Alê Costa, CEO da Cacau Show: “Os nossos equipamentos já são todos europeus. Então, vamos pagar menos imposto para trazer e isso vai diminuir nosso custo. Acho que temos que abrir o mercado mesmo" (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 12h12.
Última atualização em 29 de janeiro de 2026 às 13h43.
Em meio a um cenário global pressionado pela alta do preço do cacau, por custos crescentes de produção e por novas exigências ambientais, Alê Costa, fundador e CEO da Cacau Show, acredita que o possível acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode trazer ganhos para o mercado de cacau brasileiro.
“Sou a favor da abertura de mercados, porque isso nos obriga a ser mais disciplinados: elevar o padrão de qualidade, investir em processos mais eficientes e reduzir custos. Ao mesmo tempo, também abre o mercado deles para nós,” diz o CEO.
Um dos efeitos práticos do tratado é a redução gradual das alíquotas do imposto de importação, o que tende a tornar produtos europeus mais competitivos no mercado brasileiro. No setor de chocolate, por exemplo, a tarifa atual de 20% será reduzida já no primeiro ano em 6,3%, com cortes progressivos ao longo do tempo, até chegar a alíquota zero no décimo quinto ano após a implementação do acordo. Mesmo com essa regra, o CEO reforça que o acordo tende a funcionar mais como um catalisador de eficiência do que como uma ameaça ao setor.
“A Europa está com requerimentos maiores em relação à qualidade do produto, à questão de desmatamento, de só receber cacau certificado de terras não desmatadas. Isso já existe há alguns anos, o mercado ainda está se adaptando”, afirma o executivo, em entrevista exclusiva à EXAME.
A própria lógica produtiva do setor de cacau, segundo o CEO, favorece países produtores como o Brasil.
“Nós plantamos o cacau. Na Europa, não tem um pé de cacau. Por isso, eu sempre vejo com bons olhos a abertura de mercados — é o que nos permite ampliar acesso, escala e oportunidades,” diz.
O impacto, no caso da Cacau Show, não está só no campo, mas também no operacional.
“Os nossos equipamentos são todos europeus. Então, vamos pagar menos imposto para trazer e isso vai diminuir nosso custo. Acho que está tudo certo — tem que abrir o mundo mesmo”, diz.
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Esse ambiente de maior integração internacional se conecta diretamente ao plano de crescimento da companhia. Em um contexto global desafiador, a Cacau Show entra em seu principal período comercial do ano como peça central de um projeto estratégico maior: dobrar de tamanho até 2030.
A meta é ambiciosa. A empresa trabalha com o objetivo de alcançar R$ 10 bilhões em faturamento no sell-in e cerca de R$ 20 bilhões no sell-out (consumo final) até o fim da década, considerando todas as frentes de negócios — fábrica, hotel e parque temático.
“Hoje, o grupo opera com faturamento anual na casa de R$ 5 bilhões no sell-in e quase R$ 9 bilhões no consumo final, considerando todos os seus negócios”, afirma Costa.
Negociado por mais de 25 anos, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia cria a maior área de livre comércio do mundo, estabelecendo novas regras para exportação, importação, redução de tarifas, integração produtiva e abertura de mercados entre os dois blocos.
O tratado impacta diretamente setores estratégicos da economia, ao facilitar tanto a entrada de produtos europeus no Brasil quanto o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu, além de introduzir novas exigências ambientais, sanitárias e de rastreabilidade.
Apesar da assinatura formal, que aconteceu no dia 17 de janeiro, o acordo ainda não está em vigor e depende de um complexo processo institucional. Segundo Vinicius Vieira, professor de Relações Internacionais da FAAP e da FGV, o tratado ainda precisa atravessar várias instâncias políticas e jurídicas.
“Do lado da União Europeia, existe um mecanismo que permite o funcionamento provisório do acordo, mas ele não deve ser acionado por causa da judicialização”, afirma.
Para valer plenamente, o texto precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu e ratificado pelos parlamentos nacionais. No caso europeu, além das matérias comerciais, cláusulas não comerciais — como as ambientais — também exigem aprovação dos parlamentos dos países-membros. A judicialização do acordo acrescenta uma etapa decisiva ao processo.
“A Corte Europeia pode levar até 24 meses para decidir sobre a legalidade do tratado. Isso funciona como um sinal institucional para que os parlamentos ratifiquem — ou não — o acordo. É assim que funciona em democracias”, afirma Vieira.
Somente após uma decisão favorável da Corte Europeia, atestando que o acordo não viola a legislação da União Europeia, o tratado estará juridicamente apto para ratificação e implementação.
“Antes disso, não há clima político para um funcionamento provisório do lado europeu”, diz o professor. No Brasil, o processo também exige tramitação interna. “Do nosso lado, o acordo ainda precisa passar pela ratificação no Congresso Nacional.”