Sim, as vendas estão em queda. Mas o carro não morreu

Com a pandemia, o veículo particular vira o principal transporte para viagens e banco de cinema nos drive-ins. Até os jovens já se deram conta disso

Que não fique dúvida: o estado da indústria automotiva brasileira, vitimada pelo novo coronavírus como quase todas as outras, é grave. Somando-se carros de passeio, ônibus, caminhões e veículos comerciais leves, foram vendidos 2,7 milhões de zero-quilômetro em 2019. Para este ano previa-se um crescimento de 9,4%, o que representaria uma arrancada em direção aos números de 2012, o melhor ano da história para o setor, no qual foram adquiridos 3,8 milhões de unidades, e mais uma etapa na retomada iniciada há quatro anos, quando 2 milhões de veículos foram arrematados. Com a quarentena devido ao coronavírus, que obrigou as concessionárias a fechar as portas por mais de dois meses, freando a produção das montadoras, a expectativa para 2020 passou a ser esta: 1,6 milhão de vendas, 40% menos do que em 2019. O ano mais recente no qual se registrou um resultado inferior foi 2004. “Só voltaremos ao patamar do ano passado em 2025”, calcula Luiz Carlos Moraes, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veí­culos Automotores (Anfavea), fonte de todos esses dados.

Mas veja a ironia: a pandemia também trouxe esperança para o setor. Deve-se ao fato de que o automóvel particular passou a ser visto como uma redoma segura. Mais do que isso, como um bem necessário, pelo menos enquanto a ciên­cia não freia o surto viral e as determinações de distanciamento social perduram. É o que aponta uma pesquisa da consultoria Capgemini feita com 11.000 pessoas em 11 países. Dos entrevistados, 35% manifestaram desejo de comprar um automóvel neste ano. Na China, berço do surto viral, o percentual é bem maior: 61%. Na Índia, 57% declararam a mesma vontade; e, na Itália, 43%. Uma das razões para a aquisição, segundo 75%, é a certeza de que a bordo de um carro próprio poderão controlar melhor a higiene. O Brasil não foi incluído no estudo, mas, para Giulio Salomone, vice-presidente da Capgemini, a tendência é global. “Mesmo com a chegada de uma vacina contra o coronavírus, o automóvel continuará sendo visto como um meio de transporte no qual se está mais a salvo de contaminações”, sustenta ele.

A pesquisa sugere ainda que o novo coronavírus reacendeu o interesse dos jovens em ter um carro próprio, preterido por esse público nos últimos anos em prol de aplicativos de compartilhamento de veículos e meios de transporte mais ecologicamente corretos, como patinete e bicicleta. Somando todas as faixas de idade, a proporção dos entrevistados que atual­mente não têm um automóvel para chamar de seu alcança 20%. O percentual sobe para 36% se for considerado somente o grupo de 18 a 24 anos. E 45% dos consultados com menos de 35 anos disseram que pretendem adquirir um carro, a mesma proporção dos que estão decididos a usar menos os aplicativos de carona, por associá-los a riscos maiores à saúde. A julgar pela pesquisa divulgada no ano passado pelo site Cars.com, que constatou que 62% dos novos carros nos Estados Unidos são adquiridos por mulheres, é de supor que o interesse feminino pelas “bolhas sobre rodas” seja maior.

As montadoras parecem ter ouvido o recado. De olho na clientela mais jovem, a BMW transformou suas contas no Instagram e no Facebook em canais de venda e estreou um perfil no TikTok, tudo isso durante a quarentena. Para ajudar a alimentar o conteúdo, o TikTok escalou a equipe brasileira de esportes eletrônicos paiN Gaming, que já vinha sendo patrocinada pela BMW, e o trio de embaixadores da montadora, a atriz Fiorella Mattheis, o DJ Thiago Mansur e o fotógrafo Gabriel Wickbold. “Apostamos nos jovens desde antes da pandemia porque o interesse deles por carros tecnológicos como os nossos é cada vez maior”, diz Roberto Carvalho, diretor comercial da BMW Brasil. “Com a pandemia, conseguimos nos aproximar ainda mais desse público e fortalecer nossos canais digitais, que seguirão como uma extensão de nossas concessionárias, mesmo quando tudo voltar ao normal”, afirma.

Abstract Aerial Art/Getty Images

Abstract Aerial Art/Getty Images (Divulgação/)

No período de quarentena, a BMW lançou no Brasil o X5 M50i, um semiautônomo que custa 628.950 reais. A Volkswagen apresentou o Nivus, equipado com uma tela touch screen que permite interagir com aplicativos como iFood, Deezer e Estapar. A Volvo apostou na versão híbrida de seu SUV de entrada (saiba mais sobre os lançamentos no quadro abaixo). “Os diferenciais tecnológicos despertam mais o interesse dos mais jovens do que atributos como a potência do motor, cultuada por consumidores de outras gerações”, diz Alarico Assumpção Júnior, presidente da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Talvez por isso a Tesla tenha superado o valor de mercado da Toyota em julho. Determinada a tirar os carros autônomos do papel, a montadora de Elon Musk atingiu a cotação de 207,6 bilhões de dólares, enquanto a da japonesa ficou em 202,9 bilhões.

Convertido em uma espécie de abrigo sobre rodas, o carro particular avançou sobre a vida cotidiana como há tempos não se via. Primeiro lotaram os drive-thrus das lanchonetes, quando o atendimento presencial em estabelecimentos desse gênero ficou proibido. Depois pavimentaram a retomada dos cinemas drive-in, nos quais a indústria de shows já pega carona (leia quadro abaixo). Outro setor que espera sair do ponto morto com a ajuda dos veículos é o de turismo. Com os brasileiros barrados mundo afora até que a pandemia seja controlada no país, explorar o Brasil sobre quatro rodas se mostra a melhor saída para as férias. “Como muita gente não cogita voltar a voar tão cedo, viagens de carro de até 500 quilômetros devem prevalecer nos próximos meses”, acredita Roberto Haro Nedelciu, que preside a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa). “Talvez a contragosto, os brasileiros vão conhecer ou redescobrir as belezas do país.”

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