Maurício Moura: as bases de Lula e Bolsonaro não ganham eleição

Para Maurício Moura, presidente do instituto de pesquisa IDEIA, as bases de Lula e Bolsonaro não ganham eleição
Maurício Moura: ainda há espaço para mudanças nas intenções de voto (Leandro Fonseca/Exame)
Maurício Moura: ainda há espaço para mudanças nas intenções de voto (Leandro Fonseca/Exame)
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Gilson Garrett JrPublicado em 22/07/2022 às 06:00.

De acordo com a série histórica da pesquisa eleitoral EXAME/IDEIA, a parcela de pessoas que ainda não haviam decidido o voto era de 25% no começo do ano. O número vem caindo, e deve seguir em queda até a eleição de outubro. Faltando mais de dois meses para o pleito, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) somam, juntos, cerca de 65% das intenções de voto espontâneas, num cenário que deve se concentrar ainda mais nas próximas semanas. Lula vem liderando segundo os principais institutos de pesquisa. Sinal de que a disputa está decidida talvez no primeiro turno? Cedo demais para dizer.

Apesar de terem bases mais consolidadas do que outros pré-candidatos, para Maurício Moura, fundador do IDEIA, instituto especializado em opinião pública, e professor na Universidade George ­Washington, nos Estados Unidos, há uma camada considerável dentro das intenções de voto em Lula e Bolsonaro que não se encaixa nos eleitores fiéis, e que pode mudar de voto até outubro. Uma variável fundamental é como a PEC dos Benefícios (aprovada em meados de julho) vai ser sentida pela população. Moura ainda questiona se o eleitor vai associar o programa social ao presidente Bolsonaro, ou se pode até ajudar Lula, que ficou conhecido pela criação do Bolsa Família. Outro ponto sensível é a economia. Em tempos de inflação alta e achatamento dos salários, o bolso do eleitor deve decidir o voto. Ouvimos Moura sobre os fatos já consumados e as variáveis ainda em aberto nas eleições de outubro. 

A pouco mais de dois meses do pleito, o que indicam as pesquisas de intenção de voto?

É importante esclarecer um conceito. Pesquisa é uma fotografia do momento e não se propõe a prever o futuro. É natural que os eleitores achem que ela pode indicar o que vai acontecer na eleição, mas ela não se propõe a isso. Nas democracias, é importante ter uma oferta de informações que balizem alguns pontos relevantes para a sociedade. A própria avaliação do trabalho da administração pública, em qualquer nível, é uma grande contribuição das pesquisas de opinião. Nas eleições, elas dão a dimensão momentânea do quadro da intenção de voto. E isto precisa ficar claro: é uma intenção que pode se materializar de outra forma. Não acredito que somente a pesquisa seja a ferramenta de tomada de decisão do eleitor. Pelos indicadores que temos, o eleitor toma a decisão do voto com base em vários elementos, incluindo emocionais. Em comparação com o mundo, o Brasil ainda tem pouca oferta de pesquisa.

A pesquisa EXAME/IDEIA utiliza a metodologia de entrevistar os brasileiros por telefone. Outras sondagens fazem de forma presencial, na rua. E há uma variação dos números, a depender do tipo de entrevista. Por que os números, mesmo apontando a mesma tendência, são diferentes dependendo da metodologia?

Mesmo com metodologias diferentes, as amostras são bastante semelhantes. A amostra é parte de um universo, que são os eleitores brasileiros. Uma afirmação que frequentemente me fazem é: “Entrevistam 2.000 pessoas, mas eu nunca fui entrevistado”. Isso ocorre pelo mesmo motivo que você não tira todo o sangue do corpo para fazer um exame. Só pega uma parte que dá a você a informação. A amostra é separada por gênero, renda, região, entre outras características. Esse é um ponto que está bastante estabelecido no Brasil. E, como temos de registrar as pesquisas, a amostra se torna pública. 

O ex-presidente Lula com o pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (PSB), em um evento no Rio, em julho: base consolidada nas classes D e E nas periferias das grandes cidades brasileiras (Wagner Meier/Getty Images)

Quais são as vantagens e desvantagens de cada uma das metodologias?

Não existe uma metodologia perfeita. Até o Censo, pesquisa que literalmente entrevista toda a população, também tem suas limitações. A pesquisa telefônica possui uma vantagem óbvia que é o custo. E estamos falando de dois tipos: um é a gravação, em que o entrevistado interage apertando o botão; e há a pesquisa em que um humano liga para outro humano, como é a realizada pelo IDEIA. Ela tem a vantagem do tempo, é mais rápida. Entre as limitações, é importante destacar a dificuldade em encontrar pessoas de baixíssima renda. Historicamente, o telefone fixo era de difícil acesso. Com o telefone celular isso mudou, mas ainda é um desafio. Outra questão é fazer um questionário muito longo, que demanda mais tempo. A pesquisa presencial tem a vantagem de poder ter questionários mais longos, para aprofundar as perguntas, e dá para encontrar pessoas de baixíssima renda. Por outro lado, a limitação dela é o custo, porque demanda um operacional na rua. Outra dificuldade é parar uma pessoa de altíssima renda na rua para uma entrevista de 15 minutos. Vale frisar que o Brasil tem um problema de amostragem, já que o ­último Censo foi feito em 2010. Isso gera inconsistências. Um exemplo é o percentual de evangélicos no Brasil. O último dado do Censo mostra que são 25% da população, mas especialistas falam em pelo menos 30%. Mesmo com tudo isso, as semelhanças entre as pesquisas são maiores do que as diferenças.

Qual é a diferença entre uma pergunta estimulada e uma espontânea? O que as respostas contam sobre os eleitores neste momento?

A espontânea é importante porque ela mostra o grau de engajamento do eleitor com um candidato naquele momento, sem nenhuma opção apresentada previamente. Quando há a menção ao nome de um candidato de forma espontânea, significa que ele tem um grau maior de engajamento. A estimulada, obviamente, simula a realidade. Como o Brasil é um país de voto obrigatório, as pessoas precisam escolher algum nome. 

Muitas vezes temos a sensação de que na internet forma-se uma opinião pública em um sentido, e a pesquisa vem com outro diferente. Por que as enquetes e os comentários nas redes sociais não servem para medir a opinião pública?

O nome técnico dessa sensação é seleção adversa, que é estimulada pelos próprios algoritmos das redes sociais. Em nossas bolhas conversamos e interagimos com pessoas que basicamente corroboram com as nossas próprias opiniões. Isso acontece não só na opinião pública. Frequentamos escolas com características econômicas, sociais e geográficas similares, nos casamos com pessoas nessas mesmas condições. Com isso, é normal que o debate de opinião pública esteja concentrado nos grupos que por definição estão próximos. O problema é que o que está próximo de você não representa o conjunto total da população. A grande diferença de fazer pesquisa e enquete é que a pesquisa possui uma amostragem que reflete a população. Já a enquete não tem compromisso com a amostragem, e isso carrega uma série de problemas. 

Presidente Bolsonaro em motociata com apoiadores em Manaus: base fiel tem eleitores com maior escolaridade, evangélicos e ligados ao agro (RICARDO OLIVEIRA/AFP/Getty Images)

Faltando pouco mais de dois meses para a eleição, o governo vai pagar um novo pacote de benefícios sociais. Vimos, em 2020, que o pagamento do auxílio emergencial, por causa da pandemia de covid-19, elevou de forma positiva a avaliação do governo. Neste momento, a opinião pública pode mudar em um curto espaço de tempo com esse dinheiro?

Acredito que tende a mudar, sim, porque vai impactar a vida de milhões de pes­so­as. Vai dar algum poder aquisitivo para as pessoas, e se elas associarem isso ao presidente ele certamente será beneficiado. Vale destacar que é muito comum em eleições os governantes usarem o arcabouço fiscal para turbinar suas possibilidades de reeleição. A grande questão é se será suficiente para a reeleição. Acho que para esse objetivo a resposta é mais complexa. Bolsonaro é o primeiro presidente depois da ditadura que vai para uma reeleição com o nível de reprovação maior do que o de aprovação. Se há um indicador que possibilita uma reeleição é justamente o saldo de popularidade do governo, e hoje ele é negativo. Acredito que será muito complicado o governo reverter isso só com essas medidas. Um dos lugares que o presidente mais precisa tirar a diferença é no Sudeste. Sabemos que os 600 reais do auxílio têm um poder de compra completamente diferente em São Paulo, capital, quando comparada a uma cidade do interior. Além disso, há uma memória da população, de que essas ajudas do governo Bolsonaro são transitórias.

As pesquisas espontâneas mostram que cerca de 65% dos eleitores já tomaram uma decisão no voto para presidente entre Lula e Bolsonaro no primeiro turno. O que esses números espontâneos revelam sobre a eleição deste ano?

Pela primeira vez, temos a eleição que combina um presidente em exercício com um ex-presidente com a musculatura do Lula. São duas figuras amplamente conhecidas, com bases eleitorais muito bem estabelecidas, e esse fato é uma novidade eleitoral. O segundo ponto é que esse nível de engajamento produz algo que conseguimos perceber nas eleições dos Estados Unidos, em 2020, entre Donald Trump e Joe ­Biden. Os dois amplamente conhecidos, com Biden sendo vice-presidente durante oito anos, e Trump um presidente em exercício. Nesse cenário, havia pouco espaço de convencimento do eleitor. 

O senhor tem dito muito que esta eleição presidencial de 2022 no Brasil é uma disputa de rejeições. Por que essa variável é tão importante dentro de uma pesquisa eleitoral?

Ela é importante porque representa um teto para os candidatos. A questão é se esse teto é suficiente para ganhar a eleição. Com Bolsonaro e Lula temos uma dupla rejeição, ou seja, a eleição vai ser uma batalha de rejeições. Esse fenômeno não é uma realidade apenas brasileira. Tivemos na América Latina, com Peru, Chile e Colômbia mais recentemente, e até mesmo nos Estados Unidos. A implicação prática nesse movimento é que o eleitor vota muito mais tentando evitar a vitória do outro do que para prestigiar as propostas do candidato que ele escolheu. O problema é que teremos governos impopulares, com mais reprovação do que aprovação. Chamo isso de onda de oposição. As eleições presidenciais na América Latina nos últimos quatro anos têm sido vencidas pela oposição, independentemente se ela está na direita ou na esquerda. 

A pesquisa eleitoral consegue nos dizer como o eleitor brasileiro vai votar? O que ele quer e o que mais pesa na decisão do voto?

Na eleição presidencial, para os eleitores que vão decidir o resultado ­— aqueles que votaram na ex-presidente Dilma Rousseff em 2014 e em Bolsonaro em 2018 —, a economia será um fator muito importante. Estamos falando de um eleitor de renda média, de dois a cinco salários mínimos. Ele sofre com a inflação e com a informalidade no mercado de trabalho. Para essa pessoa, a gestão da economia, atribuída ao presidente da República, vai ser muito importante. Nas eleições estaduais depende da região. Em algumas, o pleito vai ser bastante nacionalizado, como no Rio do Janeiro. Há estados em que a questão regional é bem mais importante, como em Minas Gerais, onde o governador Romeu Zema (Novo) deve ganhar votos tanto de Lula quanto de Bolsonaro.

Conseguimos saber quem é o eleitor do Lula e quem é o eleitor do Bolsonaro?

Lula lidera as eleições nacionais, mas são poucos os estados em que o PT pode eleger o governador. Isso para mostrar a dimensão de Lula neste pleito. Ele tem um eleitor popular, não somente de esquerda. O que eu quero dizer com isso é que ele é das classes D e E, de renda baixa, muito concentradas nas periferias do Brasil, principalmente na Região Nordeste. Esse eleitorado acompanhou o ex-presidente mesmo quando ele estava preso e foi fundamental para Fernando Haddad ir para o segundo turno em 2018. Já os eleitores de Bolsonaro, aqueles 20% que estão com ele independentemente do que faça, têm a combinação de três públicos. Um deles eu chamo de bolsonaristas originais, que votam há anos nele, que são uns 5%. É masculino, urbano, de renda e escolaridade altas. Foi muito presente nas manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma. Temos também o público dos evangélicos neopentecostais, que são 10% e estão espalhados pelo Brasil. Veem nele um defensor dos valores. Por último, o presidente tem muita base na fronteira agrícola, ligada ao agro em diversas frentes. De qualquer forma, é importante dizer que nenhuma dessas bases, nem de Lula nem de Bolsonaro, representa a maioria da população, e eles precisam ir além dela para ganhar a eleição.  


(Publicidade/Exame)