EXAME Agro

Por que o bloqueio do Estreito de Ormuz deve pôr freio nos produtores do agro

Interrupção da rota pressiona insumos, eleva custos e pode reduzir área plantada no Brasil

Colheita da soja em Mato Grosso: estado é um dos principais produtores do grão no país (Alexis Prappas/Exame)

Colheita da soja em Mato Grosso: estado é um dos principais produtores do grão no país (Alexis Prappas/Exame)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 21 de abril de 2026 às 08h00.

A manutenção do fechamento do Estreito de Ormuz acendeu um alerta para o agronegócio brasileiro, já que boa parte dos agricultores iniciou a compra de fertilizantes para a safra 2026/27, que começa em 1º de julho.

Segundo analistas ouvidos pela EXAME, a tendência é de que os produtores reduzam a área plantada com soja e milho, optando por outras culturas, já que os preços dos fertilizantes devem subir ainda mais. Cerca de 34% do nitrogênio e da ureia globais são provenientes do Oriente Médio, e, no ano passado, esse volume foi exportado pelo Estreito de Ormuz.

“Estamos falando de milhões de toneladas e, como o gás natural é a principal matéria-prima para a produção de nitrogênio, enfrentamos um problema de escala global. Não se trata de uma questão isolada, mas de um desafio de distribuição decorrente das decisões tomadas após o início do conflito”, diz Marcelo Altieri, CEO da Yara Brasil.

Depois de o Irã anunciar na sexta-feira, 17, que liberaria o Estreito de Ormuz, o país voltou atrás no sábado, 18, e reimpôs restrições à via navegável. A decisão foi comunicada inicialmente por um porta-voz militar à agência estatal iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária.

O aumento dos preços dos fertilizantes e o risco de interrupção no fornecimento estão levando produtores a rever planos em pleno início das decisões para a safra 2026/27, segundo estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos.

O impacto da crise segue uma cadeia clara: tensão geopolítica, gargalos logísticos e, por fim, alta de custos no campo. Os preços dos fertilizantes já subiram mais de 50% e superam médias históricas, de acordo com o levantamento.

No Brasil, esse efeito chega mais rápido do que em outros países, já que o calendário agrícola coloca os produtores no centro da turbulência neste momento. “As decisões usuais sobre fertilizantes para soja estão sendo tomadas agora”, diz a pesquisa.

Há ainda um agravante estrutural: a dependência externa. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza. Na prática, isso significa que o produtor está exposto tanto à volatilidade de preços quanto ao risco de desabastecimento.

Essa dependência varia por nutriente: o nitrogênio é importado principalmente na forma de ureia, com forte presença de Rússia e China; o fosfato depende de países como Marrocos e Rússia; e o potássio vem sobretudo de Canadá, Rússia e Bielorrússia.

Para o milho, o impacto imediato é menor, já que a safra atual já foi plantada. Ainda assim, os preços da ureia e do fosfato também se aproximam de máximas históricas, o que pode influenciar as decisões para 2027.

Para Marcos Rubin, CEO da Veeries, consultoria agrícola, o cenário é de uma “tempestade perfeita” para o produtor. A guerra elevou ainda mais os custos, especialmente dos fertilizantes — com destaque para o nitrogênio e, depois, os fosfatados.

“O movimento funcionou como um freio no ânimo do produtor, que já vinha pressionado e agora vê os custos da próxima safra subirem além do que consegue absorver. O diesel também encareceu e, em algum momento, esse aumento tende a chegar aos defensivos agrícolas. Com isso, o produtor passou a adotar uma postura mais cautelosa e colocou o pé no freio para o próximo ciclo”, afirma.

Liberação de Ormuz

Mesmo com uma eventual retomada das navegaçõe no Estreito de Ormuz o cenário segue incerto. Segundo John Ollett, analista de fretes da Argus na Europa, ainda não está claro se haverá mudanças efetivas nas condições de navegação na região.

O impacto logístico já aparece nos custos de transporte. Dados da Argus mostram que o frete de navios do tipo VLCC do Golfo do Oriente Médio para o leste asiático saltou para US$ 15,71 por barril, ante US$ 6,14 antes do início da guerra. Embora as tarifas tenham recuado nas últimas semanas, há risco de nova alta com a recomposição de estoques na Ásia.

“O frete pode subir ainda mais se a passagem livre pelo estreito for implementada, já que compradores correrão para formar estoques”, diz Ollett.

Segundo Tomás Pernías, analista de fertilizantes da StoneX, existe um represamento logístico relevante na região.

"Ainda que o fluxo de navegação pelo Estreito de Ormuz seja retomado, é esperado que o mercado global permaneça enfrentando dificuldades, em razão dos constrangimentos logísticos acumulados pelo setor nas últimas semanas. O cessar‑fogo reduz a tensão, mas não resolve os desequilíbrios estruturais no curto prazo, diz Pernías.

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