A China é o parceiro que não muda de ideia a cada ciclo eleitoral. Em terras raras, veículos elétricos e IA, tornou-se o gargalo por onde passa o resto do mundo (Twomeows/Getty Images)
Economista e Sócio da Nostrum Public Affairs
Publicado em 28 de outubro de 2026 às 06h00.
Em 2019, fui convidado para uma conferência em Diaoyutai, a casa de hóspedes do Estado chinês, no recinto onde Kissinger foi recebido por Zhou Enlai em 1971. O lugar tem mais de 800 anos. Começou como plataforma de pesca de um imperador da dinastia Jin e é hoje o rosto que Pequim mostra ao estrangeiro que convém impressionar. A poucos quilômetros fica Zhongnanhai, o antigo jardim de recreio dos imperadores, encostado à muralha ocidental da Cidade Proibida. Foi para esse jardim, e não para o trono vazio ao lado, que o Partido Comunista levou o poder. A Cidade Proibida virou museu, aberto às multidões. O poder real mudou-se para as traseiras e ergueu novos muros. Em 1972, a abertura ao Ocidente percorreu essa geografia. Nixon ficou em Diaoyutai, mas o aperto de mão que mudou o século foi com Mao, dentro de Zhongnanhai. A fachada e o santuário do poder, separados por poucos quilômetros e por todo o resto. É esta a China que se tem diante dos olhos: um jogo de espelhos. Por fora, a potência que retomou o seu lugar histórico no topo do mundo; por dentro, labirintos onde se escondem incertezas que podem emergir no próprio apogeu.
Xi Jinping tem motivos para olhar os últimos dois anos com satisfação. Do outro lado do Pacífico, Washington dinamita, tuíte a tuíte, o único ativo fora do alcance dos seus rivais: a confiança dos seus aliados pelo mundo. A Otan vive cada vez mais uma existência zumbi, os parceiros asiáticos calculam planos B, o Golfo está em chamas, e o Sul Global é empurrado para longe. A China oferece-se como o parceiro que não muda de ideia a cada ciclo eleitoral. Enquanto Washington fala, Pequim constrói. Em terras raras, baterias, veículos elétricos, capacidade industrial e IA, tornou-se o gargalo por onde passa o resto do mundo. Um a um, chefes de Estado fazem a peregrinação a Pequim para serem recebidos por Xi, cada qual à procura do seu acordo e com o seu pedido na bagagem. Ecoa aí o velho sistema tributário, quando os reinos vizinhos mandavam embaixadas carregadas de presentes ao imperador, senhor de tudo debaixo do céu. Visto de Zhongnanhai, o tempo da China parece ter voltado, e até a reunificação pacífica com Taiwan regressa ao campo do possível.
Mas é quando o céu está mais azul que convém procurar no horizonte os sinais de mudança. A primeira nuvem negra, e a mais subestimada, chama-se sucessão. A Comissão Militar Central, que comanda o maior exército do mundo e normalmente tem sete membros, está hoje reduzida a dois. Xi e um único vice. Uma cascata de purgas levou pela frente vice-presidentes e generais, até Zhang Youxia, o militar fardado mais poderoso do país. Em 2018, Xi abolira o limite de mandatos, desmontando a salvaguarda que Deng erguera contra o poder de um só homem. Em 2027, o Congresso do Partido deverá reconduzi-lo, e continua sem haver sucessor à vista nem processo para o escolher. Nomear um traria perigos imediatos. A partir desse dia existiria um centro alternativo de poder, e é nessa armadilha que Xi receia cair.
A segunda nuvem é o modelo econômico. A “dupla circulação” prometia equilibrar o motor das exportações com um mercado interno robusto, mas o consumo doméstico teima em não arrancar, travado por famílias que poupam por falta de rede de proteção social, e a dívida provincial e imobiliária continua a pesar. A população envelhece e encolhe a um ritmo que nenhuma política reverte. E o próprio sucesso exportador alimenta a reação de um mundo que vê as suas economias invadidas por produtos com os quais não consegue competir, e dependentes de tecnologias que não controla e que se tornam alavanca negocial.
A terceira nuvem vem de fora e é a mais contraintuitiva, porque nasce de um sucesso. Apesar de ser hoje, de longe, a parte mais forte, a China tratou a Rússia enfraquecida de Putin com uma deferência de igual, poupando-lhe a humilhação e deixando-a guardar as aparências de grande potência. Foi uma aula de diplomacia: ganhou energia barata e um parceiro rico nos recursos naturais que lhe escasseiam, sem pagar o preço de o subjugar em público. A história conhece esse enredo. Em 1914, a Alemanha do Kaiser estava acorrentada a um parceiro menor e instável, a Áustria-Hungria, cuja imprudência a arrastou para uma guerra que não escolhera. Quanto melhor a China gere a relação com uma Rússia em economia de guerra e cada vez mais disposta ao risco, mais atada fica ao destino dela. A diferença, e não é pequena, é que Xi mostrou mais frieza e mais margem do que Guilherme II alguma vez teve. Mas a lição se mantém. As grandes potências raramente escolhem as suas guerras. São arrastadas para elas por aliados que julgam não poder abandonar.
E o que tem isso a ver com o Brasil? Muito. Conduzir bem a relação com a China será dos assuntos mais pesados na mesa do novo presidente. Uma hostilidade, mesmo que só retórica, não será tolerada em 2026 como foi em 2018. Por outro lado, a quimera de a China ser a única carta para contrabalançar os EUA mais hegemônicos no hemisfério só trará decepção. O que vale para o Itamaraty vale para cada empresa com a China como maior cliente ou fornecedor. Quantas modelaram o dia em que mudará quem manda em Pequim, ou uma convulsão como a que se seguiu à morte de Mao?
Em 1793, Lord Macartney tornou-se o primeiro embaixador britânico recebido pela corte de Qianlong. Levara relógios e autómatos de luxo a uma civilização que construíra relógios astronômicos mecânicos 700 anos antes, e o imperador despachou-o com a sentença de que o Império Celeste tudo possuía e de nada precisava de fora. Macartney, porém, viu outra coisa. “A China”, escreveu no seu diário, “era um velho navio de guerra que uma sucessão afortunada de oficiais capazes manteve a flutuar, impondo-se aos vizinhos apenas pela sua massa e aparência. Mas, assim que um homem insuficiente assume o comando no convés, adeus à disciplina e à segurança do navio.” Mais de dois séculos depois, o navio voltou a impressionar o mundo pela sua massa. A pergunta é a mesma, e não tem nada de acadêmico para quem faz negócios com ele: “Quem está no convés, e o que acontecerá no dia em que faltar quem o comanda?”