“As ideias são mais importantes que os produtos”, diz Paul Makeham

Especialista em inovação, o australiano Paul Makeham acredita que a economia global está em transição: acaba a era da informação, começa a era da criatividade

São Paulo – Oriundo do meio teatral, com uma série de livros publicados sobre o assunto, Paul Makeham mudou sua vida em 2002. Fundou a Faculdade de Indústrias Criativas dentro da Queensland University of Technology, na Austrália, para que ninguém pensasse que a criatividade está restrita às artes. Antes de vir ao Brasil para participar do II Fórum Internacional de Criatividade e Inovação, Makeham conversou por telefone com EXAME.

EXAME – O que é exatamente Economia Criativa?

Paul Makeham – Economia criativa é aquela baseada em atividades criatividade, nas habilidades individuais e no talento. É a indústria que tem potencial para criar riqueza e empregos ao desenvolver propriedade intelectual. Isso inclui propaganda, multimídia, arquitetura, cinema, música, arte e antiguidades, vídeo game, softwares, livros, design, moda, televisão e rádio. Mas essa é a definição clássica, técnica e antiga. Prefiro pensar em um conceito mais amplo e moderno, que engloba ideias que perpassam trabalho, estilo de vida e várias formas de riqueza, que incluem capital cultural, social e econômico.

EXAME – Que vantagens a indústria criativa tem sobre a tradicional?

Makeham – As idéias são mais importantes que os produtos, que podem ser – e são – copiados. O verdadeiro valor está na inovação, naquilo que só a sua empresa sabe fazer. A propriedade inteclectual já é responsável por uma economia de 3 trilhões de dólares no mundo hoje.

EXAME – Mas a economia criativa vai suplantar a economia “tradicional”?

Makeham – Já vemos sinais por todas as partes de que a indústria das idéias e do conhecimento está se tornando mais e mais importante, e nos próximos anos vai se tornar ainda mais importante que a economia baseada em produtos. Veja o caso do Vale do Silício, nos Estados Unidos, ou de várias partes do Reino Unido – notadamente a Irlanda, que também tem uma forte indústria de softwares, e a Inglaterra, com sua fortíssima indústria cultural. A mídia na Austrália, a tecnologia inovadora em países como Japão e Coréia…

EXAME – O senhor está falando de países já bem desenvolvidos. O Brasil está pronto para essa transição?

Makeham – Não quero dizer que os problemas que o Brasil e outros países em desenvolvimento são fáceis de resolver, mas é certo que a criatividade é um fator importante para ajudar a resolvê-los. Existe uma característica brasileira que eu acho fascinante: a gambiarra, o jeitinho brasileiro. Eu entendo que essa característica possa ter seus aspectos ruins, que muitas vezes nasça das dificuldades e deficiências do país, mas é uma prova clara da criatividade do povo brasileiro na solução de problemas, e isso deve ser usado em prol da economia.


EXAME – O Estado tem um papel a desempenhar para incentivar a criatividade?

Makeham – Os governos precisam entender que precisam investir tanto em cultura quanto na ciência tradicional: matemática, medicina, química, engenharia, economia. A cultura é fonte de criatividade, e a criatividade é importante para todos os campos – principalmente a esses que eu citei.

EXAME – O investimento em teatro, música e literatura vai mudar a economia?

Makeham – Isso é uma das frentes, mas não a única. Para que o país consiga fazer essa transição para a economia criativa, é fundamental desenvolver a educação, encorajando a criatividade dos alunos. E não estou falando de aulas de artes, mas de um modo diferente de ensino, mais encorajador. É preciso também investir em telecomunicação, pois a criatividade nasce mais da colaboração entre diferentes pessoas com diferentes ideias de diferentes contextos do que da genialidade de indivíduos isolados.

EXAME – Como uma economia pode funcionar sem indústria primária, como a siderurgia, por exemplo?

Makeham – É claro que elas são importantes, e que não podem reinventar o arroz ou o minério de ferro, mas elas podem usar o dinheiro que ganham para desenvolver maneiras mais sustentáveis de produzir, uma gestão mais eficiente, uma distribuição mais inteligente. A economia funciona melhor quando seus atores são inquietos intelectualmente, quando estão sempre tentando inventar modos melhores de levarem seus negócios.”

EXAME – Em suas palestras, o senhor costuma dizer que empresas pequenas são mais criativas que grandes corporações. Por que isso acontece?

Makeham – As empresas menores têm estruturas menos rígidas e estão mais dispostas a arriscar. Mas as grandes corporações têm muito mais chance de ter sucesso se conseguirem implantar uma cultura de inovação e criatividade, tanto na pesquisa e desenvolvimento como na gestão da empresa, na relação com o consumidor (a internet facilita isso enormemente), na capacidade de concatenar as ideias de várias partes do mundo.

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