Top Gun Maverick: piloto por trás das cenas de ação revela segredos do filme

Em entrevista inédita para o Brasil, Kevin LaRosa, famoso diretor aéreo de Hollywood comenta os bastidores e a interação com Tom Cruise, protagonista do longa-metragem
"Top Gun: Maverick": conheça os segredos dos bastidores do filme (FUJINON Lenses/ Reprodução/YouTube)
"Top Gun: Maverick": conheça os segredos dos bastidores do filme (FUJINON Lenses/ Reprodução/YouTube)
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Luiza VilelaPublicado em 26/10/2022 às 06:02.

Recorde de bilheterias nos Estados Unidos e mundo afora, com arrecadação global de US$ 1,454 bilhão, "Top Gun: Maverick" impressionou mesmo o público. E engana-se quem pensa que o efeito foi só pela nostalgia de ver Tom Cruise na continuação de um clássico do cinema; o que também chamou a atenção dos espectadores foi como o novo filme foi gravado: de fato, nas alturas.

Esqueça o CGI, as cenas aéreas de "Top Gun: Maverick" são reais, foram filmadas em alta velocidade por caças americanos. E tem uma assinatura famosa: Kevin LaRosa II, um dos coordenadores aéreos mais famosos de Hollywood.

Desde 1994, é ele o piloto que tem dado a visão "das alturas" a alguns dos filmes de maior sucesso na bilheteria mundial, como Homem de Ferro, Transformers, Ad Astra, Capitã Marvel, Homem Formiga e a Vespa, Interestellar, Vingadores, Capitão América, Jack Ryan e por aí vai. Mas para "Top Gun: Maverick", no entanto, o processo de filmagem foi um pouco diferente desses outros filmes. Além de piloto, foi ele o responsável pela construção da câmera, feita com as lentes da Fujifilm, que captou as imagens dos aviões — voando a mais de 900 km/h.

"A coisa mais difícil sobre "Top Gun: Maverick" foi que não queríamos um filme que já tivesse sido filmado antes, não queríamos nos contentar com a mediocridade, queríamos empurrar os limites e fronteiras do que as pessoas viram na tela do cinema em relação à fotografia de aviação. Isso foi possível com Tom Cruise e Joseph Kosinski [diretor]", destaca LaRosa. "Sabíamos que algo como "Top Gun: Maverick" tinha que ter imagens enlouquecedoras".

 

Kevin LaRosa, coordenador aéreo de "Top Gun: Maverick". (FUJINON Lenses/ Reprodução/YouTube)

LaRosa concedeu uma entrevista inédita à EXAME, a única para portais de notícias brasileiros, para contar detalhes dos bastidores do filme e revelar alguns dos segredos por trás da quinta maior bilheteria dos Estados Unidos e 12ª do mundo.

O desenvolvimento de uma câmera sem precedentes

É de se imaginar que filmar aviões do tipo caça, que facilmente ultrapassam os 900 km/h, seja algo quase impensável de se fazer do solo. O caminho, portanto, foi encontrar uma maneira de filmá-los no ar, de perto, e com uma câmera resistente o suficiente para captar todos os momentos — e em boa qualidade. Foi graças ao trabalho de Kevin que alcançar esse sonho se tornou uma realidade.

"Não havia nada como essa câmera no mercado. Nós criamos esse método, que chamamos de CineJet. Isso é: um L-39 [modelo de caça da força aérea da então República Tcheca] que foi personalizado e modificado para carregar, no 'nariz', uma câmera dentro de uma esfera. Dentro dela, com as lentes Fujinon, nós voamos e conseguimos captar essas imagens legais que vemos na tela do cinema, perseguindo F-18s [modelo que aparece nos filmes, pilotado por Tom Cruise] e descendo bem baixo nos cânions", comenta o coordenador aéreo.

A partir daí, o processo foi um mix de boa pilotagem com técnicas de filmagem inéditas no mercado de cinema americano. Na cabine do L-39 — modelo usado para filmar os F-18 —, cabem duas pessoas: o próprio Kevin como piloto e Michael FitzMaurice, responsável pelo controle da câmera.

 

L-39 "CineJet" com a câmera de lentes Fujinon em filmagem aérea (FUJINON Lenses/ Reprodução/YouTube)

Enquanto Kevin se preocupava com a pilotagem quase "colada" nos caças americanos, com o desafio de manter a aeronave sob controle mesmo em situações adversas, Michael buscava o melhor 'take' dos aviões em suas acrobacias, decolagens, piruetas e perseguições.

"Com a câmera, nós conseguimos gravar momentos sem precedentes, o que tornou tudo mais realista. Os aviadores da marinha estavam pilotando esses aviões até os limites absolutos e se aproximando de montanhas e rochas e do chão. Tudo aquilo que vocês viram na tela é real, éramos eu e Michael filmando ali do lado, acompanhando os F-18s", acrescenta LaRosa.

Tom Cruise e os bastidores de "Top Gun: Maverick"

Pegando o gancho da 'realidade', é importante dizer que as cenas nas quais Tom Cruise aparece também não são feitas em estúdio: é o próprio ator que está ali, de fato, pilotando um dos aviões mais avançados já produzidos nos Estados Unidos.

E tê-lo nessa função, descreve LaRosa, foi imprescindível para que as filmagens fossem ainda mais realistas. "Você sabe que a coisa mais legal para mim foi que Tom Cruise queria ter esse programa de treinamento, para que parecessem pilotos de verdade. Ele é um aviador incrível que tem um certificado para voar, isso tudo deixou o processo ainda mais fantástico", explica.

Todas as cenas tiveram uma direção prévia tanto de filmagem quanto de segurança para pilotagem dos aviões. A percepção do público foi que "tudo envolvido ali era real", segundo LaRosa.

"Eu pude ver a energia da empolgação de Tom com a preparação para 'Top Gun: Maverick' e todo o elenco, foi incrível. Ele estava todo empolgado, não importava se alguém ficasse doente ou quase desmaiasse. Ele queria avançar e ser melhor a cada dia, então isso foi muito legal, foi muito motivador de filmar e, depois, assistir", completa.

O desafio de filmar com caças e o limite do que é 'seguro'

 

Tom Cruise em "Top Gun: Maverick" (FUJINON Lenses/ Reprodução/YouTube)

Para LaRosa, a maior dificuldade nas filmagens foi acompanhar os aviões em uma curta distância de uma aeronave para a outra, por causa da "wake turbulance", ou seja, a turbulência deixada por um avião para outro em uma perseguição. Além disso, trabalhar com a segurança de todos os envolvidos também foi um desafio.

"Meu trabalho é ser coordenador aéreo e a maneira mais fácil de explicar isso é dizer que tiramos storyboards do papel, transformamos sonhos em realidade para tentar fazer as coisas de verdade. Esse é o meu objetivo, mas, ao mesmo tempo, meu trabalho é fazer com que todas essas pessoas que se arriscam nas filmagens cheguem vivas e seguras em casa no final do dia", inicia Kevin.

"Nunca podemos esquecer que somos apenas humanos, a aviação é inerentemente arriscada e o tipo de trabalho que fizemos ali é talvez um pouco mais arriscado do que outros tipos de aviação. O desafio maior foi esse: fazer cenas tão incríveis como aquelas, mas mesmo assim manter a segurança da equipe toda, o que só foi possível com muito treinamento", diz ele.

Uma homenagem um tanto quanto nostálgica e, ao mesmo tempo, inédita

 

Tom Cruise em meio à frota de F-18s (FUJINON Lenses/ Reprodução/YouTube)

Por fim, LaRosa acrescenta que "Top Gun: Maverick" foi um grande presente aos fãs do filme de 1986, porque não apenas traz um enredo fantástico como também entrega toda a energia das filmagens reais ao público com um "gostinho de nostalgia".

"Joe [Joseph Kosinski, diretor] descobriu lindamente como contar essa nova grande história e também deixou os fãs de carteirinha de "Top Gun" perceberem que ainda está conectado ao nosso filme favorito de 1986. Você sabe, tem todas essas pequenas cenas em "Top Gun" que nós amamos. E no novo "Top Gun: Maverick", tem outras que você diz 'Oh, isso é do primeiro filme', 'oh isso é uma homenagem', relata Kevin.

Para ele, o filme foi a receita perfeita para retratar a aviação e todo o sentimento envolvido.

"Contar uma história no ar é meio difícil, é complexo fazer o público entender onde esses aviões estão no espaço, porque estão se movendo muito rápido. É difícil saber quais atores estão em qual avião e quem está fazendo o quê. Com o jogo de câmeras, a direção, todos os atores e todo o processo, bem, quando você mistura todas essas técnicas você absolutamente tem a receita perfeita para contar uma história de aviação", finaliza o ator.

"Top Gun: Maverick" foi aos cinemas no dia 26 de maio de 2022. O filme teve orçamento de US$ 170 milhões e teve uma produção que durou mais de três anos. Consagrado como a 12ª maior bilheteria mundial, o longa-metragem será distribuído pelo streaming Paramount+ a partir do dia 22 de dezembro.

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