para produtos que estiverem em trânsito.