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Dez coisas que odeio em você

Aquele sujeito que chamou um Powerpoint de empresa está agora em maus lençóis. E preciso confessar: acho coisas odiosas nos startupeiros
 (Getty Images/NeoLeo)
(Getty Images/NeoLeo)
Por Felipe MirandaPublicado em 14/04/2022 05:11 | Última atualização em 13/04/2022 16:34Tempo de Leitura: 5 min de leitura

“I was the dream weaver
But now I’m reborn
I was the Walrus
But now I’m John
And so dear friends
You'll just have to carry on
The dream is over”
God — John Lennon

Flannery O’Connor tem uma frase de que gosto muito: “A verdade não muda de acordo com a nossa capacidade de digerir”. De alguma maneira, parece uma adaptação do original de Nietzsche: “O valor de um homem pode ser medido pelo tanto de verdade que ele consegue tolerar”. Será que o gestor Ray Dalio fez um curso online na Casa do Saber para defender sua “transparência radical” na Bridgewater?

Antes de avançarmos, pausa para um pequeno esclarecimento. O “você” do título não se refere a você, querido leitor. Ele representa a personificação de um ente mitológico: o “startupeiro”, aquele sujeito que fundou uma “startup”, normalmente um PowerPoint que ele resolveu chamar de empresa. É com esse cidadão que vamos conversar hoje.

Meu caro, depois de anos de glória, você está em maus lençóis agora. Não tenho vocação para Heath Ledger, mas preciso confessar que há dez coisas que odeio em você. Faço questão deste feedback honesto por achar que a verdade tem grande valor para o desenvolvimento. Ela pode ser dura, mas negá-la é sempre pior. Lembra daquela história de “o rei está nu”? Pois é, melhor evitar. E outra: o filme homônimo parece bobinho, mas é Shakespeare na veia, uma adaptação de A Megera Domada. Se não há lições valiosas em Shakespeare, então em quem?

Veja se estas coisas não são realmente odiosas…

Primeiro, a estética. Óculos laranja não combinam com meias amarelas. Usados separadamente, já não são propriamente uma referência a ser seguida. Juntos, desafiam qualquer razoabilidade. Você não é o José Wilker. Terno e, se necessário, gravata ainda são preferíveis a um coletinho, em qualquer lugar do mundo. Evite as meias de super-herói se você for encontrar um grande empresário. Também não é muito legal falar mais palavras em inglês do que em português. Todos nós tropeçamos em um anglicismo aqui ou ali. Mas, de cada dez palavras, 11 serem em outra língua já é certo exagero.

Ainda sobre a linguagem falada, por que esses sons tão nasais? A palavra acampamento não tem acento circunflexo no “e” e tem somente um “e”. Não são três, tipo “acampameeento”. E por que essa mania de chamar as pessoas que você nem conhece pela primeira sílaba do nome? O sujeito nunca nem viu o Luis Stuhlberger, mas gosta de citá-lo pelo prefixo “Stuhl”.

Meu quinto elemento odioso é a insistência em abrir o PowerPoint ou o Keynote para mostrar aquela sua apresentação artística. Será que podemos conversar sem uma planilha? Modelos aceitam qualquer coisa, e a realidade não vai caber no seu Excel (ou no Numbers, claro).

O sexto é quase uma derivada do quinto. Você monta sua empresa pensando no Series A, B, C… Seria legal se a gente voltasse a fundar uma companhia com a cabeça de dar lucro — mesmo o capitalismo de stakeholder precisa ser rentável. Outra coisa meio esquisita é essa bolha. Vale a pena ler sobre outras coisas, conversar com gente diferente, conhecer lugares além da Faria Lima e do Silicon Valley. Aí ja vem o oitavo ponto: fazer um curso de versão em Stanford não significa que você fez Stanford. Vale também dizer que ter montado uma empresa não o torna especialista em investimentos. O mercado não tolera a soberba — a humildade varia conforme a marcação a mercado das cotas, que, por sua vez, costuma ser impiedosa.

Então, chegamos ao décimo ponto, de real interesse desta coluna: esse papo de “dream on” é cafona demais. O sonho está no campo do onírico, não da realidade. Para cada “sonho grande” que deu certo e virou capa de livro, quantos outros não morreram pelo caminho? O cemitério dos fracassados emite o som mais significativo de todos: o do silêncio.

Há algo marcante acontecendo no mundo exatamente agora. Estamos diante de uma Nova Ordem Mundial, não só na esfera geopolítica global, com as autocracias emergindo como antítese à tese da democracia liberal, desafiando a ideia de O Fim da História, de Fukuyama. Existe um novo paradigma se formando nos investimentos e no empreendedorismo. Sai o “dream on”, entra o “dream is over”. O sonho acabou. Estouramos a bolha tech.

Aquele mundo de ausência de inflação, juros zerados ou negativos e dinheiro jorrando para todo lado, inclusive para aquelas promessas sonháticas de geração de caixa a partir de 2050, já era. Voltando a Shakespeare, “promessas não pagam dívidas”. Seremos cobrados pelo real fluxo de caixa no presente, não por elucubrações sobre um futuro distante. As promessas serão descontadas por taxas de juro bastante altas, com baixo valor presente. Não há mais aquele ambiente em que bitcoin, Tesla e fake techs sobem desenfreadamente. Agora só há um jogo na cidade: value (investimento em valor). Lucros e fluxos de caixa já! Daremos menos valor ao PowerPoint e mais atenção à barriga no balcão, à resiliência, à capacidade de escolher em situações em que apenas decisões subótimas se colocam à mesa. Gurus messiânicos e patinetes voadores não passarão.

Talvez lhe soe como uma má notícia, mas não é o caso. O Brasil, com suas commodities, seus bancos e sua performance relativa inferior aos ativos internacionais nos últimos anos, é um case de value clássico. Também somos solo fértil num mundo que vai prezar por democracias, posições geográficas privilegiadas e segurança alimentar. O admirável mundo novo enaltece gente de verdade. Temos mais de dez motivos para amar essas pessoas.

 

(Leandro Fonseca/Exame)