Com maior lucro em 10 anos, Positivo surfa na onda do home office

A empresa brasileira teve lucro líquido de R$ 195,8 milhões em 2020, impulsionada pela demanda por PCs e notebooks, processos e novas frentes, como a casa inteligente. Agora, a empresa traz ao mercado os laptops da Compaq, famosa marca da HP

A pandemia do novo coronavírus fez o computador voltar a ser pessoal novamente. O setor superou as expectativas de analistas de mercado ao ter uma forte demanda para o home office e para a educação à distância, amplamente adotada em todos os níveis de ensino. Nessa onda, quem surfou foi a brasileira Positivo Tecnologia. A empresa aumentou suas vendas de computadores e notebooks e teve uma importante vitória tributária na Justiça. Com isso, a Positivo teve seu maior lucro líquido dos últimos dez anos: 195,8 milhões de reais, com receita total de 2,2 bilhões.

Para Hélio Bruck Rotenberg, CEO da Positivo Tecnologia, a alta nas vendas de computadores e notebooks está diretamente relacionada com as necessidades do chamado “novo normal”, com mais pessoas trabalhando e estudando em casa. O aumento de demanda, segundo ele, foi observado nos notebooks da marca Positivo e também da Vaio, fabricada e distribuída pela Positivo no Brasil.

“De uma hora para a outra, foi necessário aumentar o número de computadores e notebooks em casa. Isso foi uma realidade na maioria das famílias brasileiras. Todo mundo precisa do seu computador. Isso não aconteceu antes. Até em famílias de classe média com dificuldade de compra foi um esforço enorme para comprar mais computadores. A demanda foi explosiva. A tela grande, processamento e possibilidade de editar planilhas tornam o computador mais adequado do que um celular para trabalho e estudo, sem desmerecer o smartphone”, afirma Rotenberg, em entrevista à EXAME.

Parte do Grupo Positivo, a companhia foi criada em 1989 para montar e vender computadores a escolas. No entanto, com o congelamento de recursos no governo de Fernando Collor, em 1990, a empresa precisou alterar o rumo e começou a vender computadores ao poder público. Somente 14 anos depois a Positivo foi ao varejo com o objetivo de vender eletrônicos com preços acessíveis. Para atender diferentes públicos, a Positivo fez alianças. Ela é parceira da marca de notebooks Vaio, que antes pertencia à japonesa Sony e hoje é independente, e da empresa de acessórios Anker. Além disso, a empresa tem marcas próprias, como a de smartphones Quantum e a 2AM, de computadores para jogos. Uma estratégia similar é adotada pela rival brasileira Multilaser, que tem cerca de 20 marcas próprias e fabrica os smartphones da HMD Global com a marca da Nokia no Brasil e distribui os acessórios para PCs da marca Rapoo.

Mesmo com os desafios da pandemia, que levaram a empresa a adaptar a fábrica em Manaus para as normas de distanciamento social, o ano da Positivo foi cheio de boas notícias. O segmento de computadores representou quase 60% da receita e compôs boa parte do lucro líquido de 56,8 milhões de reais relacionado à venda de produtos e à eficiência operacional da companhia. Novos negócios como soluções de meios de pagamento, tecnologia educacional, casa inteligente (IoT), aluguel de equipamentos e servidores foram ampliadas e, juntas, representam 19% do total do faturamento da Positivo. No trimestre final de 2020, a linha de notebooks Vaio teve crescimento de 292% ante o mesmo período em 2019. Rotenberg afirma que os notebooks da marca representam 46% das vendas de aparelhos na faixa de preço de até 2.600 reais. Já a divisão de casa inteligente fechou o ano com 250 mil usuários, crescimento de 1.485% no ano.

O segmento de computadores no mundo registrou 302 milhões de unidades vendidas no ano de 2020, um crescimento de 13% ante 2019, segundo dados da consultoria americana IDC. O patamar de vendas acima de 300 milhões ao ano não era registrado desde 2014. Diante a forte demanda por celulares, o setor de computadores seguiu uma tendência de estabilidade entre 2016 e 2019 até a retomada sem precedentes no ano passado.

Lucro líquido e receita da Positivo Tecnologia

 (EXAME/Exame)

Nesse novo contexto de mercado, a Positivo Tecnologia decidiu aumentar sua presença nos notebooks ao atender uma faixa de preço intermediária com uma nova marca já conhecida dos brasileiros. A Compaq, marca da americana HP, passa a ter seus notebooks produzidos e vendidos pela empresa brasileira. Com isso, a Positivo passa a ter uma marca para cada categoria no mercado de notebooks, entrada (Positivo), intermediária (Compaq) e avançada (Vaio). No dia do anúncio, as ações da companhia fecharam com queda de 4,7%.

De 2021 em diante, a Positivo pode ocupar um novo patamar nos negócios. Desde o fim do ano passado, as compras do poder público começaram a voltar e devem continuar a avançar neste ano. Além disso, a companhia venceu uma licitação do TSE para produzir 180 mil urnas eletrônicas para o pleito presidencial de 2022, em um acordo de R$ 799 milhões, valor que fará a receita da empresa dar um salto.

Diante da grande demanda por computadores, um descompasso na cadeia de fornecimento de componentes eletrônicos causou uma escassez de semicondutores usados por diferentes setores de mercado de eletrônicos.

“A falta de componentes se reflete em aumento de preços. O LCD foi o componente que mais faltou porque é usado por todas as indústrias. A demanda crescente de tudo ao mesmo tempo fez o preço aumentar, e há uma quantidade limitada. Crescemos no ano passado em quantidade, mas não crescemos mais por limitação de fornecimento. Agora, temos uma crise de componentes de placas de som de computadores. Uma empresa taiwanesa [TSMC] fornecia isso para todo o mundo e eles não têm hoje”, diz Rotenberg, que aponta, também, o aumento de preços de notebooks ligado à desvalorização do real perante ao dólar.  “Acreditamos em uma normalização de oferta e demanda de semicondutores apenas no começo do ano que vem”, afirma o CEO, que, entretanto, reforça ter como fabricar os novos notebooks da marca Compaq, que chegarão ao mercado em maio.

Os aparelhos com a marca Compaq terão processadores da linha Intel Pentium, Core i3 e Core i5, enquanto os aparelhos Vaio seguirão com opções com processadores Core i5 e Core i7, mais avançados. Para se diferenciar no mercado e conseguir competir com multinacionais que lideram as vendas globais de computadores e notebooks, como a chinesa Lenovo, as americanas HP e Dell e a sul-coreana Samsung, a brasileira busca criar uma combinação de recursos e especificações técnicas adequados às necessidades do brasileiro, além de tirar proveito de uma ampla penetração em pontos de vendas em todo o país.

Para Vitor Melo, analista do InvestPro, braço de análise de investimentos da EXAME, a boa fase da Positivo está, de fato, relacionada ao aumento de vendas e a uma melhoria nas despesas da companhia. No entanto, o analista afirma que o lucro foi impulsionado em 139 milhões de reais, dos 195,8 milhões de lucro líquido, devido a um processo ligado à inconstitucionalidade da inclusão do ICMS estadual na base do cálculo do PIS e da Cofins e processos administrativos de disputadas de ISS. Com isso, o lucro altíssimo em relação à média dos últimos dez anos não deve se repetir, apesar de a companhia ter atingido um novo patamar, ter um bom caixa e estar crescendo em frentes importantes, como servidores e casa inteligente.

Com base nos dados da IDC e em estimativas, a área de inteligência de mercado da Positivo projeta um crescimento no mercado mundial de computadores para 2021. Novamente, o nicho deve ter crescimento de dois dígitos, chegando a 12,5% e a um total de 340 milhões de unidades vendidas no mundo, considerando o mercado total. Há desafios pela frente, como um auxílio emergencial menor em 2021 do que em 2020, restrições de circulação e fechamento de lojas físicas para conter a pandemia do novo coronavírus e a falta de componentes eletrônicos importantes. Ainda assim, para o cenário promissor para a venda de PCs e notebooks, a Positivo está mais preparada do que nunca. Para um futuro além do computador, a divisão de casa conectada será uma oportunidade para a empresa surfar em uma nova onda de consumo, cujo faturamento global estimado é de 99 bilhões de dólares para 2021 e de 176 bilhões em 2025, segundo a consultoria alemã Statista.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 3,90/mês
  • R$ 9,90 após o terceiro mês.

  • Acesse quando e onde quiser.

  • Acesso ilimitado ao EXAME Invest, macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo e tecnologia.
Assine

exame digital anual

R$ 99,00/ano
  • R$ 99,00 à vista ou em até 12 vezes. (R$ 8,25 ao mês)

  • Acesse quando e onde quiser.

  • Acesso ilimitado ao EXAME Invest, macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo e tecnologia.
Assine

Já é assinante? Entre aqui.