“A próxima bolha americana pode estourar no fim do ano”

Segundo o historiador econômico Niall Ferguson, os défi cits americanos estão gerando desequilíbrio no mercado de títulos do país

Não apenas a crise atual está longe de seu final como ela ainda pode se agravar. A opinião é do americano Niall Ferguson, autor do livro The Ascent of Money – A Financial History of the World e professor de Harvard e Oxford.

Segundo ele, o desfecho dessa turbulência depende da dinâmica do que ele chama de Chimérica, a combinação entre a China e a América. De seu escritório nos Estados Unidos, Ferguson falou a EXAME.

O que deve acontecer em 2009 com o que o senhor chama de Chimérica, a simbiose econômica entre os Estados Unidos e a China? A simbiose funciona assim: os Estados Unidos financiam seus déficits por meio de investimentos chineses em títulos do Tesouro americano. Por outro lado, os chineses exportam grande parte de sua produção industrial para os Estados Unidos.

Mas a crise tem exercido uma grande pressão sobre essa simbiose. De um lado, os americanos estão importando muito menos dos chineses. Logo a China terá menos recursos para comprar os papéis americanos. Ao mesmo tempo, a China precisa aumentar sua demanda doméstica, focando no aumento do consumo dos próprios chineses, que devem diminuir seu nível de poupança.

E, se os chineses começarem a poupar menos, teremos menos recursos fluindo para o Banco Popular da China que possam ser investidos em ativos dolarizados. Apesar disso, os Estados Unidos vão continuar a emitir títulos do Tesouro para financiar os programas de recuperação econômica de Barack Obama – tomando mais dinheiro emprestado, gerando um déficit de até 1,5 trilhão de dólares. E a China certamente não será capaz de absorvê-lo, como fez no ano passado.

Estamos, portanto, diante de uma bolha no mercado de títulos do Tesouro americano? Sim. Talvez ela exploda já no final deste ano. Sabemos que as atuais taxas de rendimento das notas de dez anos do Tesouro americano, que estão entre 2% e 2,4%, são inacreditavelmente baixas. E você teria de acreditar que o mundo está rumando para uma crise deflacionária para que essa tendência dure indefinidamente.

Mas o Fed está imprimindo dinheiro tão furiosamente que é o caso de perguntar se os Estados Unidos realmente terão uma deflação. Ao mesmo tempo, esses enormes déficits que podem chegar a 10% do PIB americano em 2010 não são calculados para agradar aos investidores. Logo, vamos chegar a um ponto em que o restante do mundo irá olhar para os Estados Unidos e concluir que temos um cenário inflacionário adiante e que não faz o menor sentido ficar sentado numa pilha de títulos americanos. Isso vai acontecer, gerando uma desvalorização do dólar, embora eu não saiba quando.

A crise castiga também a economia brasileira, que, segundo algumas projeções, pode crescer menos de 2% neste ano. Ainda assim, será que o Brasil está numa posição invejável? Sim, pois um crescimento de 2% é melhor do que um crescimento negativo. É preciso considerar que a economia americana pode se contrair em até 3,5% em 2009.

Logo, não tenham dúvida de que este ano será doloroso para todos. Os dias em que os países do Bric cresciam a taxas altas fazem parte do passado. A tese do descolamento era um mito. A economia global é integrada. Ela é uma única economia. Mas, entre o Bric, a Rússia é que está em pior situação, devido a sua grande dependência do petróleo. E, se olharmos para a última grande crise, a dos anos 80, o Brasil hoje se encontra numa situação muito mais confortável.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.