“Doha não sai com países ricos em crise”

Para o economista indiano, as dificuldades em retomar a rodada multilateral da OMC vão forçar os países a buscar cada vez mais os acordos bilaterais de comércio
Pankaj Ghemawat: "A globalização não é um processo irreversível" (Wikimedia Commons)
Pankaj Ghemawat: "A globalização não é um processo irreversível" (Wikimedia Commons)
Por Guilherme ManechiniPublicado em 30/08/2013 16:23 | Última atualização em 30/08/2013 16:23Tempo de Leitura: 3 min de leitura

São Paulo - O economista Pankaj Ghemawat, professor na escola de negócios Iese, em Barcelona, ganhou notoriedade em 2007, quando publicou o livro Redefinindo Estratégia Global. Nele, Ghemawat rebateu a ideia do jornalista americano Thomas Friedman de que as nações estão altamente interconectadas. Para Ghemawat, o mundo não é plano.

O economista indiano diz que o nível de integração entre os países ainda é baixo e que deverá seguir assim. Ghemawat é cético quanto às chances de sucesso da atual rodada de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a queda das tarifas de importação.

1) EXAME - O senhor costuma dizer que o mundo está longe de atingir um nível elevado de integração entre os países. Quão distantes estamos do “mundo plano”?

Pankaj Ghemawat - Se olharmos para variáveis como o investimento estrangeiro direto, a participação das exportações no PIB dos países e os fluxos migratórios, creio que o nível de integração esteja entre 15% e 20% de seu potencial total. 

2) EXAME - Estamos em um patamar superior ao do período pré-crise? 

Pankaj Ghemawat - Não. Os fluxos de capital e de comércio não estão nos mesmos níveis de antes da crise. No fim de 2012, começamos a nos aproximar dos patamares vistos de 2007 a 2008. 

 3) EXAME - O mundo está mais protecionista? 

Pankaj Ghemawat - Sim, essa é a má notícia. Os números dos últimos anos, além de reforçar a ideia de que estamos distantes de um mundo globalizado, mostram que a integração entre os países não é uma tendência irreversível. Dada a situação macroeconômica de vários países ricos e também dos emergentes, se mantivermos os índices atuais, já será uma boa notícia.

4) EXAME - Qual tem sido o papel da OMC no combate ao protecionismo e na promoção do comércio? 

Pankaj Ghemawat - Muitos países adotaram medidas protecionistas diante do agravamento da crise. Nem mesmo os alertas dados pela OMC foram capazes de impedir tal movimento, o que só ampliou as chances de fracasso das tentativas de ressuscitar as negociações para a rodada Doha. 

5) EXAME - O senhor não acredita que a atual rodada de negociações possa ser retomada?

Pankaj Ghemawat - Sabemos que há enormes ganhos a ser conquistados com a liberação do comércio mundial. Por outro lado, é difícil imaginar que a negociação avance com os países ricos em crise. Com o desemprego em alta, não vejo uma movimentação nesse sentido, pelo menos não no curto prazo.

6) EXAME - Qual é então sua expectativa para a reunião da OMC em Bali, na Indonésia? 

Pankaj Ghemawat - A reunião de Bali está sendo tratada como um divisor de águas para a sobrevivência da rodada Doha. Particularmente, não sou otimista a ponto de acreditar que os países vão conseguir avançar em direção à queda das tarifas de importação e à abertura de novos setores. 

7) EXAME - Nem mesmo a nova direção da OMC pode ajudar? 

Pankaj Ghemawat - Não. O maior desafio da OMC é estrutural. São 159 países-membros e qualquer decisão depende de consenso. A OMC e seu novo diretor-geral, o brasileiro Roberto Azevêdo, devem estar pensando em quais serão os rumos da entidade caso se constate que Doha é um assunto encerrado.

Já os países deverão cada vez mais partir para os acordos bilaterais, como estão fazendo Estados Unidos e Europa. Infelizmente, o sonho do livre comércio continua distante.