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Como uma mala de alumínio virou objeto de desejo e negócio bilionário

A Rimowa transformou mala em objeto de design. E longevidade em valor de marca

Loja da Rimowa em Xangai: peças com garantia vitalícia  (Costfoto/Getty Images)

Loja da Rimowa em Xangai: peças com garantia vitalícia (Costfoto/Getty Images)

Júlia Storch
Júlia Storch

Repórter de Casual

Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.

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Assim como os carimbos de um passaporte, os desgastes em uma mala ajudam a contar histórias de viagem. Nas esteiras de bagagem dos aeroportos, uma peça de alumínio da alemã Rimowa se tornou, nos últimos anos, um desses objetos reconhecíveis à distância. Os arranhões, longe de serem escondidos, fazem parte de uma proposta construída em torno da ideia de permanência, de um produto pensado para acompanhar o dono por muitos anos.

Essa lógica ganhou um novo capítulo em meados de 2022, quando a marca passou a oferecer garantia vitalícia para aspectos funcionais de todas as malas novas, incluindo rodas, alças, fechaduras e zíperes. Mais do que um benefício ao consumidor, a política reforça uma característica central do negócio: vender um item de luxo atemporal, de longa durabilidade.

A Rimowa foi destaque positivo no balanço da LVMH no terceiro trimestre de 2026, divulgado neste mês de outubro. O grupo francês destacou o forte crescimento da marca de malas de luxo, impulsionado por lançamentos como as linhas Classic Titanium e Grid. O desempenho ajudou no resultado do segmento de Moda e Artigos de Couro, em um momento em que o grupo reportou faturamento de 57,1 bilhões de euros, um recuo de 2% causado principalmente pela queda de demanda da China.

O grupo de capital aberto não divulga faturamento por marcas, mas analistas do HSBC estimam que a fabricante alemã de malas já fature cerca de 1 bilhão de euros por ano. O valor é mais do que o dobro do registrado quando o conglomerado francês comprou 80% da empresa, em 2016, momento em que as vendas giravam em torno de 400 milhões de euros.

Fundada em 1898, a Rimowa começou com baús de madeira e incorporou o alumínio às malas nos anos 1930. Em 1950, adotou as ranhuras paralelas inspiradas no avião alemão Junkers F13, elemento que se tornaria um de seus principais códigos visuais. Hoje, cada mala reúne mais de 200 peças e passa por mais de 90 etapas de produção, muitas delas manuais.

Para Silvana Holzmeister, jornalista, professora de moda na FAAP e especialista em luxo, a durabilidade sempre esteve associada à Rimowa, mas a garantia vitalícia torna esse atributo parte explícita do posicionamento. “Em vez de vender substituição, ela está vendendo longevidade”, diz. O valor das peças não é atrelado apenas ao material, mas à combinação entre herança, engenharia, trabalho artesanal, tecnologia e códigos reconhecíveis.

Malas da marca: ranhuras inspiradas em aviões (Rimowa/Divulgação)

Esse repertório ganhou outra escala depois que a Rimowa passou a fazer parte da LVMH. Na avaliação da especialista, o grupo não criou do zero o valor da empresa, que já carregava um design proprietário e reputação em engenharia, mas acelerou a transformação desse patrimônio em uma marca global de luxo. O movimento veio acompanhado de uma ampliação de portfólio, colaborações e novas cores.

Em 2020, a Rimowa lançou a coleção Never Still, com bolsas para o dia a dia. A marca também realizou colaborações com nomes como Fendi, Moncler, Off-White, Tiffany & Co. e Rick Owens. “A Rimowa deixou de ser uma marca de mala para ser uma marca que vende mala. Mas não uma mala qualquer, e sim um item de design, um objeto de desejo”, diz Holzmeister.

A garantia vitalícia entra nessa estratégia ao deslocar parte da relação comercial da substituição para o reparo. Isso não significa, porém, que a marca não precise vender. A própria ampliação do portfólio, as edições especiais e a renovação de cores criam outras possibilidades de consumo para além da substituição de uma mala danificada.

Holzmeister define a Rimowa como um caso de “luxo funcional”. Trata-se de uma marca que preservou engenharia, desenho alemão e durabilidade enquanto acrescentou moda, colaborações e status. Além de um longo relacionamento com o consumidor a partir da premissa de que aquela primeira mala pode continuar em uso por muitos anos, pelas esteiras dos aeroportos mundo afora.

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