Will Rook, CEO da Czarnikow: Hoje, somos uma organização muito mais orientada a serviços. O açúcar continua no centro do nosso negócio, mas, o mais importante, ele não é mais a única parte.
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 16 de fevereiro de 2026 às 06h00.
Última atualização em 16 de fevereiro de 2026 às 07h39.
Will Rook assumiu o comando da Czarnikow, trading de commodities agrícolas, em meio à maior transformação da história da empresa inglesa fundada em 1861. Após décadas dedicada ao comércio global de açúcar, a companhia — hoje controlada pela britânica AB Sugar e pelo banco de investimentos Macquarie — acelera uma estratégia de diversificação que já começa a mudar o perfil do negócio.
Em 2024, a empresa comercializou 9,5 milhões de toneladas de produtos, ante 7,1 milhões no ano anterior, e ampliou sua base de clientes de 1.030 para 1.607.
Com faturamento de US$ 4,3 bilhões, a Czarnikow deixou de atuar apenas como trading de açúcar para se posicionar como fornecedora de soluções em diferentes cadeias industriais, com um portfólio que inclui grãos, resinas plásticas, amendoim, gergelim, frutas, e leite em pó.
Na entrevista a seguir — a primeira após assumir a presidência da trading —, Rook detalha os planos de expansão, reforça o papel estratégico do Brasil na nova fase da companhia, analisa os desafios geopolíticos que pressionam o comércio global e explica como a Czarnikow se prepara para enfrentar possíveis mudanças nos hábitos de consumo e na dinâmica da demanda.
Como é ser CEO de uma grande trading global?
Antes de tudo, é uma grande honra ocupar esse cargo. Estou na Czarnikow desde o início da minha carreira e acompanhei de perto a evolução do negócio ao longo dos anos. Hoje, é importante dizer que não nos definimos mais apenas como uma empresa de trading de açúcar. Por muitos anos, fomos a maior corretora de açúcar do mundo. O açúcar continua no centro da nossa atuação, mas a Czarnikow se transformou em uma organização muito mais orientada a serviços. Ele já não é mais a única parte do nosso negócio.
Qual é a relevância do Brasil para a companhia?
O Brasil é extremamente relevante. É, provavelmente, nossa principal origem em termos de produção de açúcar. Além disso, construímos no país um time de excelência, que entrega resultados consistentes e desenvolveu um negócio excepcional — e isso vai além do açúcar. Como reflexo desse desempenho, Tiago Medeiros, que lidera nosso negócio no Brasil, foi recentemente nomeado chefe das Américas. Agora, ele é responsável por todo o continente, o que reforça a importância estratégica do Brasil para a companhia.
Há investimentos previstos para o Brasil este ano?
Estamos sempre investindo no Brasil. Somos, acima de tudo, uma empresa de pessoas — portanto, investir significa fortalecer nosso time e nossos relacionamentos locais. Seguiremos ampliando nossa presença ao longo de 2026. O compromisso com o Brasil é de longo prazo. E não se trata apenas de açúcar: estamos expandindo para grãos, ingredientes para alimentos e bebidas, matérias-primas e também para nosso negócio de finanças corporativas. Existem diversas frentes empolgantes para desenvolvermos nos próximos anos.
Você já esteve no Brasil como CEO?
Sim. Estive no Brasil em dezembro, na minha primeira viagem como CEO interino — e também foi minha primeira viagem internacional no cargo. O primeiro país que visitei foi justamente o Brasil, o que reflete sua importância para o nosso negócio.
Você assumiu o comando em um momento complexo para a geopolítica e o mercado de commodities. Quão desafiador é esse cenário?
Desde a Covid-19, vivemos uma volatilidade intensa em praticamente todos os mercados. Os preços das commodities oscilaram fortemente — o açúcar atingiu picos elevados e depois recuou, assim como vimos com cacau e café. O frete marítimo também colapsou e voltou a disparar. Além disso, houve aumento da incerteza geopolítica, o que gerou nervosismo nas cadeias de suprimentos. As exigências de sustentabilidade mudaram, assim como os hábitos de consumo. As empresas precisam adaptar receitas, cardápios e produtos constantemente. A origem dos ingredientes também tem mudado rapidamente. Mudanças tarifárias e instabilidade política — como os impactos das decisões de Donald Trump — ampliaram as incertezas no comércio internacional e pressionaram o fluxo de caixa das empresas. Hoje, essa incerteza se tornou o novo normal. O grande desafio é escalar o negócio nesse ambiente.
O que está sendo feito para ganhar escala?
Estamos criando uma estrutura mais clara para priorizar oportunidades. Implantei uma nova governança, com um comitê executivo — do qual Tiago Medeiros faz parte — reforçando a relevância das Américas. Também estamos avançando em automação e digitalização. Estamos explorando inteligência artificial e análises preditivas, o que é extremamente empolgante. Essas inovações serão incorporadas nos próximos meses para sustentar o crescimento e dar o próximo passo na evolução da empresa.
Quais oportunidades você enxerga nesse cenário?
Nosso foco é crescimento sustentável e lucrativo. Isso envolve várias frentes. Um exemplo concreto é o negócio de embalagens, no qual passamos a atuar nos últimos cinco ou seis anos e que tem apresentado evolução bastante promissora. Isso não significa deixar de lado o açúcar ou nossas operações com ingredientes e outras commodities. Pelo contrário: temos ampliado nossa atuação junto a clientes que antes negociavam apenas açúcar conosco e agora contam com um portfólio mais amplo, tanto para exportação quanto para importação.
A inteligência artificial é uma nova fronteira para o setor?
É uma evolução natural, e queremos acompanhar de perto esse movimento. No entanto, seremos disciplinados. Precisamos testar aplicações específicas de IA, medir o impacto real no negócio e avaliar como escalá-las de forma mensurável. Seremos ousados, mas com foco e método. Estamos animados com as oportunidades que a tecnologia pode trazer.
O avanço das canetas emagrecedoras e da busca por hábitos mais saudáveis preocupa?
Começamos a observar algum impacto, mas ele ainda não é absoluto. É difícil consolidar estatísticas globais de consumo em uma conclusão clara. Nossa equipe de análise acompanha o tema de perto, com cautela e atenção. No entanto, existem fatores estruturais ainda mais relevantes. Um deles é a renda disponível em diversos países. Nos mercados emergentes, há uma relação muito próxima entre renda e consumo de açúcar per capita. Em termos simples, quando a renda cresce, o consumo tende a aumentar; quando a renda desacelera, o consumo pode cair. Na minha avaliação, neste momento, esse fator tem um peso maior do que o avanço dos medicamentos para emagrecimento.
O quão otimista você está em relação ao futuro?
A Czarnikow está no meu sangue. Sou altamente ambicioso em relação ao futuro da empresa e acredito que nossa estratégia está totalmente alinhada em toda a organização. Temos uma jornada muito empolgante pelos próximos anos. A visão de onde queremos chegar é clara. Se olharmos para a evolução da empresa — e o Brasil é um ótimo exemplo disso — veremos o quanto já avançamos. Um dos pilares do nosso negócio é conquistar e manter a confiança dos clientes. Vejo essa confiança crescer e os relacionamentos se aprofundarem. Isso me deixa extremamente otimista em relação ao futuro.