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Déficit na produção de açúcar deve triplicar na safra 2026/27, diz Datagro

Consultoria projeta dois anos de escassez com Índia menor e Brasil mais alcooleiro

Cana-de-açúcar: bagaço Segundo a Datagro, apesar do déficit, o consumo mundial cresce ligeiramente em 2025/26, com alta de apenas 0,1%, alcançando 193,3 milhões de toneladas.

Cana-de-açúcar: bagaço Segundo a Datagro, apesar do déficit, o consumo mundial cresce ligeiramente em 2025/26, com alta de apenas 0,1%, alcançando 193,3 milhões de toneladas.

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 4 de março de 2026 às 11h16.

Última atualização em 4 de março de 2026 às 11h18.

O mercado global de açúcar deve registrar déficit de 800 mil toneladas no ciclo 2025/26 e aprofundar a escassez para 2,68 milhões de toneladas em 2026/27, segundo estimativas da Datagro, consultoria agrícola, divulgadas nesta quarta-feira, 4.

Segundo Plínio Nastari, presidente da consultoria, o cálculo utiliza uma metodologia própria, que converte todos os volumes para açúcar bruto equivalente e padroniza a análise para o período de outubro a setembro.

“Não é a somatória de safras como alguns fazem, de safras descasadas”, afirmou o executivo, ao explicar as diferenças em relação a outras projeções de mercado.

Segundo a Datagro, apesar do déficit, o consumo mundial cresce ligeiramente em 2025/26, com alta de apenas 0,1%, alcançando 193,3 milhões de toneladas.

Mesmo com moagem maior no Centro-Sul do Brasil em 2026/27 — estimada em 635 milhões de toneladas, ante 610,5 milhões em 2025/26 — a produção de açúcar tende a permanecer praticamente estável, ao redor de 40,7 milhões de toneladas.

Isso porque a Datagro projeta redução no mix açucareiro, de 50,7% para 48,5%, com maior direcionamento da cana para o etanol. O mix açucareiro é a proporção da cana-de-açúcar destinada à produção de açúcar em vez de etanol.

“Se o Brasil tiver realmente um mix mais alcooleiro nesses primeiros meses de safra, com estoque mundial apertado, esse é um ponto de atenção para o mercado”, afirmou Nastari.

O executivo também destacou que os estoques globais estão enxutos, especialmente nas refinarias que dependem do açúcar bruto brasileiro. “Os estoques das refinarias independentes estão muito finos”, disse.

Índia e clima elevam incertezas

Na Índia, a produção da safra 2025/26 foi revisada para baixo, de 32,1 milhões para 30,03 milhões de toneladas, diante de menor produtividade agrícola e encerramento antecipado da moagem em estados como Maharashtra e Karnataka.

Até 28 de fevereiro, a Índia havia produzido 24,63 milhões de toneladas, com 248 usinas já encerradas, contra 186 no mesmo período do ano anterior.

Para 2026/27, o principal risco está no clima. “O desafio vão ser as chuvas de monção que podem ser impactadas por um provável El Niño a partir de julho”, disse o presidente da Datagro.

O El Niño é um fenômeno climático global caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que altera os padrões de vento e a circulação atmosférica. Essas mudanças afetam diretamente o clima global e, consequentemente, a agricultura e o desempenho das safras.

Apesar do cenário de oferta mais apertada, os preços seguem pressionados em Nova York, influenciados por posições vendidas recordes de fundos especulativos. Para Nastari, há um descasamento entre fundamentos e cotações.

“Do ponto de vista de fundamento, a gente não está vendo conexão entre os fundamentos e o preço”, afirmou.

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