(Catarina Bessell/Exame)
Colunista de Vinhos
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.
O mundo dá voltas inesperadas, tanto nas eleições como na nossa vida. Perdi há pouco o pai que me ensinou a comer e beber. Do primeiro Bordeaux que ele me serviu, foram décadas de aprendizado à mesa. Tem sido triste, mas também inspirador para mim assumir o papel de cuidadora da adega que ele montou ao longo de toda uma vida de colecionismo. Era apaixonado a ponto de anotar, com sua linda caligrafia, a progressão do vinho e da safra a cada garrafa que ele abria.
Sua partida coincide, lamentavelmente, com o fim da pujança de Bordeaux — a região de onde vêm seus tintos favoritos — e a piora de uma crise que também assola Borgonha, Rhône e Champagne, outras de suas regiões francesas prediletas. Enquanto episódios climáticos extremos vêm fazendo cair a produção em toda a Europa, a demanda também vem caindo. As guerras do Irã e da Ucrânia ainda fizeram explodir os custos com energia, do diesel dos caminhões à eletricidade dos navios.
A França (Bordeaux, em especial) passa por uma tempestade só comparável à epidemia de filoxera, que dizimou metade dos vinhedos do país e faliu milhares de famílias mais de século atrás. Simultaneamente, assisto admirada à disseminação da viticultura no Brasil, considerada até esta década por estrangeiros e pela maioria dos enófilos brasileiros como irrelevante em termos de qualidade.
A última edição da versão nacional da feira de vinhos ProWine, em São Paulo, teve mais expositores e público até do que a feira original, que acontece anualmente em Düsseldorf desde 1980. O enoturismo cresce a galope tanto no berço do vinho, a Serra Gaúcha, como na Mantiqueira e nas novas regiões vitícolas, da Chapada Diamantina ao Planalto da Borborema.
Se estivesse vivo, meu pai criticaria os neovinhateiros recém-chegados ao métier que mais focam em vender experiências para turistas do que em vinificar. Acharia triste o agonizante declínio de milhares de pequenos produtores europeus e a desvalorização de seus terroirs magníficos enquanto vinícolas novatas boas de marketing lhes vão roubando mercado.
Como meu pai, acho imbatíveis os vinhos do Velho Mundo — sem desmerecer, contudo, os méritos dos bravos viticultores nacionais, muitos dos quais precisam dar cambalhotas para alcançar bons resultados em terras e climas bem menos propícios para produzir vinho bom. Temo, porém, que a chuva de medalhas e exagerados elogios nas mídias pagas — especialmente as sociais — os façam esquecer do principal.
Surgem a cada ano montes de vinícolas (já estão em 11 estados e até em Brasília!) lançando múltiplos rótulos, como se um só terroir pudesse dar uva boa, pouco importando de quantas variedades. Não se maquia a verdade com marketing bem-feito para sempre: a lei de Darwin derrubará os mais fracos.
Muito antes da queda do consumo de álcool e da alta dos combustíveis que agravaram a situação, foi a proliferação desmesurada dos vinhedos que desengatilhou a crise em Bordeaux. A oferta explodiu, o preço médio desabou. As falências multiplicaram-se, destruindo famílias e vidas. O passado ensina lições, mas só aprende quem quer...