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Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 12h17.
O El Niño entrou no radar do agronegócio brasileiro e do mercado para a safra 2025/26. Segundo estimativas da StoneX, consultoria de commodities, a La Niña fraca instalada em outubro de 2025 deve perder intensidade ao longo do verão, com retorno à neutralidade do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENSO) previsto para março deste ano.
Para Carolina Giraldo, analista de inteligência de mercado da StoneX, esse regime intermediário — menos acoplado a padrões atmosféricos bem definidos — ajuda a explicar a alternância entre extremos localizados e períodos de estiagem registrada no fim de 2025.
“No Brasil, a Amazônia registrou volumes expressivos de chuva em novembro, com uma recuperação hidrológica importante após o déficit severo de 2024, evidenciando a alta sensibilidade da bacia à distribuição intrassazonal das chuvas e aos seus impactos sobre logística e transporte”, afirma.
O El Niño é um fenômeno climático global caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera os padrões de vento e a circulação atmosférica. Essas mudanças afetam diretamente o clima no Brasil e, consequentemente, a agricultura e o desempenho das safras.
No Sul do país, o El Niño costuma provocar chuvas acima da média, o que pode atrasar o plantio e a colheita, além de aumentar a incidência de doenças fúngicas e o encharcamento do solo. As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul são um exemplo recente desses impactos.
No Norte e no Nordeste, por outro lado, o fenômeno tende a reduzir as precipitações, favorecendo períodos prolongados de seca que afetam lavouras como milho, feijão e mandioca, além das pastagens destinadas à pecuária.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que a safra brasileira de grãos atinja 353 milhões e renove o recorde alcançado na safra 2024/25. Desse total, a soja, principal grão exportado, deve responder por 177 milhões de toneladas.
A colheita do grão, inclusive, começa a ganhar mais fluidez, com manutenção do bom ritmo em Mato Grosso, ganho de um pouco mais de velocidade no Paraná e mais estados dando início ou intensificando os trabalhos, mostra levantamento da AgRural, consultoria de agro.
Segundo a pesquisa, 4,9% da área cultivada no Brasil estava colhida até quinta-feira, 22, contra 2% uma semana antes e 3,9% um ano atrás.
"O La Niña está enfraquecendo rapidamente e deve persistir, no máximo, até o primeiro trimestre de 2026. A expectativa é de que o fenômeno dê lugar ao El Niño no segundo semestre", diz o meteorologista Willians Bini.
Para o BTG, o El Niño pode se tornar um dos principais vetores de pressão sobre a inflação de alimentos no primeiro semestre de 2026. Em seu relatório Macro Mensal de janeiro, o banco destaca que o fenômeno climático está no radar dos analistas para a safra brasileira.
“As condições climáticas causadas pelo El Niño seguem como ponto de atenção para a safra 2025/2026”, afirma o relatório.
Combinado à incerteza fiscal e à volatilidade cambial, o El Niño passa a ser monitorado também sob a ótica dos preços.
“A instabilidade climática gerada pelo El Niño pode representar um vetor altista adicional para os preços de alimentos ao longo do 1º semestre de 2026”, diz o documento.
O impacto, segundo o banco, deve ser mais perceptível em produtos in natura e grãos, cujas cadeias produtivas são mais sensíveis a choques de oferta.
Esses efeitos tendem a se refletir tanto nos preços no atacado quanto no varejo, o que pode dificultar o processo de desaceleração da inflação e exigir atenção redobrada do Banco Central na condução da política monetária.
De modo geral, os analistas do BTG reconhecem que a balança comercial brasileira segue com perspectiva positiva, mas alertam que o clima é um fator de risco relevante. “Ainda que haja riscos de produção agrícola associados ao clima, especialmente com o desenvolvimento do El Niño”, afirmam.