Fabrício Batista, CEO da JBJ Agropecuária: “O Brasil com certeza caminha para ser o grande fornecedor dessa proteína vermelha” (JBJ Ranch e Família Quartista /Divulgação)
Repórter
Publicado em 21 de maio de 2026 às 06h01.
“A carne vermelha vai ficar cada vez mais escassa.” O alerta é de Fabrício Batista, CEO da JBJ Agropecuária. Para o executivo, o mundo caminha para um cenário de aumento estrutural da demanda por proteína bovina, enquanto a capacidade global de produção cresce em ritmo mais lento.
A declaração foi feita durante entrevista ao podcast De Frente com CEO, da EXAME, realizado em uma das fazendas do grupo, em Goiás.
Segundo Fabrício, o principal motivo é o ciclo longo da pecuária bovina quando comparado a outras proteínas, como frango e suíno.
“A carne bovina, pela dificuldade de produção, ela sempre vai se valorizar”, afirma o executivo.
Ele explica que o ciclo do gado exige mais tempo, mais terra e maior investimento.
“Você tem nove meses de gestação. Você vai abater um boi com mais de dois anos. Você tem que desmamar, recriar e engordar”, diz.
Na visão do empresário, o desequilíbrio entre oferta e demanda deve se intensificar nos próximos anos.
“A gente vê cada vez mais a população mundial crescendo e a produção você não vê crescendo na mesma velocidade”, afirma Fabrício.
Ele acredita que o avanço da renda em países asiáticos também deve impulsionar o consumo de proteínas de maior valor agregado.
“Quando você tem uma renda maior, você consome uma proteína de melhor qualidade”, afirma.
Para o CEO da JBJ Agropecuária, o Brasil tende a ocupar uma posição ainda mais estratégica no abastecimento global de carne bovina. Isso porque, segundo ele, poucos países possuem a combinação de terra, clima e disponibilidade hídrica necessária para ampliar a produção em larga escala.
“O Brasil é um país fantástico. Ele é um país, eu digo até abençoado. A gente tem clima, nós temos terras férteis e temos água”, diz o executivo.
Fabrício também cita os Estados Unidos como exemplo de redução estrutural do rebanho bovino.
“Os Estados Unidos sempre foram o maior produtor e exportador de carne bovina do mundo. Hoje, o rebanho deles caiu praticamente pela metade”, afirma.
Na avaliação dele, esse movimento deve favorecer ainda mais o agronegócio brasileiro nos próximos anos.
“O Brasil com certeza caminha para ser o grande fornecedor dessa proteína vermelha”, diz.
Hoje, a JBJ Agropecuária atua em toda a cadeia da pecuária, da cria ao frigorífico, e trabalha com mais de 500 mil animais por ano em confinamento.
Aproximadamente 70% da carne produzida pelo grupo é exportada, principalmente para China, Oriente Médio e Chile.
A empresa também aposta em genética e tecnologia para acelerar produtividade no campo. Segundo Fabrício, a evolução genética já reduziu significativamente o ciclo do gado no Brasil.
“Antigamente no Brasil o boi era abatido com quatro anos e meio. Hoje, no nosso confinamento, estamos abatendo boi entre 24 e 30 meses”, afirma o executivo, que compara com o ciclo do frango, que dura entre 40 e 50 dias para abate no sistema industrial e do porco (suíno), que dura aproximadamente entre 5 a 6 meses entre nascimento e abate.
Para Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo e CEO da Athenagro (consultoria especializada na pecuária e no agronegócio), o cenário global realmente aponta para uma oferta mais apertada de carne bovina nos próximos anos, mas o Brasil chega a esse momento em posição privilegiada.
Segundo ele, a produção brasileira vem crescendo de forma consistente graças aos ganhos de produtividade no campo e à forte demanda internacional, especialmente da China, como acontece com a JBJ.
“A produção de carne bovina brasileira vem crescendo bastante nos últimos anos. O que acelerou muito foi a entrada da China como grande cliente do Brasil”, afirma.
De acordo com Nogueira, o país bateu recorde de produção em 2024 e novamente em 2025, alcançando pela primeira vez um volume superior ao dos Estados Unidos.
“Chegamos em 2025 com uma produção, pela primeira vez, maior do que a dos Estados Unidos. Produzimos 12,3 milhões [de toneladas de carne bovina no ano]”, diz.
Para o executivo da Athenagro, mesmo que haja uma desaceleração no ritmo de abate nos próximos meses, a produtividade maior do rebanho deve impedir uma queda brusca da oferta brasileira.
“A gente sempre apostou no efeito da produtividade. Isso se confirmou”, afirma.
No cenário internacional, porém, a situação é diferente. Segundo ele, a produção mundial de carne bovina deve cair, enquanto o comércio global seguirá aquecido.
“A produção mundial deve cair cerca de 50 a 100 mil toneladas. E o comércio global deve aumentar entre 300 e 400 mil toneladas. Então, nós estamos falando de um déficit muito grande na quantidade de carne bovina no mundo”, afirma.
Na prática, isso tende a ampliar ainda mais o protagonismo brasileiro nas exportações.
“O país que tem condição hoje de atender essa demanda é o Brasil”, diz Nogueira.
Ele avalia ainda que questões como as exigências da União Europeia, as tarifas dos Estados Unidos e até os impactos logísticos da guerra no Oriente Médio podem gerar volatilidade no curto prazo, mas não alteram os fundamentos positivos para o setor brasileiro.
“Tem todos os fundamentos favorecendo para que a gente tenha um desempenho muito bom neste ano”, afirma o especialista.
Veja a entrevista completa com Fabrício Batista, CEO da JBJ Agropecuária: