Roberto Azevêdo: com a nova ordem geopolítica o Brasil terá de escolher entre China e EUA (Arne Immanuel Bänsch/Picture Alliance/Getty Images)
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h00.
A nova ordem internacional imposta pelo governo de Donald Trump impõe uma escolha delicada a países como o Brasil: alinhar-se aos Estados Unidos ou à China. Esse é o diagnóstico do embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) e presidente da 9G Consultoria, em entrevista à EXAME sobre os rumos da geopolítica global.
A avaliação é realizada na esteira de uma série de eventos que sacudiram o cenário internacional no início de 2026, enquanto o mundo ainda digeria a chegada de um novo ano — entre eles, a captura do então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, o aumento das tensões com o Irã e os atritos com a Groen-lândia, ponto estratégico no Ártico.
Azevêdo afirma que essas ações simbolizam uma nova lógica de poder, em que a força substitui o diá-logo, e decisões são tomadas à revelia das instituições globais. “O sistema multilateral era fragilizado, imperfeito, para dizer o mínimo.
O que temos hoje é o desmoronamento dessa ordem que já era fraca e agora tem impacto quase inexistente nas decisões das grandes potências”, diz Azevêdo. “Esse cenário de ‘cada um por si’ ou ‘lei da selva’ tende a existir, na prática.”
O ano de 2026 começa com a captura de um presidente latino-americano pelos Estados Unidos. O que essa ação revela sobre a geopolítica atual?
É um desdobramento impactante, embora não seja totalmente imprevisível. O deslocamento militar americano, os ataques a embarcações ligadas ao tráfico já prenunciavam algo. Não se esperava, porém, uma operação tão ousada como retirar um chefe de Estado de dentro do Palácio de Miraflores [residência oficial do presidente venezuelano]. Isso surpreendeu o mundo pela ousadia e, francamente, pela competência da execução. Mais do que a intervenção em si, o episódio revela uma mudança mais profunda: estamos vendo sinais concretos de uma nova ordem política e econômica internacional. Já vínhamos percebendo a perda de relevância do multilateralismo e o aumento de ações unilaterais. E é preocupante que os Estados Unidos estejam no centro dessa nova lógica.
Qual é o papel da América Latina nesse contexto? A região passou de um lugar mais latente para os holofotes?
A mudança é clara. Não se trata mais apenas de segurança militar, como na Doutrina Monroe ou durante a crise dos mísseis em Cuba. Hoje, os EUA percebem uma crescente influência de potências estrangeiras — especialmente a China — na América Latina. Essa presença vem por meio de investimentos em infraestrutura, produção, recursos naturais e energia. A China tem ampliado sua atuação, sobretudo na aquisição e articulação de alimentos, minérios e fontes de energia, além de projetos de infraestrutura como portos e rodovias. Isso leva os EUA a enxergar a região como parte da sua órbita natural, agora ameaçada. Mesmo sem uma ameaça militar direta, há um temor de perda de influência econômica.
Mas, ao mesmo tempo, a impressão que fica é de que a soberania latino-americana varia conforme o humor da Casa Branca. Essa percepção tem fundamento?
Muitas vezes se associa a política externa americana à personalidade do presidente, especialmente com alguém como Trump, que tem um estilo muito midiático e direto. Ele anuncia ações por redes sociais, e isso dá a impressão de voluntarismo puro. Mas há uma estratégia mais ampla por trás disso. Existe, sim, certo voluntarismo, mas ele não é o único fator. Há uma movimentação geoestratégica clara, e reduzir tudo ao “humor da Casa Branca” simplifica demais a realidade. A política externa americana é mais estruturada do que aparenta.
O presidente Trump falou muito sobre o petróleo, mas a Venezuela enfrenta queda na produção. Não parece razoável pensar que o petróleo seja a principal justificativa?
Do ponto de vista político, ainda é cedo para cravar como será a relação entre EUA e Venezuela. Isso vai depender de como as lideranças do regime — como a vice-presidente, o ministro da Defesa e outras figuras relevantes — vão se posicionar. No longo prazo, a questão do petróleo é apenas um dos fatores. O narcotráfico também é relevante, assim como os minerais críticos e a imigração. A produção de petróleo da Venezuela chegou a 350.000 barris por dia na pandemia, mas já se aproxima de 800.000. Há uma percepção nos EUA de que essa recuperação ocorre com a ajuda da China e, possivelmente, da Rússia — com envio de diluentes e investimentos. A estratégia americana, então, é impedir que as maiores reservas do mundo se tornem uma plataforma energética controlada por potências rivais.
Presidente dos EUA, Donald Trump, fala sobre a operação na Venezuela: ação no país sul-americano marca uma nova fase na diplomacia global (Alex Wong/Getty Images)
Para alguns analistas, essa ação de Trump reflete mais um vácuo de poder e de perda de credibilidade do que de força. Qual é a sua leitura sobre esse movimento?
Vejo como parte de um plano estratégico mais amplo. Os EUA estão repensando seu engajamento internacional, e isso não é sinal de fraqueza. Pelo contrário, é uma demonstração de que o aparato militar e de inteligência é sofisticado o suficiente para realizar operações cirúrgicas e eficazes. Essas ações são alternativas às guerras prolongadas, com tropas em solo e altos custos políticos internos. Usar recursos como drones, satélites e inteligência local permite intervenções pontuais, com alto impacto e baixo custo. É uma nova forma de exercer poder.
Qual é, então, o cálculo da China neste momento, perdendo, talvez, uma esfera de influência importante?
A China tem clareza de que não está pronta — nem tem interesse — em confrontar os Estados Unidos militarmente, até mesmo em questões como Taiwan. A estratégia chinesa tem como base influên-cia econômica e expansão silenciosa, como mostrou com o domínio quase absoluto sobre terras raras e minerais críticos. Esse domínio foi construído ao longo de anos com investimento em mineração, processamento e tecnologia. A China sabe que o risco de um desacoplamento com o Ocidente é real e, por isso, busca relações comerciais fortes em todos os cantos do mundo.
Mas qual é o resultado dessa visão chinesa?
A China tem adotado uma estratégia de diversificação de parcerias e de criação de relações de dependência econômica, preferencialmente com outros países dependendo da China — e não o contrário. Isso nem sempre se confirma, como no caso do Brasil, que também é fornecedor estratégico de minerais e alimentos. Ainda assim, o objetivo chinês é criar uma rede global de dependências que dificulte qualquer tentativa de isolamento por parte das potências ocidentais. Esse é um movimento muito claro e bem estruturado, com investimentos em infraestrutura, logística e forte presença como compradora de commodities do mundo em desenvolvimento. Tudo isso é percebido pelos Estados Unidos como uma ameaça econômica estratégica e como um fator de competição. Não por acaso, nos documentos mais recentes de estratégia americana, a China passa da condição de “ameaça” para a de “competidor”. Essa mudança de nomenclatura é significativa. Os EUA e a União Soviética eram amea-ças durante a Guerra Fria, mas nunca foram competidores econômicos globais. Com a China, o cenário é diferente — e isso merece uma reflexão mais aprofundada.
O senhor mencionou anteriormente a perda de relevância do multilateralismo. A assinatura de acordos como o UE-Mercosul é uma resposta à política externa mais agressiva dos EUA?
Nós estamos vivendo um mundo onde as parcerias estratégicas e alianças de longo prazo — como a própria Otan — passam a ser questionadas. Hoje, depender de um país ou acreditar que ele será seu parceiro estratégico pelos próximos 30 anos é uma empreitada de alto risco. O nome do jogo hoje é diversificar. Isso já vem sendo discutido desde a pandemia, quando ficaram claras algumas dependências excessivas. Agora, todos procuram diversificar cadeias de produção e dependência, para evitar vulnerabilidades econômicas ou militares em momentos críticos. A assinatura de acordos regionais e bilaterais faz parte desse movimento. A Europa, por exemplo, vê os EUA — antes um parceiro militar inquestionável — quase como um adversário. Com o que está acontecendo em relação à Groenlândia, os EUA vêm sendo agressivos com a própria Otan, criticando políticas migratórias e dizendo que os traços culturais e ideológicos que os uniam à Europa estão se desfazendo, inclusive por causa da imigração de culturas distintas. Esse afastamento cria espaço para a China ocupar nichos estratégicos na Europa, como o setor automotivo. Os chineses começaram a inundar o mercado europeu com automóveis elétricos, o que levou a Europa a discutir tarifas contra esses produtos. Diante disso, a resposta europeia — e de outros países — é diversificar. E o Mercosul deveria seguir o mesmo caminho.
O presidente Trump fez menções à Colômbia e a Cuba. Podemos pensar em novas operações na América Latina como a que aconteceu na Venezuela?
É possível que essas operações aconteçam. Mas há dois parâmetros importantes para balizar esse tipo de ação. O primeiro é o interesse econômico. Quase sempre, as atitudes americanas não se dão apenas por motivos políticos ou ideológicos. Cuba, por exemplo, tem um sistema político e cultural completamente alheio à lógica americana, mas, do ponto de vista econômico, oferece pouco. Talvez tenha valor estratégico pela posição geográfica, mas não muito além disso. Se o ganho econômico estratégico é pequeno, a chance de uma ação direta também diminui. O segundo parâmetro é político. No caso da Colômbia, por exemplo, os EUA avaliam se conseguem cooperar com o regime político vigente. Se há uma mudança de governo ou uma reorientação favorável aos interesses americanos — em áreas como imigração, combate às drogas e exploração de recursos —, isso tende a afastar o risco de sanções ou ações mais duras. Cada caso é um caso, mas tudo vai depender destes dois fatores: o grau de interesse econômico e a possibilidade de coordenação política.
Assinatura do acordo UE-Mercosul, em janeiro: aposta na diversificação de mercados é saída para evitar “dependência excessiva” entre países, avalia Azevêdo (Christian Alvarenga/Getty Images)
Qual é o papel do Brasil nesse contexto, especialmente em um ano de eleições?
Acredito que o maior risco que o Brasil oferece aos Estados Unidos, sobretudo sob a perspectiva americana, é o de um alinhamento mais próximo da China. De permitir que a China crescentemente ocupe uma posição relevante na área de logística, infraestrutura, exploração de recursos naturais, produção de alimentos e sua comercialização. Então, a presença chinesa nessas áreas no Brasil é preocupante para os EUA. E, associado a isso, todo o mais: a dependência que o Brasil vai criando nas vendas de seus minerais, seus alimentos, produtos de base que sustentam, em larga medida, a economia chinesa e a sustentabilidade política do regime chinês. Na cabeça dos americanos, quando eles olham para o Brasil, as maiores preocupações são: “Será que estou perdendo o Brasil para a China?”; “Será que o regime político do Brasil vai trabalhar para aproximar o país da China e afastá-lo dos Estados Unidos?”. Acho que esse é o contexto do pensamento que vai se formando dentro de Washington.
Como o Brasil deve agir diante desse desafio de se equilibrar entre duas potências?
É o desafio da política externa brasileira. O Brasil é um país que tem uma dimensão internacional que não deve nem pode estar limitada a uma região ou a um alinhamento. Por exemplo, todo o nosso setor agropecuário — que é quase um quarto do nosso PIB — hoje tem dependência do mercado chinês.
E os Estados Unidos jamais vão compensar isso. Então, o que o Brasil tem que tentar fazer é manter as relações abertas. Mostrar para os EUA que nós não somos antiamericanos, muito pelo contrário. A China é um parceiro comercial, que tem uma presença e uma importância significativas no desenvolvimento econômico e social do nosso país. Assim como os Estados Unidos. O ideal seria evitarmos a situação em que teríamos que escolher entre EUA e China. Não acho que estejamos nessa situação, e não será algo que tenhamos que fazer no futuro imediato. Mas não descarto a possibilidade de que esse seja um desdobramento que teremos que confrontar mais à frente, dependendo de como EUA e China entenderem suas relações no continente latino-americano, sobretudo.
Geopolítica não é futurologia, mas podemos arriscar uma previsão: estamos caminhando para um cenário de “cada um por si”?
Sim, pelo menos no curto prazo. O sistema multilateral já era fragilizado, imperfeito, para dizer o mínimo. O que temos hoje é o desmoronamento dessa ordem que já era fraca e agora tem impacto quase inexistente nas decisões das grandes potências. Esse cenário de “cada um por si” ou “lei da selva” tende a existir na prática. Eu penso que já estamos nele. Podemos agravar esse cenário, podemos ter um aprofundamento ou não. Mas é o cenário prevalecente hoje. EUA, Rússia, China e outros países com poder regional vêm tomando decisões cada vez mais ao arrepio das instâncias multilaterais. Isso talvez dure um tempo, até que um novo equilíbrio de forças se apresente. Para termos outro arcabouço de sistema internacional — tanto no aspecto econômico quanto no político. Como criar um novo sistema? Essa é a grande pergunta e ninguém tem essa resposta.
Esse cenário é sustentável no longo prazo?
A história mostra que esforços de cooperação supranacional quase sempre se seguem a catástrofes ou a eventos muito dramáticos, que mostram para os hegemônicos — quaisquer que sejam eles — a necessidade de cooperação. Porque o status quo era negativo para todos e, então, encontravam um arranjo pouco funcional para permitir uma cooperação que minimizasse custos para todos. Espero que não tenhamos que passar por crises muito dramáticas. No passado, foram guerras — com custo humano e econômico altíssimo. Vamos esperar que não seja necessário nada disso, e que a gente consiga reestruturar e reequipar as relações internacionais com um arcabouço de cooperação mais sólido e que reflita o novo equilíbrio econômico e militar que vivemos no mundo hoje.