Ricardo Faria, fundador e chairman da Global Eggs: “O 2 nunca foi meu número da sorte” (Leandro Fonseca/Exame)
Editor de Invest
Publicado em 19 de março de 2026 às 06h00.
Última atualização em 19 de março de 2026 às 06h29.
O Rei dos Ovos arrumou um sócio para ajudar a financiar a expansão do seu império. E não foi um aporte qualquer. A Global Eggs, de Ricardo Faria, pode receber até 1 bilhão de dólares (mais de 5 bilhões de reais) da Warburg Pincus, multinacional americana de private equity, uma das mais tradicionais do mercado. O anúncio do acordo, agora no início de março, foi um plot twist. No ano passado, a holding estava em tratativas com o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) para receber 300 milhões de dólares, dando, em troca, uma participação de 11% do negócio ao banco. A transação não foi para a frente. Faria optou por usar recursos da própria empresa para a aquisição da Hillandale Farms, uma das maiores fornecedoras de ovos dos Estados Unidos, por 1,1 bilhão de dólares.
O empresário também mudou de ideia em relação a uma oferta pública de ações, o que passou a fazer menos sentido ainda agora, com a injeção de capital bilionária da Pincus. A multinacional de private equity, atualmente investida em 11 empresas brasileiras além da Global Eggs (veja a relação abaixo), é conhecida por ter preparado terreno para o IPO de centenas de companhias ao redor do mundo. Por aqui, Petz, Sequoia e GPS foram algumas delas. Mas a Global Eggs, pelo menos por enquanto, não deverá seguir por esse caminho, segundo Faria.
“Nós abandonamos esse plano do IPO depois que entramos no mercado americano. Era esse o crescimento que estávamos buscando, e que fizemos por conta própria”, afirmou o empresário, direto dos Estados Unidos, por videochamada. A Global Eggs, enquanto holding, se consolida após a compra da Hillandale. Mas, até ali, a Granja Faria já produzia 14 milhões de ovos por dia no Brasil e ocupava a liderança do mercado nacional após uma série de aquisições, como a da Iana Alimentos e a da Granja Katayama, dentro de um mercado ainda muito pulverizado. Ricardo Faria também já tinha feito uma incursão fora do Brasil, comprando o controle societário do Grupo Hevo, na Espanha, em 2024. A empreitada ibérica continuou no ano seguinte, com a aquisição da Granja Legaria e da Avícola Tratante.
Exército de poedeiras: o plantel de aves da Global Eggs se tornou o segundo maior do mundo após aquisições (Global Eggs /Divulgação)
Aquisições nos EUA e no Uruguai
Os recursos vindos da Pincus vão financiar outras operações de M&A. À EXAME, Faria revelou compras recentes, sendo a principal delas a da Pearl Valley, a segunda aquisição da Global Eggs nos Estados Unidos, por um valor não divulgado. A granja em questão opera há cinco décadas no estado de Illinois e tem um dos 40 maiores plantéis do país, de acordo com o mais recente ranking da WATT-Poultry, principal plataforma de inteligência e dados sobre a indústria avícola mundial. A Pearl Valley aparece na 37a posição, com 1,9 milhão de poedeiras. Nessa mesma lista, a Global Eggs ocupa o quarto lugar, com 21 milhões. A Cal-Maine Foods tem a liderança isolada, com 50,9 milhões. Já no ranking global da WATTPoultry, a brasileira, com suas mais de 50 granjas, avança algumas casas e chega à segunda colocação — com uma diferença menor em relação ao plantel da concorrente americana (veja quadro abaixo). Para Faria, ainda não é o bastante. “A gente vai buscar ser o melhor. O 2 nunca foi meu número da sorte”, diz.
No intuito de continuar crescendo, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, a holding pretende replicar a tática que seguiu no Brasil, expandindo operações com a aquisição de players menores. Sem alardes, a Global Eggs tem feito o mesmo em um país vizinho. No Uruguai, onde Faria estabeleceu residência fiscal, o grupo já adquiriu três empresas, somente no segundo semestre do ano passado: a Super Huevo, que tem sete granjas e conta com um plantel com 250.000 poedeiras; a Avícola Dorotea, que diz ser responsável pela produção de 4% dos ovos comercializados no Uruguai; e a Prodhin, uma empresa com mais de 40 anos e 600.000 aves.
Negócios no Uruguai: empresa adquiriu três granjas no país vizinho (Mariana Suarez/AFP/Getty Images)
A diversificação regional é um trunfo da Global Eggs em momentos de instabilidade, como a que o mundo vem passando no momento. Receitas em diferentes moedas, por exemplo, servem como uma proteção ao negócio. “Toda vez que o dólar perde valor, as outras moedas compensam”, explica Faria. As tensões geopolíticas do momento trouxeram oportunidades e desafios para o Rei dos Ovos. A guerra no Irã afetou as vendas de ovos férteis para o Oriente Médio, com a interrupção de voos para a região. Por outro lado, surgiu demanda na Venezuela, que voltou a comprar da Global Eggs após a intervenção dos Estados Unidos e a prisão de Nicolás Maduro. “Se fecha uma porta de um lado, ela abre do outro.”
Insolo: quinta maior produtora de grãos do país prevê 260.000 hectares para a próxima safra (Leandro Fonseca/Exame)
O poder de GracIANA
Quando Donald Trump impôs uma tarifa de 50% sobre ovos exportados pelo Brasil para o território americano, a solução pensada pela companhia foi lançar um produto novo, nacional, para compensar uma eventual retração nas vendas. Assim surgiu GracIANA, uma linha de ovos nutricionais, com ômega 3, selênio e vitaminas. A marca é um trocadilho com o nome de uma conhecida consumidora voraz da proteína, a modelo e fisiculturista Gracyanne Barbosa. “Na internet, virou uma febre”, diz Faria. Nas vendas, também. Em um mês desde o lançamento, a linha da Iana Ovos passou a responder a mais de 10% dos volumes vendidos pela Granja Faria no Brasil. Gracyanne, vale frisar, não é dona nem sócia do negócio. “O nome é uma propriedade da Granja Faria. Que seja eterno enquanto dure esse amor.” Para o empresário, ovo é marca, não commodity, e cada região — do Brasil ou do mundo — tem a(s) sua(s) favorita(s). “A gente investe muito nessa regionalização.”
Em termos operacionais, a Global Eggs pode até não ter superado a líder de mercado, mas em valuation passou bem na frente. Com o investimento da Warburg Pincus, a holding de Ricardo Faria passou a ser avaliada em 8 bilhões de dólares (42,4 bilhões de reais). A cifra é quase o dobro do valor nominal de mercado da Cal-Maine Foods em meados de março (4,2 bilhões, aproximadamente). Em reais, equivale ao market cap da maior varejista farmacêutica do Brasil, a RD Saúde, dona da Droga Raia e Drogasil. Os resultados de 2025 ainda não tinham sido totalmente computados até o fechamento desta edição, mas Faria antecipou à EXAME que o faturamento do ano passou dos 2 bilhões de dólares (mais de 10 bilhões de reais).
GracIANA: 10% do volume vendido pela Granja Faria em apenas um mês desde o lançamento (Granja Faria/Divulgação)
“Nos últimos oito anos, a gente vem crescendo na faixa de 35% ao ano”, afirma o executivo. E não é só por causa das aquisições. “No ano passado tivemos um evento fora da curva, que foi a compra da Hillandale, mas nos anos anteriores metade do crescimento sempre foi puxado pelo lado orgânico.” Faria se gaba ao dizer que todas as adquiridas têm, hoje, pelo menos o dobro do tamanho da época em que foram compradas. Mas é menos assertivo ao fazer previsões de faturamento. Prefere não arriscar um número, como fez no passado e acabou surpreendido — positivamente. “Em 2022, a gente via esse negócio podendo chegar a um faturamento de 3 bilhões de reais. As pessoas riam e perguntavam: ‘Como uma empresa de ovo vai faturar tudo isso?’”, diz.
Empresa e dono bilionários
A Mantiqueira ganhou impulso de um gigante do setor de proteínas no começo do ano passado. A JBS, empresa de capital aberto, listada em Nova York, adquiriu 50% do capital da concorrente mineira, emprestando à adquirida a robustez de um gigante. A Global Eggs foi pelo caminho do private equity. “Vemos na Global Eggs a oportunidade de apoiar um empreendedor único, que opera em um nível de excelência raro de encontrar, na consolidação de uma indústria que ainda é globalmente fragmentada e composta majoritariamente de empresas pequenas e familiares”, afirma Bruno Maimone, head da Warburg Pincus no Brasil. Ao longo de 15 anos, 19 empresas brasileiras receberam investimentos da multinacional. “Temos a convicção de que somos o parceiro certo para apoiar o Ricardo Faria na próxima etapa de expansão da Global Eggs”, complementa Maimone.
“Ovo é marca, não commodity”: diversificação geográfica do negócio conversa com regionalização do consumo (Richard Levine/Corbis/Getty Images)
O aporte da firma de private equity também eleva o status do próprio Faria. Ele estreou na lista de bilionários da Forbes em 2025, tendo um patrimônio estimado em cerca de 17 bilhões de reais. Com o novo valuation, após o investimento da Pincus, a fatia do empresário no negócio passaria a valer cerca de 37 bilhões de reais. Somado a outros negócios, o patrimônio de Faria poderia ultrapassar os 40 bilhões de reais. O empresário também é considerado o quinto maior produtor de grãos do país com a Insolo, empresa que adquiriu em 2021 e plantou um total de 240.000 hectares na última safra. “Na próxima, devemos chegar a 260.000”, disse.
A produção anual da Global Eggs, hoje, é estimada em 15 bilhões de ovos, distribuídos em diferentes categorias, dos convencionais aos especiais. “Dá dois ovos por habitante do planeta”, diz Faria, rindo da comparação. O investimento da Pincus reforça a estrutura de capital da companhia para financiar sua expansão em novos mercados. Mas além de não “comprar por comprar”, a holding não quer fazer aquisições a qualquer preço. “A empresa precisa performar melhor com a gente na mão do antigo proprietário.” O empresário sabe que o custo de crédito pode ficar mais alto se os juros globais subirem em razão de mais um choque do petróleo. Mas não pretende pisar no freio por causa disso. Afinal, é justamente nas crises que também surgem oportunidades de aquisição. “A gente consegue operar bem nessas águas turbulentas.”
Concorrência: a Mantiqueira está entre as dez maiores produtoras globais de ovos (Germano Lüders/Exame)
Dos primeiros galpões no Brasil a um aporte bilionário que mudou o jogo
2018 → O Início
Ricardo Faria funda a holding Global Eggs depois de vender a Lavebras por 1,7 bilhão de reais. O foco inicial é consolidar o mercado brasileiro através da Granja Faria.
2018–2023 → Domínio Nacional
Série de aquisições no Brasil (como Katayama e Grupo BL). A empresa se torna a maior produtora de ovos do país.
2024/Nov → Salto para a Europa
Compra do Hevo Group (Espanha) por 120 milhões de euros. A Global Eggs assume a liderança do mercado espanhol.
2025/Mar → Conquista dos EUA
Aquisição da Hillandale Farms por 1,1 bilhão de dólares. A holding entra no top 5 do mercado americano.
2025/Maio e Dez → Reforço Ibérico
Compra da Granja Legaria e da Avícola Tratante, ambas na Espanha, ampliando a capacidade produtiva na União Europeia.
2026/Mar → Avaliação Bilionária
Aporte de 1 bilhão de dólares do fundo Warburg Pincus. A Global Eggs passa a ser avaliada em 8 bilhões de dólares e se torna a mais valiosa do mundo.