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Existe uma problemática em filmes baseados em eventos históricos que sempre me vem à mente quando assisto algo novo, mas inspirado no que, um dia, foi real: a associação da ficção com a realidade. É algo inevitável, as pessoas associam a imagem do cinema com o que está registrado nos livros de História — e é natural que o façam, porque por trás de todo filme assim há essa representação da realidade.

Mas aí também mora o perigo de trazer à vida algo que não necessariamente aconteceu de verdade, ou mostrar ao público uma visão até mesmo caricata de uma figura histórica importante. É nesse perigo que nasceu "Napoleão", a nova aposta de Ridley Scott, de 85 anos, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 23 de novembro.

O filme, que conta com Joaquin Phoenix (Coringa) no papel principal, explora a vida do complexo imperador da França no final século 18, um período de grandes mudanças na Europa, logo após a Revolução Francesa, iniciada em 1789. Há um enfoque especial nas cartas que Napoleão enviava a sua primeira esposa, Josefina de Beauharnais (Vanessa Kirby), durante suas expedições para conquista de novos territórios.

A produção foi feita originalmente para a Apple TV, mas é distribuída no cinema pela Sony Pictures. Tem 2h40 de grandes atuações, excelente fotografia e uma imensa liberdade poética de Scott para a construção de uma personalidade histórica — que se torna, certas vezes, distorcida com base na verdadeira história do imperador.

Mas será que vale a pena ver no cinema? Pela EXAME Pop, assisti ao filme com antecedência e trago para vocês minha análise crítica sobre "Napoleão". Confira:

Joaquin Phoenix brilha e Vanessa Kirby cintila na mesma medida

Um dos pontos fortes de "Napoleão" está em seu elenco. As duas maiores estrelas, Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby, criam um casal com uma química evidente desde as primeiras cenas, que se desenrola em fases difíceis de um relacionamento guiado pela ascensão e decadência do imperador.

Como já era esperado, Phoenix transpassa muito bem toda a estratégia de guerra e a complexidade da época da França da Revolução Francesa ao final do século 18. Muito por sua atuação, com recorte de câmera focado em suas expressões faciais, ele transforma a história rápida — e penso, desnecessariamente apressada — em um ponto de interesse.

Mas ainda que haja brilho nos olhos de Napoleão, há toda uma galáxia hipnotizante em seu par romântico, Vanessa Kirby, no papel de Josefina de Beauharnais. A incerteza dos objetivos da personagem, misturada à conexão de um casal problemático, eleva Kirby a talvez um de seus melhores papéis no cinema.

Juntos, os dois criaram as cenas mais relevantes dos filmes, em especial as apoiadas nas cartas que um enviava ao outro, enquanto estavam distantes.

Ritmo e objetivo desconectados

O sufoco do longa, entretanto, é que nem mesmo a atuação de Phoenix e Kirby são capazes de solucionar os problemas de ritmo em Napoleão. São poucos os filmes longos que conseguem prender o público na cadeira, e acertam aqueles diretores e roteiristas que mantém o fio de interesse dos espectadores ativo a todo o momento. Conexões entre começo e fim, alinhados em um ritmo constante de descoberta e tensão, como em "Oppenheimer", por exemplo, são estratégias que funcionam.

"Napoleão", entretanto, parece se perder em uma correnteza incerta momentos cativantes e tediosos. O ritmo da produção de Ridley Scott foi um ponto que me fez questionar quais são os maiores focos de engajamento do público ao longo das quase três horas de filme — porque, sem dúvidas, não é algo linear —, se as pessoas sentirão cansaço em certos momentos.

É fato que as cenas de tensão, de guerra e de romance prendem os olhos na tela; nesses momentos, o longa se desenrola bem. Em outros, no entanto, permanece um sentimento estranho e confuso que questiona se há necessidade daquilo. Há cenas que não se entende muito bem porque estão ali, e nem como se conectam à toda a narrativa.

Essa inconstância de ritmo, que nem sempre trabalha a favor do engajamento do público, se conecta também com todo o objetivo do filme. A disposição dos acontecimentos, embora sejam muito pautados em datas e territórios, não parecem costurar uma história que permite muita conexão entre o espectador e Napoleão, ainda que haja muito esforço por parte de Phoenix neste papel.

Fotografia e o que Ridley Scott faz de melhor: causar sensações intensas

Essa instabilidade de ritmo e de objetivo, no entanto, é recompensada com uma brilhante fotografia. Se há algo de belo nas batalhas e seus tiros de canhão, essa beleza está muito bem retratada nos recortes de ação do filme. Ajuda, claro, o uso equilibrado do CGI: é fácil notar que o uso da ferramenta complementa a cena, ao invés de construí-la, o que permite uma maior imersão no longa.

Falando em imersão, está ai algo que Scott sempre faz bem em seus filmes — e em Napoleão não foi diferente —, que é causar sensações intensas. Cenas desconfortáveis, violentas ou não, cumprem bem o propósito de causar fortes sensações no público. Isso se aplica logo na primeira cena, assim como na última.

A fotografia em si chama a atenção a todos os momentos, mas tem seu ápice nas batalhas. As cores dos campos, da pólvora e dos uniformes de soldados, assim como as vestimentas do próprio Napoleão, criam uma composição interessante na tela.

Geopolítica dispensada do papel, substituída por problemas históricos

Contudo, o que "Napoleão" tem de cenas bonitas, ele peca em cenas mais voltadas à geopolítica da história do imperador. O contexto histórico por trás de cada conquista, os verdadeiros objetivos do personagem de Phoenix — aqueles que aprendemos na escola, nas aulas de História — ficam esquecidos na trama.

O mesmo ocorre com os aspectos "ruins" do personagem, como sua ambição pela conquista de mais e mais territórios, escondidos por trás de uma caricatura de Napoleão criada por Scott que tenta provar durante todo o filme que é somente motivada pelo amor à nação. Sua tirania, em todo esse processo, fica alocada em um lugar quase invisível do filme.

Essa é uma problemática que me chamou mais a atenção. É inegável que Napoleão tenha sido um bom estrategista de guerra, de fato, ele mudou a história da França. Mas também foi um dos maiores e mais cruéis tiranos da Europa, e essa realidade, bem documentada, não teve espaço na produção de Scott.

Geopolítica e objetivos subentendidos a parte, surpreendem também os erros históricos do filme. Cenas como as de Napoleão durante a execução em guilhotina de Maria Antonieta são algumas delas, mas a da conquista do Egito, que foge totalmente ao que foi documentado nos livros de História, impressiona mais.

Mas e aí, vale a pena ver no cinema?

Contando atuação do elenco, sobretudo de Phoenix e Kirby, e a fotografia, penso que "Napoleão" vale o preço do ingresso. Vale dizer, no entanto, que a coesão de seu roteiro e direção deixa um pouco a desejar. A instabilidade de ritmo também pode incomodar aqueles que já reclamam de filmes longos no cinema.

Quando estreia Napoleão, de Ridley Scott?

No Brasil, o filme será lançado nesta quinta-feira, 23, nos cinemas brasileiros.

Quem está no elenco de Napoleão?

O elenco de Napoleão é composto por Joaquin Phoenix, Vanessa Kirby, Tahar Rahim, Mark Bonnar, Rupert Everett e Youssef Kerkour, entre outros.

A direção é de Ridley Scott.

Créditos

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