Redes da Bélgica, de Luxemburgo, da Suécia e da Estônia relataram picos de temperatura em geladeiras e congeladores, (ThinkStock/Thinkstock)
Repórter de Mercados
Publicado em 2 de novembro de 2026 às 10h09.
Freezers programados para chegar a 50°C no meio da madrugada voltaram a aparecer em supermercados da Europa. Redes da Bélgica, de Luxemburgo, da Suécia e da Estônia relataram nesta segunda-feira, 2, picos de temperatura em geladeiras e congeladores, três semanas após um ataque hacker que atingiu centenas de lojas na França.
O grupo holandês-belga Ahold Delhaize e a belga Colruyt informaram que um incidente de TI durante a noite afetou a refrigeração de dezenas de unidades na Bélgica e em Luxemburgo, segundo a agência Reuters.
Na Suécia, as varejistas ICA e Coop registraram problemas semelhantes, e pelo menos uma loja atribuiu a falha a criminosos digitais. Até agora, nenhuma autoridade apontou os responsáveis, e ninguém reivindicou a autoria dos ataques.
Na Delhaize, a alta de temperatura nos sistemas de refrigeração foi percebida nesta segunda-feira, segundo a porta-voz Sarah De Meester. A empresa investiga o caso.
O diagnóstico mais detalhado veio da Sabcobel, empresa belga que opera os sistemas de refrigeração da rede. O CEO, Stephan Moelans, disse à agência Belga que houve um ataque cibernético no qual os evaporadores foram colocados em modo de degelo.
O degelo é uma função de rotina, que aquece o equipamento por um curto período para eliminar o gelo acumulado. Foi o mesmo mecanismo explorado na França. Mantido ativo por horas, transforma o congelador em estufa.
Na Colruyt, que opera lojas da bandeira Spar na Bélgica em regime de franquia, cinco unidades tiveram os sistemas de refrigeração atacados, segundo um porta-voz do grupo.
A brecha está no controle remoto. Em supermercados, as geladeiras costumam ser gerenciadas por painéis acessíveis pela internet, o que permite a empresas de manutenção ajustar a temperatura de qualquer lugar.
O mesmo vale para sistemas de aquecimento, câmeras de segurança e alarmes. Equipamentos antes essencialmente mecânicos passaram a ser monitorados e comandados à distância, o que amplia o espaço de atuação de cibercriminosos.
O centro nacional de cibersegurança da Suécia trabalha em vários incidentes envolvendo a refrigeração de mercados em diferentes regiões do país, disse o chefe do órgão, John Billow, à Reuters.
"Nas últimas semanas, identificamos que temos uma quantidade considerável de dispositivos de tecnologia operacional expostos na Suécia, e temos sido claros sobre a necessidade de atualizá-los ou corrigi-los", afirmou Billow.
Uma loja da ICA publicou nas redes sociais que a temperatura de geladeiras e freezers havia sido hackeada durante a madrugada e ajustada para 50°C. Mais tarde, informou que já tinha reaberto.
Em Estocolmo, a unidade ICA Baronen fixou um aviso informando que todos os freezers estavam quebrados por causa de um ataque cibernético. Segundo o gerente de vendas, a invasão ocorreu às 2h e só foi notada às 5h30.
A ICA, de capital fechado, confirmou que um número limitado de lojas teve os sistemas de refrigeração e congelamento afetados. A Coop disse ao jornal Aftonbladet que seis de suas unidades passaram por incidentes parecidos.
Na Estônia, uma rede de supermercados também teve as temperaturas ajustadas para 50°C, segundo a fornecedora de tecnologia Kitman Coldtech, ouvida pela emissora pública ERR. O presidente-executivo da empresa disse que o caso tinha acontecido naquela manhã, mas não revelou o nome da rede.
A nova onda repete o roteiro visto na França na madrugada de 11 para 12 de outubro. Segundo a polícia francesa, hackers tomaram o controle de unidades de refrigeração em centenas de supermercados, elevaram as temperaturas a até 50°C e provocaram incêndios e perda de alimentos.
O governo francês estimou em cerca de 700 o número de lojas atingidas. A Les Mousquetaires, dona do Intermarché, relatou que refrigeradores de cerca de 150 unidades ficaram a 50°C por seis horas. O Carrefour informou 80 supermercados afetados.
A dinamarquesa Danfoss, fabricante de parte dos controladores atingidos, afirmou que alguns modelos rodavam firmware desatualizado e que vinha recomendando aos supermercados a atualização dos equipamentos.
Também em outubro, a Ahold Delhaize registrou um incidente de cibersegurança na polícia holandesa, após detectar atividade suspeita em sua infraestrutura. Na época, a companhia disse não ver motivo para associar o caso aos ataques franceses.