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Peptídeos viram febre no setor do bem-estar e acendem alerta na saúde

Substâncias vendidas como atalho para músculos, beleza e longevidade têm se popularizado, apesar dos riscos e da falta de estudos

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 16 de março de 2026 às 14h13.

Há algumas décadas, quem procurava substâncias para melhorar o desempenho físico geralmente precisava conhecer alguém em academias de fisiculturismo. As negociações aconteciam de forma discreta, já que o controle regulatório sobre elas era muito grande.

Hoje, o cenário é diferente. Compostos que antes pareciam exclusivos ao mundo dos fisiculturistas passaram a fazer parte do dialeto comum das academias. Suplementos como creatina, whey protein e pré-treinos se popularizaram e são vendidos abertamente, em meio ao crescimento do mercado fitness.

Em outra camada estão os anabolizantes, cujo uso indiscriminado se tornou cada vez mais aceito em certos círculos. Mas a escalada não parou aí. Uma nova categoria de substâncias começou a ganhar espaço nesse universo: os peptídeos.

Peptídeos são pequenas moléculas formadas por aminoácidos, menores que proteínas. Tecnicamente, eles não são novidade na medicina — a insulina, por exemplo, é um peptídeo, assim como medicamentos GLP-1, como semaglutida e tirzepatida.

No uso popular, porém, o termo virou um rótulo amplo para diferentes substâncias experimentais que prometem melhorar quase tudo: massa muscular, memória, libido, aparência da pele e até longevidade.

O problema é que, apesar dessas promessas, muitos desses compostos não têm aprovação de agências reguladoras nem estudos robustos em humanos e, ainda assim, podem ser comprados online em poucos minutos. Sites oferecem entrega rápida, descontos e páginas que explicam passo a passo como adquirir.

É o que mostra uma reportagem da revista The Economist. A própria publicação testou o processo e conseguiu comprar um frasco de BPC-157, um dos mais populares entre usuários, que chegou em menos de dois dias após a compra. A substância é promovida por seus supostos efeitos de recuperação e regeneração do corpo.

A "farmacologia da internet"

O uso desses produtos se espalhou em comunidades online de fitness, bem-estar e longevidade. Formou-se uma espécie de "farmacologia popular", na qual pessoas não só discutem e vendem esses produtos, como também arriscam a própria saúde combinando as substâncias com base em pesquisas preliminares e especulação.

Para muitos, os peptídeos são uma maneira de contornar um sistema médico que consideram lento ou focado apenas em tratar doenças, sem considerar a saúde preventiva. Um estudo publicado em 2025 identificou que pessoas que relatam sintomas vagos — como fadiga, confusão mental ou dores difusas — frequentemente sentem que médicos oferecem poucas soluções, enquanto vendedores desses compostos prometem renovação e rejuvenescimento.

Ao mesmo tempo, a ideia de “otimizar” o corpo se tornou mais comum. Milhões de homens nos Estados Unidos fazem terapia de reposição de testosterona, e influenciadores fitness que exibem físicos construídos com ajuda de hormônios e esteroides acumulam milhões de seguidores. Nesse ambiente, até a compra de medicamentos fora de canais oficiais vem se normalizando: uma pesquisa da LloydsPharmacy citada pela reportagem aponta que 28% das pessoas já adquiriram remédios da classe GLP-1 em sites não licenciados ou por redes sociais.

Do fisiculturismo ao mercado de bem-estar

A ideia de usar substâncias para melhorar o desempenho físico não é nova. No início do século 20, atletas já usavam misturas de estimulantes. A partir dos anos 1950, esteroides anabolizantes passaram a se espalhar entre levantadores de peso e frequentadores de academia.

Para Luke Turnock, criminologista da Universidade de Leicester que estuda drogas dessa seara, os peptídeos são uma evolução desse fenômeno. "Há uma linhagem muito clara entre o cenário dos esteroides e a cultura atual dos peptídeos", afirmou ao The Economist.

A questão é que, hoje, o público vai muito além da musculação. O mercado global de bem-estar chegou a US$ 2 trilhões em 2025, segundo a consultoria McKinsey, alavancado por consumidores atrás de melhorar saúde e aparência. Nesse contexto, os peptídeos passaram a ser vendidos como uma forma de "otimizar" o corpo sem necessariamente colocar os pés numa academia.

Isso porque, enquanto os esteroides são associados principalmente ao ganho muscular, os peptídeos são vendidos com promessas muito mais amplas. A reportagem cita alguns exemplos, como a ACE-031, que supostamente aumenta músculos ao bloquear a miostatina, hormônio que limita o crescimento muscular; e a retatrutida, medicamento experimental para perda de peso ainda em testes clínicos.

Segundo Imran Khan, cientista esportivo britânico que trabalha com usuários dessas substâncias, o uso já é comum em certas comunidades. "Todo mundo usa retatrutida", disse ao The Economist.

Brechas legais e preços baixos

Em muitos países ricos, esses produtos são vendidos explorando brechas legais — normalmente, aparecem rotulados como "produtos químicos para pesquisa", acompanhados de avisos de que não são destinados ao consumo humano. Porém, os mesmos sites vendem seringas e têm até vídeos com tutoriais de como aplicar a substância.

O preço também ajuda a alimentar o mercado paralelo. A reportagem cita que 5 mg do medicamento para perda de peso Mounjaro custam cerca de £190 (R$ 1.154,25) em uma farmácia britânica. Já um vendedor online anunciava 20 mg de um composto similar por £79,99 (R$ 486,00).

Riscos e efeitos colaterais

Médicos e autoridades de saúde veem esse crescimento com preocupação. Sem fiscalização adequada, não há garantia de que os produtos vendidos online contenham realmente o que dizem.

Um estudo publicado na Bélgica analisou 27 amostras de peptídeos do mercado paralelo e encontrou pureza variando de 5% a 99,9%. Alguns frascos continham níveis de arsênio acima do permitido, e um apresentava chumbo.

Em outro caso relatado na reportagem, um frasco de L-carnitina comprado online foi analisado por um médico e revelou conter estimulantes sintéticos semelhantes ao ecstasy, um herbicida agrícola e um produto químico industrial.

Mesmo quando o composto é autêntico, o problema continua, visto que a maioria desses produtos nunca passou por testes clínicos completos. Geralmente, o desenvolvimento de um medicamento leva mais de dez anos, custa bilhões de dólares e envolve várias fases de testes em animais e humanos. Cerca de nove em cada dez candidatos falham nesse processo.

Quanto aos efeitos colaterais, também é difícil conhecê-los sem testes clínicos confiáveis. O que se sabe, até o momento, é que os peptídeos que estimulam o hormônio do crescimento podem aumentar o risco de doenças cardíacas, alguns tipos de câncer e uma condição chamada acromegalia, em que ossos da face, mãos e pés crescem de forma anormal.

No caso do BPC-157, há hipóteses de que ele estimule a formação de novos vasos sanguíneos. Isso pode ajudar na cicatrização de tecidos, mas também poderia favorecer o crescimento de tumores já existentes.

Alguns usuários tentam reduzir riscos fazendo exames frequentes, e para isso contam com startups que oferecem testes de sangue diretamente ao consumidor para acompanhar dados de saúde. A SiPhox Health, por exemplo, desenvolveu um dispositivo que coleta sangue do braço sem dor e o promove para "biohackers e atletas". Já a Function Health monitora dezenas de indicadores de saúde por mais de US$ 365 ao ano.

Mesmo assim, especialistas afirmaram ao The Economist que esses exames não substituem testes clínicos nem garantem segurança.

Entre os relatos mais conhecidos está o de Bostin Loyd, fisiculturista americano defensor do uso de peptídeos para o desenvolvimento do corpo. Ele morreu em 2022 após ruptura da aorta e relatava sofrer insuficiência renal grave. Loyd culpava o adipotídeo, um peptídeo usado para perda de gordura que, segundo estudos realizados com macacos, pode causar problemas renais.

Reguladores começam a reagir

Autoridades de saúde também passaram a agir. Em 2025, o Ministério da Saúde do Canadá apreendeu medicamentos vendidos por uma empresa chamada Canada Peptide.

A Agência Europeia de Medicamentos emitiu alertas sobre GLP-1 vendidos no mercado paralelo. No Reino Unido, fábricas suspeitas de produzir medicamentos ilegais para perda de peso foram fechadas.

Nos Estados Unidos, porém, a política pode mudar. Em fevereiro, Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde dos Estados Unidos, disse em um podcast que pretende permitir que alguns peptídeos sejam preparados por farmácias de manipulação mediante receita. Para especialistas, isso poderia reduzir riscos do mercado clandestino, mas não resolve a falta de evidência científica sobre a maioria dessas substâncias.

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