EXAME Agro

A doença que assola o gado da França e mudou umas das principais feiras do país

Segundo a OMSA, a doença é transmitida por insetos como moscas e mosquitos e afeta principalmente bovinos, búfalos e alguns ruminantes selvagens

Vaca é removida de fazenda afetada por doença em Les-Bordes-sur-Arize, na França (Valentine Chapuis/AFP)

Vaca é removida de fazenda afetada por doença em Les-Bordes-sur-Arize, na França (Valentine Chapuis/AFP)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 06h00.

O Salão Internacional da Agricultura de Paris (SIA), uma das maiores feiras agrícolas do mundo, não contará com a presença de gado na edição que começa neste sábado, 21 — uma decisão inédita na história do evento.

Entre 500 e 600 bovinos costumam participar da exposição, uma das principais atrações da feira, que recebe cerca de 600 mil visitantes por ano. Os animais são especialmente populares entre as crianças, que aproveitam o evento para ver de perto exemplares do campo.

A ausência neste ano se deve ao avanço da dermatite nodular contagiosa (DNC), doença viral que tem preocupado produtores na França e levado à adoção de medidas sanitárias rigorosas. A França é o país mais afetado pela doença na União Europeia, embora surtos também tenham sido registrados na Itália e na Espanha.

Segundo a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), a DNC é transmitida por insetos, como moscas e mosquitos, e afeta principalmente bovinos, búfalos e alguns ruminantes selvagens. A movimentação de animais infectados para áreas livres da doença é apontada como o principal fator de disseminação a longa distância.

Embora não represente risco à saúde humana — não sendo transmitida por contato direto nem pelo consumo de leite ou carne —, a enfermidade provoca lesões cutâneas, perda de peso, queda na produção de leite e problemas reprodutivos, resultando em perdas econômicas significativas.

O impacto é relevante para a economia francesa. O país possui o maior rebanho bovino da União Europeia, com cerca de 16 a 17 milhões de cabeças, e lidera a produção europeia de carne bovina e laticínios.

De acordo com o Ministério da Agricultura francês, mais de 100 casos já foram registrados no país. Desde 2 de janeiro, porém, não houve notificação de novos focos.

Nesta sexta-feira, 20, um dia antes da abertura do Salão, a ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, anunciou a suspensão da maioria das restrições impostas à movimentação de gado, que haviam sido adotadas para conter a disseminação da doença.

Mesmo com a flexibilização, as organizações de seleção de raças bovinas optaram por não participar do Concurso Geral Agrícola de 2026, realizado dentro da programação do SIA.

“O Salão é um marco profundamente enraizado na história da agricultura francesa. Em momentos como este, a responsabilidade é estar presente, ao lado dos agricultores, e continuar fazendo do Salão um lugar de respeito, diálogo e reconhecimento”, afirmou Jérôme Despey, presidente do SIA, em coletiva realizada em janeiro.

Para conter o vírus, o governo adotou medidas como o abate de rebanhos onde houve confirmação da infecção, além de restrições à movimentação de animais e campanhas de vacinação. A estratégia dividiu o setor.

O sindicato Coordenação Rural classificou a abordagem como desproporcional e ineficaz, enquanto a Confederação dos Agricultores convocou greves em todo o país.

Já a principal entidade representativa do setor, a FNSEA, pediu moderação, mas seu presidente, Arnaud Rousseau, declarou apoio às ações do governo, defendendo a contenção rápida do vírus para evitar impactos adicionais nos preços da carne e dos laticínios.

O que é a SIA

Há mais de 60 anos, o Salão Internacional da Agricultura de Paris reflete e celebra a diversidade e a excelência do setor agrícola francês.

O evento, que atrai um grande público, tornou-se um momento de encontro e troca — consolidando-se como uma data importante no calendário do país.

Em 2025, o evento recebeu 607 mil visitantes, quase 4.000 animais e mais de 1.000 expositores.

Em uma área de 16 hectares no histórico recinto da Porte de Versailles, profissionais do setor, famílias e visitantes puderam vivenciar uma imersão nas paisagens e produções regionais francesas. Oupette, a icônica vaca embaixadora do evento, foi novamente o centro das atenções.

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