Competitividade não se cria por decreto: ela nasce de um “campo de jogo” bem desenhado, em que participantes competem com base em eficiência (Tatiana Lobanova/Getty Images)
Vice-presidente da Zetta
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
A estabilidade econômica de um país não se sustenta apenas em boas intenções: depende de instituições capazes de tomar decisões difíceis com base em evidências, método e responsabilidade. Nesse desenho, o Banco Central do Brasil (Bacen) ocupa um lugar relevante. Nos últimos anos, o Bacen tem realizado um trabalho consistente, independente e tecnicamente robusto, tanto na condução da política monetária quanto na supervisão do sistema financeiro, reforçando a credibilidade do arcabouço macroeconômico e a confiança de famílias, empresas e investidores no sistema financeiro.
O debate recente em torno do processo de liquidação do Banco Master ajuda a ilustrar, de forma concreta, por que essa atuação importa. Em momentos de estresse, a confiança no sistema depende de respostas rápidas, proporcionais e fundamentadas em critérios prudenciais. A autoridade monetária, ao atuar com rigor técnico e autonomia operacional, reduz riscos de contágio, preserva o funcionamento dos meios de pagamento e protege a normalidade do mercado, com foco na segurança do sistema e na proteção dos depositantes dentro dos mecanismos previstos.
A independência do Bacen não é um atributo abstrato nem um fim em si mesmo. Ela é um mecanismo de governança que protege decisões sensíveis de pressões conjunturais e de incentivos de curto prazo. A credibilidade do regime monetário e prudencial, refletida em expectativas mais ancoradas, menor volatilidade e custo de capital mais racional, depende da percepção de que decisões são tomadas com base em dados, modelos, avaliação de riscos e transparência de processo. É exatamente isso que o Bacen vem entregando: previsibilidade, consistência e capacidade de agir quando necessário.
Essa tecnicidade é indispensável tanto para a política monetária quanto para a regulação e a supervisão. Fixar a taxa básica de juros, calibrar instrumentos macroprudenciais, definir requerimentos prudenciais e conduzir processos de resolução exige diagnóstico rigoroso e compreensão profunda dos canais de transmissão de risco. O Bacen opera sob incerteza: choques de oferta, volatilidade cambial, mudanças no mercado de trabalho, dinâmica fiscal e comportamento das expectativas interagem de forma complexa. Ainda assim, o Bacen tem se destacado por comunicar com clareza, tomar decisões técnicas coerentes e ajustar sua atuação conforme a evolução dos dados, preservando a confiança e mitigando riscos sistêmicos.
Vale enfatizar: estabilidade não é o oposto de inovação; é a base para que a inovação ocorra com escala e segurança. Um sistema financeiro resiliente, bem supervisionado e com regras claras permite que novos modelos de negócios prosperem sem transferir riscos indevidos ao consumidor ou ao conjunto do mercado. Quando a autoridade monetária atua de forma técnica e previsível, o resultado é um ambiente em que o risco é corretamente precificado, o crédito tende a operar com menor volatilidade, e o investimento de longo prazo se torna mais viável.
O Brasil avançou ao ampliar a competição no setor financeiro e ao incentivar soluções digitais que melhoram a experiência do usuário, ampliam acesso e reduzem custos. Esse avanço depende de um regulador capaz de equilibrar objetivos complementares: estimular inovação e concorrência, sem comprometer a solidez do sistema e a proteção do consumidor. Nesse ponto, o Bacen tem exercido papel estruturante ao construir regras proporcionais e tecnologicamente neutras, reduzindo barreiras à entrada, promovendo eficiência e fortalecendo a segurança operacional, sem abrir mão do rigor.
Do ponto de vista de quem acompanha a transformação do setor, como na Zetta, esse equilíbrio é decisivo. Competitividade não se cria por decreto: ela nasce de um “campo de jogo” equilibrado e bem desenhado, em que diferentes participantes podem competir com base em eficiência e qualidade, e em que a supervisão assegura que inovação não seja confundida com fragilização de controles. Um ambiente regulatório previsível permite que empresas invistam, desenvolvam produtos, captem recursos e operem com gestão de riscos consistente, condição essencial para a evolução do ecossistema financeiro digital.
É por isso que preocupa quando decisões essencialmente técnicas são interpretadas sob lentes conjunturais ou submetidas a questionamentos que desconsideram evidências e critérios prudenciais. O custo desse ruído tende a ser imediato: deterioração das expectativas, aumento do prêmio de risco, encarecimento do crédito e maior volatilidade. Mais grave, enfraquece-se a mensagem de que estabilidade de preços e solidez financeira são compromissos permanentes do Estado, e não variáveis ajustáveis ao sabor das circunstâncias.
Defender a independência do Bacen não significa afastá-lo do debate democrático. Significa fortalecer os canais corretos de controle e escrutínio: transparência, comunicação clara, relatórios, audiências, governança e accountability. Divergências são legítimas, mas devem se apoiar em diagnósticos, dados e alternativas consistentes. É assim que se qualifica a discussão pública sem desorganizar expectativas nem reduzir a eficácia de uma política que, para funcionar, depende de credibilidade.
Instituições fortes não eliminam divergências; elas organizam divergências de modo produtivo. O Bacen tem feito um bom trabalho ao atuar com independência e tecnicidade, tomando decisões acertadas para defender a estabilidade, proteger o sistema financeiro e sustentar um ambiente favorável à inovação e à concorrência. Preservar essa autonomia e valorizar esse padrão de atuação é, em última instância, proteger o interesse público: inflação mais previsível, crédito mais estável e um setor financeiro mais competitivo, com espaço para novos concorrentes, sem abrir mão da segurança e da confiança que sustentam todo o ecossistema.