São Paulo – Basta Claudia Trevisan aparentar cansaço para que sua filha Gabriela fique preocupada. A mãe de 55 anos sofre de esclerose múltipla, uma doença autoimune sem cura que tem como principais sintomas a dor crônica e a fadiga. “Quando ela está muito cansada, geralmente, é sinal de que ela pode ter um surto”, explica Gabriela.
Pós-doutora em ciências biológicas pela Universidade do Arizona, nos EUA, Trevisan se especializou em farmacologia da inflamação e da dor. Foi a presença constante da dor na vida da mãe que fez com que a filha entrasse em um ramo pouco estudado na ciência: os sintomas dolorosos relacionados à esclerose múltipla.
O ponto de partida de sua pesquisa é identificar se a proteína TRPA1, encontrada no sistema nervoso, pode ser ativada por radicais livres. Se isso for possível, a proteína irá causar dor de cabeça e também nas extremidades. “Sabendo disso, poderemos desenvolver analgésicos que bloqueariam a ação da TRPA1 e melhorariam a recuperação dos pacientes”, falou Trevisan.
Para realizar a pesquisa, a cientista irá aplicar radicais livres em camundongos com deleção gênica para o receptor TRPA1, uma mutação que faz com que o animal não sinta dores. Se eles ativarem a proteína, ela saberá que a TRPA1 está relacionada aos sintomas da esclerose múltipla e poderá utilizar remédios específicos.
Segundo a pesquisadora, como a ciência não sabe a origem da dor na esclerose múltipla, ainda não existem bloqueadores próprios para a doença. “Normalmente, médicos utilizam morfina para diminuir a dor. Porém, o problema dessa medicação é que ela causa dependência se usada constantemente.”
Por isso, caso o estudo mostre essa relação entre a enfermidade e a TRPA1, ela pretende usar fármacos que já foram identificados como antagonistas da proteína, como a dipirona e a propifenazona, para tratar pacientes. “Dessa forma não irá demorar anos para realizar a parte clínica da pesquisa, já que esses remédios já foram aprovados pela Anvisa.”
Apoio financeiro
O estudo de Trevisan foi um dos sete escolhidos para receber o prêmio “Para Mulheres na Ciência”, uma iniciativa conjunta de L’Oréal, Unesco e Academia Brasileira de Ciência de incentivo a cientistas mulheres. Cada uma das pesquisadoras irá receber uma bolsa-auxílio no valor de 50 mil reais para dar prosseguimento às suas pesquisas.
De acordo com dados do CNPq, um dos órgãos responsáveis pelo financiamento de pesquisas no Brasil, 76% dos cientistas de nível sênior que recebem bolsas de pesquisa no país são homens. Apesar disso, Trevisan conta que nunca sofreu preconceito por ser mulher. “Acredito que seja porque tem muito mais mulheres do que homens na minha área [farmácia].”
Mesmo assim, a pesquisadora aponta que há falta de incentivo para que cientistas realizem seus estudos no Brasil. “Muitos amigos meus foram fazer pós-doutorado fora do país e estão demorando anos para terminar, pois sabem que aqui não existe incentivo e, muito menos, trabalho.”
Para ela, o problema é que a maior parte do auxílio vem apenas do governo, como CNPq e Capes. “Fora do Brasil, a ajuda financeira vem geralmente de empresas privadas. Acredito que falta uma conversa entre as universidades e as indústrias para que as pesquisas sigam adiante.”
-
1. Cientistas talentosas
zoom_out_map
1/9 (Roy Kaltschmidt/Berkeley Lab)
São Paulo – Sete cientistas brasileiras venceram o Prêmio
"Para Mulheres na Ciência" nesta semana. A premiação comemora 10 anos de existência e é oferecida pela L’Oréal, Unesco e a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Em 2015, mais de 400 projetos foram inscritos. As cientistas premiadas são de São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraná. Elas receberam uma bolsa-auxílio no valor de 20 mil dólares (convertidos em reais) para continuar suas pesquisas. Confira os nomes das brasileiras vencedoras e quais são seus estudos na galeria a seguir.
-
2. Alline Campos
zoom_out_map
2/9 (Divulgação/LÓreal)
Doutora em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo (USP), Alline Campos é professora do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto. Ela é autora do artigo "Possível influência dos endocanabinóides nos efeitos comportamentais e plásticos dos antidepressivos". Nele, Alline investiga se os antidepressivos demoram para ativar a produção de endocanabinóides, uma substância ligada ao bem-estar do ser humano. Se sua hipótese estiver correta, a indústria poderá produzir remédios mais efetivos e com menos efeitos adversos nos pacientes com depressão ou ansiedade.
-
3. Daiana Ávila
zoom_out_map
3/9 (Divulgação/LÓreal)
Pós-doutora pela Universidade Vanderbilt (EUA), Daiana Ávila é coordenadora de Iniciação Científica na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul.
Ela foi premiada pela pesquisa "Avaliação dos mecanismos de atraso da progressão da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) pela ingestão de trealose ou vitamina E em Caenorhabditis elegans".
No trabalho, Daiana investiga se compostos como a vitamina E e o carboidrato tralose podem ser utilizados como agentes terapêuticos contra a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Caso a cientista esteja correta, a terapia atrasaria o desenvolvimento desta doença genética e degenerativa que atinge aproximadamente 12 mil pessoas no Brasil.
-
4. Elisa Brietzke
zoom_out_map
4/9 (Divulgação/LÓreal)
Pós-Doutora em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Elisa Brietzke é professora em Psiquiatria e Saúde Mental da faculdade de Medicina da Unifesp. "O paradigma do envelhecimento acelerado no transtorno bipolar" é o nome de seu estudo premiado pela Unesco. Nele, a cientista formulou a hipótese de que uma possível desregulação do sistema imunológico nas pessoas que têm transtorno bipolar é parte de um processo de envelhecimento prematuro. Isto indicaria que os portadores da doença envelheceriam mais rápido do que a maioria da população. Se ela estiver correta, será possível desenvolver remédios capazes de bloquear a progressão do transtorno bipolar.
-
5. Tábita Hunemeier
zoom_out_map
5/9 (Divulgação/LÓreal)
Doutora em Ciências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Tábita Hunemeier é professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Ela venceu o prêmio da Unesco pelo estudo "Genômica e Evolução da Diversidade Craniofacial em Nativos Americanos". No trabalho, Tábita tenta encontrar quais são as variações genéticas que fazem com que os nativos americanos se diferenciem das pessoas de outros continentes. Segundo a cientista, o projeto tem como objetivo gerar informações relacionadas à evolução e à saúde dos nativos americanos.
-
6. Cecília Salgado
zoom_out_map
6/9 (Divulgação/LÓreal)
Pós-doutora pela Universidade de Leiden, na Holanda, Cecília Salgado é professora do Departamento de Métodos Matemáticos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela é autora do artigo "Códigos em superfícis algébricas". Sua pesquisa compreende duas grandes áreas da matemática pura: a geometria algébrica e a teoria dos números. Além disso, ela relaciona estas seções com a teoria da informação, onde estão inseridos códigos corretores de erros. Eles são fundamentais na solução de falhas na trasmissão de informações a partir de linhas telefônicas e discos rígidos.
-
7. Karin Menéndez–Delmestre
zoom_out_map
7/9 (Divulgação/LÓreal)
Pós-doutora pelo Carnegie Observatories, na Califórnia (EUA), Karin Menéndez–Delmestre é professora no Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ela assinou o estudo "Galáxias Próximas e Distantes: Uma Abordagem Única para Entender o Enigma da Evolução de Galáxias". A pesquisa da cientista tem dois focos principais. O primeiro é estudar em detalhes a distribuição espacial, as idades e a composição das estrelas em galáxias locais. A segunda é obter uma visão direta dos primeiros estágios de formação das galáxias. Unindo estas duas partes, Karin pretende contribuir com o desenvolvimento de um modelo sobre os processos que transformam e formam galáxias.
-
8. Elisa Orth
zoom_out_map
8/9 (Divulgação/LÓreal)
Pós-doutora pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Elisa Orth é professora do Departamento de Química da UFPR. Ela ganhou o prêmio da Unesco pelo estudo "Design de bio e nanocatalisadores para organofosforados: de enzimas artificiais a sensores". A pesquisa de Elisa tem como objetivo compreender como as enzimas agem. Além disso, ela quer transformá-las em moléculas sintéticas para incorporar em sistemas mais complexos, como nanomateriais e polímeros. Se seu estudo estiver correto, ela e outros cientistas conseguirão desenvolver materiais que possuem múltiplas funcionalidades.
-
9. Quer ser mais produtivo?
zoom_out_map
9/9 (thinkstock)