Às vésperas do IPO, CI&T pode atingir faturamento de R$ 1 bilhão

A companhia de software fundada em Campinas cresceu como nunca em 2020 e se aproxima de seu primeiro bilhão de reais, com um IPO à vista

O empresário Cesar Gon gosta de falar de música. Mais especificamente de um bom e velho rock. Todos os anos, ele organiza uma festa de fim de ano e, quando pode, tenta chamar uma atração do gênero. “O rock não é um gênero, mas um espírito de rebeldia que permitiu que um arranjo tão improvável como a CI&T pudesse alçar voos tão altos”, declarou em 2019. O que os empreendedores de sucesso têm em comum? Inovação será a chave de 2021. Fique por dentro em nosso curso exclusivo

Neste ano, a CI&T (leia-se CIT), empresa de software fundada ainda em 1995 por Gon em Campinas, no interior de São Paulo, ao lado de Fernando Matt e Bruno Guiçardi, aumentou o volume de seus negócios e vai faturar, pela primeira vez, mais de 1 bilhão de reais, quase 40% mais do que em 2019. A marca pode não parecer tão expressiva comparada a startups endinheiradas que têm recebido injeções de centenas de milhões de dólares.

A CI&T, porém, não quer ser um sucesso passageiro, mas firmar-se como uma das maiores empresas de tecnologia do Brasil. Para fazer isso, já prepara seu próximo show, que terá como palco Wall Street com uma abertura de capital.

A oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) pode ocorrer em algum momento de 2021 e será feita nos Estados Unidos. O motivo é que a empresa tem no país seu maior mercado internacional, responsável por 90% da receita da companhia obtida fora do Brasil.

Considerando que 56% do faturamento é obtido no exterior, pelo menos 500 milhões de ­reais da receita bruta da CI&T neste ano devem vir de clientes nos Estados Unidos. A empresa já está presente em outros seis países (Canadá, Inglaterra, Portugal, China, Japão e Austrália) e tem planos também de atacar a América Latina. Os alvos são México, Colômbia e Argentina.

Gon, porém, afirma que iniciar uma operação em mercados emergentes é mais difícil do que desembarcar em mercados mais maduros. “A estratégia é priorizar os investimentos nos Estados Unidos e na Europa, que são mercados mais competitivos”, afirma.

 (Arte/Exame)

A CI&T já vinha dando sinais de que, depois de uma era marcada por um conservadorismo consciente, estava na hora de acelerar o crescimento. Isso já pôde ser percebido quando a ­Advent, um dos principais fundos de private equity do mundo, com uma carteira de 58,4 bilhões de dólares em ativos sob gestão, tornou-se sócia da empresa brasileira.

Em 2019, o fundo adquiriu a participação minoritária de 30% que pertencia ao BNDESPar, além de uma fatia de percentual não divulgado que pertencia aos fundadores. “A Advent está nos ajudando neste próximo capítulo da nossa história”, diz Gon. De fato. A estruturação do plano de abertura do capital da CI&T nos Estados Unidos foi discutida com exaustão com o novo sócio. O motivo é que a Advent já participou de mais de 50 aberturas de capital de empresas em que investiu nos últimos anos. Destaque para as brasileiras Paraná Banco, a fintech CSU CardSystem e a varejista Quero-Quero.

A CI&T atua com soluções voltadas para a digitalização das empresas. É um negócio que fez com que a companhia conquistasse uma carteira de clientes que inclui gigantes como Raízen, Vivo, Coca-Cola, Johnson & Johnson.

De acordo com a consultoria americana Grand View Research, o mercado de transformação digital deverá movimentar quase 800 bilhões de dólares em 2025. Isso se dá pela necessidade das empresas de integrar seus negócios de forma mais inteligente com o avanço da tecnologia. No Brasil, o impacto é enorme. Dados da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), do começo do ano, apontam que as tecnologias de transformação digital vão movimentar 465,6 bilhões de reais no país até 2023.

“O mercado de tecnologia brasileiro é robusto. A transformação digital é um fenômeno que inclui o uso intensivo da tecnologia para a realização de outros serviços”, afirma Sergio ­Sgobbi, diretor da Brasscom.

De banda de garagem ao estrelato internacional, a CI&T enfrentou diversas crises econômicas em sua trajetória. A companhia, que começou atuando como uma fábrica de software — desenvolvendo sistemas e aplicativos para empresas —, viu de perto desde os efeitos devastadores do estouro da bolha da internet até as consequências das crises internacionais de 1997 e de 2008.

“Eu sou Ph.D. em crise. Mas, quando há um problema em que a saúde das pessoas está em risco, aí é uma situação completamente diferente”, diz Gon, sobre como a covid-19 impactou a empresa. O trabalho remoto foi acionado para os 2.875 funcionários da companhia. “Primeiro saúde, depois negócio”, diz. O passo seguinte foi realizar um plano de ação para atender os clientes nesse momento atípico. Se por um lado a covid-19 fez com que as empresas adotassem uma postura mais cautelosa, o que prejudicou as contas do segundo trimestre, por outro escancarou a necessidade de digitalização. “O futuro foi acelerado”, afirma Gon.

Escritório da Locaweb: diferentemente das concorrentes do mercado de TI, a CI&T não realizou grandes aquisições

Escritório da Locaweb: diferentemente das concorrentes do mercado de TI, a CI&T não realizou grandes aquisições (Omar Paixão/Divulgação)

Se o ritmo havia mudado, era hora de a CI&T trocar de música (mas não de gênero musical). Desde a fundação em 1995, dentro da Unicamp, para atender a um projeto específico do gigante americano IBM, a CI&T adotou uma postura conservadora. A companhia não saiu em uma busca desenfreada por investidores internacionais. Em vez disso, decidiu caminhar com as próprias pernas.

A primeira grande injeção de capital externo veio com o BNDESPar, que aportou um valor não divulgado ao adquirir uma participação minoritária em 2005, quando a CI&T faturava 15 milhões de reais. A companhia também não realizou grandes aquisições, a exemplo de rivais como a Locaweb, uma das estreantes na bolsa em 2020, ou a Stefanini, que no ano passado informou que dedicaria 300 milhões de reais em aquisições de novas empresas até o fim de 2022. “Dá para crescer sem a obsessão do valor pelo valor”, afirma Gon.

O fato de não ter atingido a alcunha de unicórnio, quando uma startup é avaliada em 1 bilhão de dólares, não é algo que incomoda o fundador. “O unicórnio quer conquistar o próximo investidor. Eu quero conquistar o próximo cliente”, afirma Gon. O executivo diz que uma companhia não é criada para atingir um valor específico, mas para contribuir para a sociedade. Ao mesmo tempo, toda vez que uma empresa recebe investimentos, a participação dos fundadores é diluída.

“Daqui a pouco a empresa vale 1 bilhão de dólares, mas o fundador tem só 1% do negócio”, diz. A CI&T sabe que não dá para acelerar o ápice, e que cada acorde importa, assim como nos bons shows de rock.


 (Publicidade/Exame)

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