Que direita é esta?

Desde a eleição de Trump, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos assumiu um discurso radical e populista. O Brasil arrisca importar esse modelo

Não houve surpresas na primeira edição brasileira da Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac, na sigla em inglês), importada dos Estados Unidos pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Os discursos miraram os “ismos” — globalismo, climatismo e socialismo — que representam os três grandes fantasmas que assombram o mundo, pelo menos de acordo com a corrente do pensamento conservador que tem obtido sucesso nas urnas no Brasil e no restante do planeta. Mas o que faltou à Cpac realizada em São Paulo, e que há alguns anos está ausente no evento original americano, foi a diversidade. A conferência americana nasceu como um espaço para o debate vigoroso de ideias conservadoras; hoje, a Cpac é uma plataforma cooptada pela tendência alt-right que se espalha pelo mundo como um espaço de propaganda para líderes populistas e sua claque.

A Cpac foi fundada em 1974, num momento em que a direita americana estava numa encruzilhada. O Partido Republicano tinha sofrido uma derrota histórica na eleição presidencial dez anos antes. O democrata Lyndon Johnson, que assumira a Presidência depois do assassinato de John F. Kennedy, foi reeleito com a maior vantagem na votação popular até então. Richard Nixon superaria a marca quatro anos mais tarde — mas o governo do republicano estava em xeque por causa do escândalo Watergate. A conferência foi um ato de rebeldia por parte de ativistas conservadores insatisfeitos com o presidente. A Cpac sinalizava a necessidade de atrair gente nova, com novas ideias.

“Os participantes [das primeiras edições da Cpac] eram pensadores. Era um evento mais cerebral. As pessoas pensavam mais. Havia debates reais entre as várias alas republicanas”, diz Richard Bensel, professor de política americana na Universidade Cornell. “É claro que o evento sempre teve o objetivo de recrutar jovens para o Partido Republicano, mas, nos anos Trump, a Cpac está virando uma convenção mais polêmica e ideológica.” A congregação que tentava encontrar alternativas que pudessem unir e energizar o movimento conservador, na visão de Bensel, hoje é um evento para louvar Trump, uma das personalidades mais divisivas da história da política americana.

Nem sempre foi assim. Um dos destaques da primeira edição da Cpac foi o então governador da Califórnia, Ronald Reagan, na época uma estrela republicana ascendente. Mas Reagan provavelmente não seria bem-vindo na Cpac em 2019. Num país então hipnotizado pelo escândalo Watergate — como também estão os Estados Unidos de hoje com o toma lá dá cá de Trump com os ucranianos —, Reagan dizia: “Que os culpados [pelos delitos do Watergate] aceitem as consequências. Mas, pelo bem dos Estados Unidos, vamos tocar adiante a administração do governo”.

A edição brasileira da Cpac, organizada pela União Conservadora Americana e com nova edição confirmada para o ano que vem, seguiu o novo modelo americano: culto à personalidade do presidente, teorias da conspiração, ataques ferinos contra os adversários (reais ou imaginários) e cooptação da agenda por grupos que até bem pouco tempo habitavam as margens do discurso político. Foi na edição de 2011 do evento que Trump levantou a teoria descabida de que o ex-presidente Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos. Em 2014, ele se gabou de sua relação estreita com o presidente russo, Vladimir Putin.

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Na edição da Cpac americana deste ano, realizada no final de fevereiro, o ex-assessor de Trump Sebastian Gorka fez um alerta sobre a legislação proposta para conter a mudança climática: “Querem tomar suas picapes, querem tomar seus hambúrgueres. Isso é o que Stálin sonhou, mas nunca conseguiu fazer”. Para não ficar atrás, em São Paulo, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, aludiu à relação entre a aids e a turbeculose, uma doença oportunista, para dizer que Fernando Henrique Cardoso “abriu a porta para a entrada” de Lula. Damares Alves, da pasta da Mulher, Família e Direitos Humanos, disse que “quatro anos não bastam para mudar [o país]. Precisamos de 12 anos”.

Ideias tradicionalmente associadas ao conservadorismo, como desregulamentação da economia, cortes de impostos e proibição do aborto, são ofuscadas pela personalidade impulsiva de Trump, especialmente com o presidente assediado pela investigação do impeachment e pela trapalhada de política externa na Síria. Bastiões do pensamento direitista, como a revista The National Review, que não se alinha automaticamente a Trump, não se conseguem fazer ouvir numa era em que o presidente se comunica por tuítes na madrugada.

Benjamin Netanyahu, de Israel: em todo o mundo, os líderes vêm seguindo à risca o modelo da direita radical americana | Ronen Zvulun/Reuters

Yonatan Levi, pesquisador da London School of Economics que estuda a influência da direita americana em Israel, acredita que conservadores extremistas ao redor do mundo perceberam que seguir à risca o guia americano dá resultado para quem quer vender ideias impopulares. “Essas correntes radicais estão trocando experiências e importando modelos que comprovaram sua eficácia em outros países”, diz Levi. “É um esforço que tem várias frentes: consultoria política, eventos, veículos de mídia. O manual americano virou o manual internacional.” A Cpac é um símbolo da expansão desse modelo pelo mundo. Em agosto, a conferência realizou edições na Austrália e no Japão. No primeiro fim de semana de outubro, o evento estreou na Coreia do Sul.

Como Jair Bolsonaro, Benjamin Netanyahu, que acaba de ser derrotado nas eleições parlamentares de Israel, prefere se comunicar diretamente com sua base pelo Facebook, driblando os “inimigos da mídia”, afirma Levi. Existem diferenças importantes entre o que acontece em Israel e no Brasil, é claro. O lobby pró-israelense é uma potência política e econômica nos Estados Unidos — e seus recursos também influenciam a política do Oriente Médio. O bilionário Sheldon Adelson fez fortuna com cassinos em Las Vegas e hoje é dono do jornal de maior circulação em Israel, o Israel Hayom, veículo que está para o país assim como a TV Fox News está para os Estados Unidos. No caso brasileiro, o alinhamento é mais uma questão de estilo de liderança dos dois presidentes.

Eduardo Bolsonaro, na Cpac Brasil: as rixas do PSL mostram a dificuldade de unir a direita | Marcelo Chello/CJPress/AE Conteúdo

Sem espaço para a moderação

O risco de sufocar as vozes discordantes, como vem sendo a regra na Cpac, é a alienação. Trump está na Casa Branca e os republicanos vão apoiar sua reeleição. Ele também deve sobreviver ao julgamento do impeachment graças à maioria confortável do partido no Senado. Mas, no longo prazo, a história é diferente. O presidente pode ter conquistado o eleitorado branco e pobre, mas afasta-se das elites suburbanas e das mulheres. “Isso será um problema no futuro, pois os republicanos não terão mais condições de debater internamente e encontrar soluções políticas que tenham apelo junto ao grosso do eleitorado”, afirma Bensel, de Cornell.

As semelhanças com a rixa do PSL, partido do presidente Bolsonaro, não são mera coincidência. Como observou Julian Zelizer, professor de história na Universidade de Princeton e comentarista da rede de TV CNN, as palavras de Reagan podem vir a assombrar os republicanos. Depois de conquistar a reeleição em 1984, Reagan foi à Cpac do ano seguinte e disse: “A maré da história está se movendo irresistivelmente em nossa direção. Por quê? Porque o outro lado vive uma falência de ideias”.

 

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