Tecnologia

Como os gamers viraram a principal aposta da Intel para 'resgatar' o mercado de PCs

Diretor de marketing da Intel no Brasil detalha a estratégia por trás do Gamer Days e explica por que o consumidor gamer segue central para a empresa, mesmo em meio à crise de memória RAM e à turbulência recente da companhia nos EUA

Carlos Buarque, diretor de Marketing da Intel Brasil (Intel/Divulgação)

Carlos Buarque, diretor de Marketing da Intel Brasil (Intel/Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 10h28.

Última atualização em 14 de setembro de 2026 às 09h42.

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O computador pode ter perdido espaço entre as preferências dos consumidores de eletrônicos, mas continua indispensável para quem joga, cria conteúdo ou trabalha com programas mais pesados. É nesse público, disposto a investir em desempenho, que a gigante dos chips Intel enxerga uma nova frente de crescimento.

A companhia norte-americana promove no Brasil edição do Intel Gamer Days, campanha que envolve toda a América Latina e reúne fabricantes, varejistas e influenciadores em torno de ofertas para o público gamer, de 1º a 11 de outubro.

Em entrevista à EXAME, Carlos Buarque, diretor de Marketing da Intel Brasil, afirma que a multinacional apostou nos últimos anos na ampliação da Gamer Days para seis países da América Latina, Brasil, México, Colômbia, Argentina, Chile e Peru, diante do crescimento da demanda por PCs e do consumo elevado de games na região.

"O Gamer Days é uma oportunidade de reforçar a conexão com o público gamer por meio de ofertas e inovações. A ação é realizada há vários anos e vem crescendo à medida que essa audiência se expande."

O atraso na chegada da campanha à região neste ciclo teve origem na disponibilidade de componentes, parceiros avaliavam adiar para outubro, mas isso trazia o risco de o consumidor encontrar oferta sem estoque para comprar.

O varejo é a carta na manga

Outro ponto forte desta edição é a diversidade de parceiros. "A Amazon, que antes entrava principalmente com notebooks, passou a oferecer também componentes, como processadores. Kabum, Pichau, Terabyte, Mercado Livre e Magazine Luiza também participam. Entre os fabricantes estão Acer, Asus, Dell e Lenovo."

A entrada de varejistas online é vista por Buarque como um avanço relevante num cenário desafiador para o setor no Brasil, empresas operando com margens baixas, concorrência de marketplaces e multinacionais, juros altos e disputa por preço, com grandes representantes do setor em recuperação judicial.

"O varejo é um setor de margens baixas e alta competição, cenário que se torna ainda mais difícil em períodos de juros elevados. A categoria gamer é interessante porque reúne produtos de maior valor e um ecossistema de softwares, acessórios e componentes que podem oferecer margens melhores."

O comportamento do consumidor reforça essa lógica: "é um público que costuma gastar mais e comprar máquinas de maior valor, por isso o preço e as ofertas têm peso importante. Mas também é um consumidor que economiza e espera datas promocionais para fazer upgrades — trocar processador, placa-mãe, placa de vídeo ou SSD." Como parte da campanha, a Intel oferece bônus de jogos para quem comprar processadores ou máquinas elegíveis.

Na estratégia, entra a relação de longa data da Intel com a comunidade gamer — a empresa patrocina há duas décadas o Intel Extreme Masters, um dos campeonatos de eSports mais longevos do mundo, e mantém equipe dedicada a esse público no Brasil há pelo menos 13 anos.

Para o executivo, o consumidor gamer cumpre papel semelhante ao da Fórmula 1 para a indústria automotiva: é onde inovações aparecem primeiro, antes de chegar ao mainstream, e os criadores de conteúdo reforçam esse efeito, virando "influenciadores da família, dos colegas e amigos" na hora de decidir uma compra cara.

Crise de memória RAM

A indústria de games está entre os maiores segmentos de entretenimento do mundo: movimentou US$ 197 bilhões em software em 2025, e pode chegar a US$ 505 bilhões até 2030 somando hardware, serviços e publicidade, segundo o Sebrae.

Esse crescimento esbarra num obstáculo que atravessa o setor: a oferta de computadores gamers sente os efeitos da escassez global de memória RAM, provocada em grande parte pelo redirecionamento da produção industrial das fabricantes para atender à demanda dos data centers de inteligência artificial. Some a isso a cotação do dólar e a disputa por componentes importados, e o resultado é encarecimento generalizado.

A resposta da Intel junto aos fabricantes tem sido oferecer configurações com menos memória, mas com espaço para expansão futura.

"Hoje, talvez, se um gamer for comprar um computador, ele fala: 'eu queria comprar um computador com 16 GB de RAM'. Mas a memória ainda está muito cara. Então eu vou comprar um com 8 GB, mas que tem capacidade para, daqui a 6 meses, eu comprar o segundo pente e passar para 16", exemplifica Buarque.

Nos últimos dez anos, as vendas globais de PC caíram cerca de 30 milhões de unidades, de 300 milhões para 273 milhões, e o mercado deve crescer a menos de 1% ao ano até 2029, segundo a IDC.

Um parênteses sobre a própria Intel ajuda a entender por que o Gamer Days importa tanto para a empresa agora. A companhia vem de anos difíceis, perdendo espaço para Nvidia e AMD, e em 2025 passou por um episódio raro para uma gigante americana: o governo Trump converteu US$ 8,9 bilhões em subsídios federais numa participação acionária de cerca de 10% na empresa, tornando o governo dos Estados Unidos o maior acionista da Intel.

Para os analistas, esse socorro foi necessário, mas insuficiente sozinho, já que o maior desafio da companhia segue sendo atrair clientes externos para seu processo de fabricação mais avançado. A ação da Intel, de todo modo, mais que quadruplicou desde a chegada do CEO Lip-Bu Tan, em março de 2025. É nesse pano de fundo de reconstrução de imagem e receita que o público gamer, historicamente fiel à marca, ganha peso estratégico redobrado.

A massificação da inteligência artificial local

Buarque explica que boa parte dos benefícios de IA já está presente no dia a dia sem que o usuário perceba, na geração de frames intermediários por IA em placas de vídeo, que melhora o desempenho gráfico com menor consumo de energia, e no cancelamento de ruído em videochamadas, processado por NPUs.

Para ele, a percepção do público sobre IA ainda está atrelada a ferramentas em nuvem, como ChatGPT e Gemini, mas isso deve mudar com a popularização de PCs equipados com NPU — a Intel lançou recentemente a linha Core Série 3, levando esse tipo de processamento ao segmento mainstream, até então restrito aos processadores Core Ultra premium.

A expansão do mercado gamer não é sustentada só por quem joga: máquinas de maior capacidade também atendem criadores de conteúdo e profissionais que usam programas pesados.

Segundo o executivo, os PCs gamers representam, em média, cerca de 10% das vendas de computadores da Intel no Brasil, percentual que em alguns mercados supera 20%, indicando espaço para expansão da categoria no país e na América Latina.

Ainda assim, o público gamer segue central. "Ele busca inovação, influencia outros consumidores e renova o computador com maior frequência. A evolução dos jogos exige mais capacidade gráfica, memória e armazenamento, o que mantém esse consumidor na fronteira da tecnologia".

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