Fundador do Silk Road, preso pelo FBI, cometeu erros básicos

Inquérito registra funcionamento do Silk Road e como Ulbricht administrava rede de compra e venda de substâncias ilícitas, documentos falsos e produtos piratas

São Paulo - A página no LinkedIn do americano Ross William Ulbricht, 29 anos, mostra que seus objetivos profissionais mudaram após a graduação. O estudante de engenharia e ciência de materiais da Universidade da Pensilvânia resolveu focar em "criar uma simulação econômica", voltada a "dar às pessoas a experiência de viver num mundo sem o uso sistemático de força pelas instituições e governos".

De acordo com o FBI, essa "simulação econômica" era o Silk Road, chamado pelo órgão americano de "o mercado criminal mais sofisticado e abrangente da internet atual", movimentando 1,2 bilhões de dólares em vendas, que geraram 80 milhões em comissões para o site. Ulbricht, suposto administrador da rede, foi preso ontem em São Francisco, Estados Unidos, acusado dos crimes de tráfico de drogas, invasão de computadores e lavagem de dinheiro.

O inquérito divulgado pelo FBI registra com detalhes o funcionamento do Silk Road e como Ulbricht administrava a rede de compras e vendas de substâncias ilícitas, documentos falsos e produtos piratas. Assinado pelo agente Christopher Tarbell, o documento é revelador, por mostrar que Ross Ulbricht, conhecido como Dread Pirate Roberts pelos usuários do Silk Road, foi negligente naquilo que ele tanto cobrava de seus negociadores: discrição e segredo.

O Silk Road

Criado em 18 de junho de 2011, o Silk Road era baseado no sigilo de seus usuários e operações. O mercado virtual era acessado apenas por meio da rede Tor de computadores, cujos servidores distribuídos ao redor do mundo garantem a proteção da identidade de seus usuários, e as operações eram exclusivamente pagas em Bitcoin, a moeda virtual criptográfica que funciona sem uma entidade monetária central.


De acordo com o FBI, cerca de 13 mil tipos de substâncias ilegais eram vendidos na página, de maconha até heroína, passando por remédios de venda controlada e psicodélicos. Também eram comercializados no Silk Road serviços de hacking, armas, documentos falsos, informações roubadas e até matadores de aluguel em 10 países diferentes. Os agentes americanos realizaram mais de 100 compras no site, comprovando que os produtos realmente eram ilícitos e eram remetidos por mais de 10 países de origem.

O sistema de pagamento era baseado na moeda virtual bitcoin, que impede que a origem do dinheiro seja rastreada. Os bitcoins usados nas compras e vendas eram depositados em uma espécie de "carteira virtual" do Silk Road, que remetia o dinheiro aos vendedores após descontar sua comissão, que variava entre 8% e 15%, dependendo do valor do negócio.

Os servidores do Silk Road eram divididos em vários países. Porém, o FBI conseguiu localizar o servidor utilizado para hospedar o site principal. O país no qual esse servidor era localizado não é revelado no inquérito. A descoberta dessa espécie de servidor principal foi a chave para desmantelar o esquema do Silk Road.

O inquérito revela números espantosos sobre a rede de compras. Em 23 de julho de 2013, havia 957 079 usuários registrados no Silk Road, que realizaram 1 229 465 transações, envolvendo 146 946 compradores e 3 877 vendedores. A receita total que essas negociações movimentou foi de 9 519 664 bitcoins, que geraram 614 305 bitcoins de comissão para o site. Na época da conclusão do inquérito, esses valores equivaliam a 1,2 bilhão de dólares em receita e 79,8 milhões de dólares em comissões para o administrador.

Quem era Dread Pirate Roberts

O FBI concluiu que Ross Ulbricht, conhecido entre os usuários como Dread Pirate Roberts, era o único administrador da página, sendo responsável pela infraestrutura de servidores e programação das páginas, por criar o código de conduta, definir o que poderia ser vendido na rede e contratar colaboradores para a manutenção das páginas.


Principalmente, Dread Pirate Roberts era o único beneficiário das comissões geradas pelas vendas no site, recebidas em milhares de transações diferentes, dificultando o rastreamento das negociações. Por exemplo, Ulbricht teria recebido em julho de 2013, aproximadamente 3 237 transferências de Bitcoins em sua conta, totalizando 19 mil dólares. Quase todas as transações eram categorizadas como “comissão”.

Ulbricht administrava a página com mão-de-ferro. Era rígido em relação aos códigos de conduta da rede de compras e dizia que era “o capitão do navio”. “Quem não está de acordo com as regras do capitão pode abandonar o barco”, afirma ele em um post no fórum do Silk Road.

Em março de 2013, o administrador da página supostamente teria contratado um matador de aluguel para assassinar um usuário do site que o estava chantageando. Um vendedor chamado “FriendlyChemist” ameaçou revelar uma lista de nomes e endereços de vendedores e compradores do Silk Road, a menos que Dread Pirate Roberts lhe pagasse 500 mil dólares.

O FBI descobriu que Ulbricht pagou 150 mil dólares a um matador de aluguel que ele conheceu no próprio Silk Road. “Esse tipo de comportamento é inaceitável para mim. Especialmente aqui no Silk Road, o anonimato é sacrossanto”, disse Ulbricht a “redandwhite”, codinome do suposto matador de aluguel. Em 1 de abril, redandwhite enviou uma foto da vitima com a mensagem “seu problema foi resolvido... Fique tranquilo, porque ele nunca mais irá chantagear ninguém. Para sempre”.


Porém, segundo o inquérito, as autoridades de White Rock, cidade canadense onde FriendlyChemist vivia, nunca registraram um homicídio no período das mensagens.

Rastro de erros

Para alguém que prezava o anonimato, Dread Pirate Roberts/Ross Ulbricht cometeu diversos erros ao proteger sua identidade. A investigação descobriu em junho deste ano que Ulbricht estava vivendo em São Francisco, na Califórnia, próximo a um cybercafé na qual alguém utilizou um computador para se logar ao servidor central do Silk Road. O FBI descobriu o endereço do Gmail de Ulbritcht, e descobriu que os últimos acessos foram realizados do mesmo computador no cybercafé de São Francisco. Dread Pirate Roberts também fazia diversas referências ao fuso-horário do Pacifico em suas postagens, o que fez os investigadores concluírem que seria muito provável que Dread Pirate Roberts e Ulbritcht fossem a mesma pessoa.

Em julho de 2013, os investigadores rastrearam um pacote enviado a Ulbricht, que continha nove documentos falsos, logo depois que Dread Pirate Roberts perguntou no Silk Road sobre alguém que poderia fornecer material desse tipo, pois gostaria de alugar servidores com nomes falsos. Cada um dos documentos tinha nomes diferentes, mas a fotografia da mesma pessoa: Ross Ulbricht.

Após conseguir o nome do administrador do Silk Road, o FBI obteve uma cópia da carteira de motorista de Ulbricht, que tinha a mesma foto dos documentos falsos rastreados pela agência. A mesma pessoa estava nos perfis de Ulbricht do Google+, LinkedIn, Twitter e Facebook.

Por fim, o FBI descobriu que em março de 2012 o username “Ross Ulbricht” havia se logado no site Stack Overflow, utilizado pela comunidade de usuários para responder perguntas sobre problemas de programação. O usuário, que utilizava a mesma conta do Gmail de Ulbricht, pedia ajuda para escrever um código customizado para acessar a rede Tor de qualquer computador.

Logo depois de ter a dúvida respondida, Ulbritch mudou seu username e seu e-mail de registro para frosty@frosty.com. Em julho deste ano, os agentes do FBI descobriram que o servidor principal de administração do Silk Road era acessado apenas pelo usuário frosty@frosty.

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