Sem governança, diversidade de perspectivas e critérios éticos claros, a tecnologia apenas automatiza decisões insustentáveis (Daniel Grizelj/Getty Images)
Fundadora e CEO da RM Cia 360
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 06h00.
A aceleração tecnológica no século 21 transformou profundamente a dinâmica empresarial. Inteligência artificial, big data e dashboards sofisticados passaram a orientar estratégias corporativas em tempo real, redefinindo padrões de eficiência, produtividade e competitividade. No entanto, quando o tema é sustentabilidade, é preciso compreender a complexidade sistêmica envolvida. A forma como as empresas tomam decisões impacta o Planeta Terra, a sociedade, as cadeias produtivas e, consequentemente, a economia.
Refletir sobre decisões sustentáveis é refletir sobre responsabilidade. Não se trata apenas de otimizar resultados, mas de compreender que escolhas corporativas produzem efeitos estruturais e duradouros. Nesse contexto, tecnologia é ferramenta — e não substituto do discernimento humano.
Para aprofundar essa reflexão, o engenheiro e doutor em engenharia de produção André Luis -Helleno, com pós-doutorado na Universidade Técnica de Berlim, na Alemanha, contribui com informações significativas sobre o tema em questão. Atuando nas áreas de gestão de operações, manufatura avançada e sustentabilidade, com foco em inovação industrial e cadeias produtivas sustentáveis, Helleno acompanha de perto os desafios da integração entre tecnologia e responsabilidade corporativa.
Em uma de suas colocações, ele ressalta: “A utilização de dashboards saturados de indicadores, a confusão entre correlação e causalidade e, principalmente, métricas substituindo o julgamento são os maiores sintomas da baixa maturidade”. A crítica não recai sobre a tecnologia em si, mas sobre o uso imaturo de ferramentas analíticas. Decisões sustentáveis são fundamentadas em dados reais, e o processo decisório deve passar por uma governança ética e humanizada.
A questão central não é a ausência de dados, mas quem define o que é medido, quais critérios são priorizados e quais impactos permanecem fora do modelo. Sistemas de inteligência artificial reproduzem valores, vieses e racionalidades de quem os constrói. Sem governança, diversidade de perspectivas e critérios éticos claros, a tecnologia apenas automatiza decisões insustentáveis.
No ambiente corporativo, decisões sustentáveis exigem alinhamento ao Triple Bottom Line — econômico, social e ambiental —, aos critérios ESG e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Esse conjunto de referências amplia o escopo da tomada de decisão, deslocando o foco exclusivo da performance financeira para uma lógica sistêmica e de longo prazo.
“A tecnologia está presente em áreas como análise de dados, vendas, marketing e administração, e grande parte das organizações já percebe ganhos de eficiência e produtividade. Contudo, desafios de maturidade, mensuração de retorno e governança permanecem, mostrando que o uso da IA ainda está em transição de maturidade para sua utilização como ferramenta de tomadas de decisões sustentáveis”, afirma Helleno.
Dados recentes reforçam essa transição. “A quantidade de ferramentas analíticas com base em IA generativa e dashboards tem avançado rapidamente nos ambientes corporativos. De acordo com o AI Index Report 2025, publicado pelo Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence (HAI), a adoção corporativa de IA atingiu 78% das organizações em 2024; em 2023, esse número era de 55%”, afirma o doutor em engenharia de produção.
O avanço é expressivo, mas maturidade tecnológica não significa maturidade decisória. Diferentemente de decisões otimizadas por algoritmos, ações sustentáveis são, por natureza, multicritério. Elas assumem trade-offs explícitos, lidam com conflitos entre curto e longo prazo e exigem escolhas que nem sempre aparecem como “eficientes” nos indicadores tradicionais. Um dashboard pode apontar ganhos operacionais enquanto invisibiliza impactos sociais negativos ou pressões ambientais acumuladas.
Percebam que não se trata apenas de desafio técnico, mas também de governança corporativa. André Helleno, que também é professor da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, coordena o Mestrado Profissional em Engenharia de Produção e tem vasta experiência no tema, aponta detalhes relevantes. “As decisões, mesmo com toda a base analítica das novas tecnologias de IA e aprendizado de máquina, devem ser feitas por pessoas e para pessoas. Na prática, decisões afetam pessoas, têm consequências humanas, ambientais e financeiras e, principalmente, podem contribuir para desigualdades”, ressalta o especialista.
Interpretar dados à luz do território, das pessoas, dos limites ambientais e reconhecer que nem toda decisão responsável cabe em um gráfico é, sem dúvida, o ponto de partida fundamental para uma governança sustentável madura — capaz de equilibrar desempenho econômico com responsabilidade social e integridade ambiental, transformando informação em decisão consciente.
Mais do que investir em IA e dashboards, empresas comprometidas com a sustentabilidade precisam investir em processos decisórios conscientes, capazes de equilibrar eficiência, justiça social e resiliência ambiental.
“Dashboards informam, algoritmos sugerem, mas decisões sustentáveis continuam sendo um ato humano e, mesmo com a evolução da IA no processo decisório, nenhuma tecnologia será capaz de assumir a responsabilidade por uma má decisão”, enfatiza o professor.
O líder responsável deve ser guardião do processo decisório. Cabe a ele estabelecer premissas inegociáveis, como afirma Helleno, garantindo que critérios éticos, sociais e ambientais não sejam relativizados diante de pressões conjunturais. Um desafio para as empresas e especialistas da área, pois toda ação sustentável precisa passar pelo crivo do objetivo central — que, independentemente do modelo de negócios, deve assegurar crescimento consistente, geração de valor compartilhado e perenidade institucional.
Por fim, a pergunta fundamental não é quão sofisticado é o sistema, e sim quais valores orientam as decisões que ele sustenta.