Final feliz em 3D para a IMAX

Após décadas de documentários sobre o fundo do mar e poucos negócios, a canadense IMAX e suas supertelas caíram nas graças de Hollywood

Ahistória recente da canadense IMAX daria um filme de Hollywood. Na última década, a empresa especializada na exibição de filmes 3D de alta qualidade, projetados em telas de até 36 metros de comprimento por 30 de altura, foi colocada à venda em duas ocasiões. Os negócios não foram fechados — afinal, não havia compradores interessados. Criada em 1971 e especializada em documentários sobre a exploração espacial e a natureza filmados com câmeras Imax, a empresa parecia seguir o roteiro clássico de inovação tecnológica sem nenhum apelo comercial. Até 2008, os prejuízos se repetiam ano após ano. A partir daí, porém, a receita gerada pela bilheteria de seus cinemas triplicou, atingindo quase 600 milhões de dólares, e o valor de suas ações foi multiplicado por 10. A primeira das grandes mudanças que ajudaram a tirar a Imax do buraco aconteceu em 2002. A empresa desenvolveu um processo para converter filmes convencionais, de película 35 milímetros, em 70 milímetros sem perder qualidade, o que aumentou consideravelmente seu catálogo. Mas foi só cinco anos depois que o departamento de pesquisa e desenvolvimento conseguiu dar a notícia que a cúpula da companhia esperava havia anos: a entrada do Imax no mundo digital, com a mesma qualidade da película.

Cada cópia em película de um filme Imax de 45 minutos pesava 180 quilos e custava 7 000 dólares. O equipamento de projeção pesava 2 toneladas. Com a tecnologia digital, cada cópia passou a custar 30 dólares e a pesar menos de 1 quilo. O custo para montar uma sala com projetores 3D nos moldes da Imax caiu de 7 milhões para menos de 1 milhão de dólares. “Era o que Hollywood estava esperando para entrar de cabeça nesse mercado”, afirma Jim Goss, analista de entretenimento da gestora de investimentos americana Barrington Research.

Mesmo antes da conversão da película para o digital, Hollywood viveu uma experiência marcante nas telonas. Em 2003, o filme Matrix Reloaded foi o primeiro de um grande estúdio a estrear simultaneamente no formato Imax e no convencional. “Na época, não tínhamos massa crítica para estourar nas bilheterias. Arrecadamos apenas 14 milhões de dólares, mas conseguimos mostrar ao mercado que o formato funcionava para filmes que levam o espectador para outro universo ou outro tempo”, diz Geoff Atkins, vice-presidente da Imax. Cinco anos depois, já com a revolução digital em andamento, o diretor Christopher Nolan foi pioneiro em filmar com câmeras Imax cenas do longa Batman, O Cavaleiro das Trevas. “A bilheteria não era o mais importante: buscávamos — e conseguimos — causar impacto no público. A repercussão foi incrível”, diz Dan Fellman, diretor de distribuição do estúdio Warner Bros., nos Estados Unidos. O sucesso do cinema comercial nas enormes telas era indiscutível, mas os estúdios ainda precisavam de uma prova de que o Imax não era bom somente para o marketing. O filme Avatar deu a certeza que eles queriam. Com a publicidade toda voltada para o Imax e sua “experiência de imersão” em um ambiente onírico, a Fox arrecadou 242 milhões de dólares nas 261 salas espalhadas pelo mundo que exibiram em 2009 o filme com a tecnologia 3D. A cifra representou 9% da arrecadação total de Avatar. “O diretor James Cameron não faria o filme se não existisse o Imax, e a Imax não estaria onde está se não fosse Cameron. Foi a união da arte com a tecnologia, com um resultado fabuloso para o negócio”, afirma Jon Landau, produtor de Avatar. Atualmente, os estúdios disputam a oportunidade de estrear um filme no Imax — a pequena quantidade de salas faz com que não mais que 20 longas sejam exibidos por ano. Mesmo após a expansão recente da tecnologia, há somente 650 salas de cinema 3D no mundo — das quais duas no Brasil, uma em São Paulo e outra em Curitiba. As salas Imax foram responsáveis por 25% dos 400 milhões de dólares arrecadados pelo filme Tron: O Legado, da Disney. “A taxa média de ocupação da sala Imax é de 80%, enquanto nas outras é de 30%”, diz Ademar Oliveira, diretor de programação do Grupo Espaço de Cinema, responsável pela sala Imax de São Paulo. E essa não é a única vantagem em termos do negócio. O ingresso para ver as imagens em 3D é mais caro — no Brasil, o preço é 70% maior —, mas o custo de operação e manutenção da sala é o mesmo das convencionais.

O crescimento recente e a promessa de ganhos ascendentes atraíram a atenção de Wall Street. Especula-se que Sony e Disney estariam interessadas em comprar a Imax. Os executivos da empresa, antes rejeitada e hoje desejada, fazem charme. Dizem que a venda atrapalharia sua relação com outros estúdios e pretendem mirar os mercados emergentes. O primeiro filme não americano rodado com sua tecnologia — o chinês Aftershock — está em cartaz nas 38 salas Imax na China. No Brasil, novas salas devem ser abertas em São Paulo, em Curitiba e no Rio de Janeiro. Para uma empresa que até pouco tempo atrás valia quase nada, não dá para reclamar do final da história.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.