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Preço do frango pode cair no Brasil em 2027 após caso de Newcastle, diz Itaú

Restrições às exportações de Santa Catarina podem aumentar a oferta de carne no país e afetar frigoríficos, avalia banco em relatório

Granja em Santa Catarina: Segundo o banco, o Brasil deve produzir cerca de 6% mais carne de frango em 2026 do que no ano passado (Leandro Fonseca/Exame)

Granja em Santa Catarina: Segundo o banco, o Brasil deve produzir cerca de 6% mais carne de frango em 2026 do que no ano passado (Leandro Fonseca/Exame)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 23 de outubro de 2026 às 11h17.

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O preço da carne de frango pode cair no Brasil no início de 2027 por causa das restrições às exportações impostas após a confirmação de um caso da doença de Newcastle em Santa Catarina. Com parte das vendas externas suspensas, frigoríficos podem ter de direcionar mais carne ao mercado brasileiro, aumentando a oferta do produto.

A avaliação é do Itaú BBA, que, em relatório divulgado nesta sexta-feira, 23,  aponta que os efeitos sobre as exportações brasileiras devem ser limitados. Para Santa Catarina, porém, o impacto pode ser maior, especialmente se China e Arábia Saudita demorarem a retomar as compras.

Na segunda-feira, 19, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou foco da doença de Newcastle em uma granja comercial de perus localizada em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. A propriedade abriga aproximadamente 6 mil aves.

O risco surge em um momento de crescimento da produção. Segundo o banco, o Brasil deve produzir cerca de 6% mais carne de frango em 2026 do que no ano passado. As exportações também podem crescer aproximadamente 10%, apesar das restrições comerciais.

Com mais carne disponível no mercado interno, os preços podem cair, sobretudo no atacado. A preocupação é maior para o primeiro trimestre de 2027, quando o consumo costuma diminuir depois das festas de fim de ano, enquanto as famílias enfrentam despesas como impostos e material escolar.

A possibilidade de queda, no entanto, depende principalmente da duração das restrições comerciais. O histórico recente da avicultura brasileira mostra que interrupções breves nas exportações nem sempre afetam os preços, mas medidas prolongadas podem reduzir a rentabilidade dos frigoríficos.

Dados da Embrapa Suínos e Aves mostram que os custos para produzir frango em Santa Catarina recuaram em 2026 na comparação com o ano anterior.

Entre janeiro e setembro, o custo médio passou de R$ 5,13 por quilo em 2025 para R$ 4,97 em 2026, uma redução de aproximadamente 3,2%. Neste ano, o indicador começou em R$ 5,22 por quilo em janeiro, caiu para R$ 4,87 em março, menor valor do período, e voltou a subir gradualmente nos meses seguintes, chegando a R$ 5 em agosto.

Em setembro, ficou em R$ 4,96 por quilo, abaixo dos R$ 5,13 registrados no mesmo mês de 2025, uma queda de 3,3%.

Os números mostram que, apesar da recuperação parcial dos custos ao longo de 2026, produzir frango continuava mais barato do que no ano anterior.

Preços do frango

Em julho de 2024, um foco da doença de Newcastle em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul, levou a China a suspender temporariamente as importações de carne de aves de todo o Brasil. A restrição foi limitada ao estado 26 dias depois.

Apesar da queda das exportações em agosto, os preços internos do frango não registraram recuo relevante. Segundo o Itaú BBA, a diferença entre o preço de venda da carne no atacado e o custo de produção, indicador utilizado para acompanhar a rentabilidade da atividade, também permaneceu estável.

Naquele mês, a margem medida pelo banco estava próxima de 36%. As exportações brasileiras se recuperaram em setembro, limitando os efeitos da interrupção sobre o mercado doméstico.

O cenário foi diferente em 2025. Em maio, um caso de gripe aviária em uma granja comercial de Montenegro, também no Rio Grande do Sul, provocou uma suspensão mais ampla das exportações brasileiras.

Cerca de 17 mercados interromperam temporariamente as compras, e os efeitos sobre os embarques se prolongaram de maio a agosto.

Desta vez, os preços internos do frango perderam força, enquanto as margens comerciais, que estavam elevadas, recuaram durante aproximadamente quatro meses. O indicador acompanhado pelo Itaú BBA passou de cerca de 44% em maio para 36% em junho de 2025.

A comparação mostra por que o tempo de interrupção das vendas internacionais é importante para o comportamento dos preços no Brasil.

No relatório, o Itaú BBA afirma que “a normalização comercial não acompanha o calendário sanitário”.

Embora o Brasil tenha recuperado o status de livre da gripe aviária em junho de 2025, a China só retirou a suspensão nacional das importações em novembro. Para o Rio Grande do Sul, a liberação ocorreu em janeiro de 2026.

Considerados os dois episódios, o estado ficou aproximadamente 18 meses afastado do mercado chinês.

Por que Santa Catarina pode ser a mais afetada?

O novo foco de Newcastle foi confirmado em 18 de outubro, em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, no oeste de Santa Catarina. A propriedade tinha 6.526 aves, com 26 casos identificados e nenhuma morte, segundo informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Após a confirmação, a China suspendeu as importações de carne de aves produzida em Santa Catarina, atingindo 14 das 61 plantas brasileiras habilitadas a vender para o país asiático. Arábia Saudita e Chile também adotaram restrições ao estado, enquanto México e Malásia suspenderam compras de determinados produtos avícolas de todo o Brasil.

Santa Catarina é o segundo maior produtor brasileiro de carne de frango, atrás do Paraná, mas depende mais das vendas externas.

Em 2025, o estado exportou 1,2 milhão de toneladas de frango, movimentando US$ 2,45 bilhões. Isso representou 22,5% do volume e 25% da receita das exportações brasileiras da proteína.

Aproximadamente 63% da produção catarinense é destinada ao exterior, ante 37% na média nacional.

Essa dependência torna os frigoríficos locais mais vulneráveis às restrições. Sem acesso a compradores importantes, as empresas podem precisar armazenar a carne por mais tempo, procurar outros mercados ou oferecer descontos para conseguir vender.

“A duração das restrições, mais do que a extensão do foco, será o principal determinante do impacto”, diz o banco.

A situação também pode afetar produtores rurais. Se os frigoríficos reduzirem temporariamente o ritmo de criação e abate, a demanda regional por milho e farelo de soja, utilizados na alimentação das aves, poderá diminuir.

Apesar dos riscos, a situação atual é considerada menos grave para o Brasil do que a crise sanitária de 2025. Isso porque a China restringiu as importações apenas de Santa Catarina desde o início, permitindo que frigoríficos de outros estados continuem exportando.

Para o Itaú BBA, o cenário de 2026 tende a ficar entre os dois episódios anteriores: o impacto nacional deve ser menor que o observado em 2025, mas o acúmulo de carne em Santa Catarina pode afetar os preços no atacado, principalmente na região Sul.

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