Por dentro do maior campus de startups do mundo

A Station F, em Paris, na França, foi criada para reunir em um mesmo lugar startups, investidores e empresas

O maior campus para startups no mundo não fica nos Estados Unidos, mas sim na França. Construída em uma antiga estação de trem com mais de 51 mil metros quadrados, a Station F fica em um bairro pouco turístico na capital francesa, Paris. Casa de mil startups, mais de 30 programas de mentoria e aceleração e com parcerias com 40 fundos de investimentos, o campus foi criado como forma de reunir, em um mesmo grande espaço, startups, empresas e fundos de investimento. 

O local foi fundador pelo bilionário Xavier Niel, fundador do provedor de internet e telefonia Iliad, da marca Free. “Com um ambiente aberto, grande e visível, mostramos que algo está acontecendo com o empreendedorismo francês”, diz a diretora da Station F, Roxxane Varza.

Grandes empresas também ganharam um espaço na Station F. As empresas de tecnologia Google, Apple, AWS, o serviço de nuvem da Amazon e a fornecedora de internet OVHCloud têm escritórios de mentoria. Já empresas como Facebook, Microsoft, Adidas e o grupo de luxo LVMH coordenam alguns dos programas de aceleração do campus. Startups alojadas na estação têm ainda acesso a certos benefícios como descontos especiais em serviços da Uber, Airfrance, PayPal e da transportadora DHL.

Se um ambiente de trabalho aberto é a última moda nos escritórios modernos, a Station F leva essa tendência ao extremo. As salas de reunião, em contêineres, e mesas de trabalho ficam nas laterais, enquanto um grande vão corta toda a estação e garante a integração entre os ambientes. Obras de arte e grandes esculturas compartilham o ambiente com sofás e mesas de sinuca. 

Uma grande escadaria forma um anfiteatro no centro do saguão e comporta mais de 150 pessoas para eventos. Apenas no ano passado, mais de 100 eventos, oficinas e palestras foram realizados na estação.

Há ainda dois espaços de alimentação aberto ao público. O Felicitá, área com diversos restaurantes e bares e espaço para mil pessoas, e o Anticafé, lanchonete que também serve de espaço para reuniões. Os ambientes atraem amigos, famílias e pessoas interessadas em lotar as redes sociais com fotos do lugar, cheio de plantas, mesas confortáveis e cantos instagramáveis. 

Além do espaço de trabalho, a Station F também tem um alojamento que acomoda cerca de 600 pessoas. A ideia é hospedar empreendedores ou funcionários das startups da Station F temporariamente, já que encontrar uma moradia em Paris pode ser caro e burocrático.

Para a diretora, o fato da França ainda não ser conhecida por inovações disruptivas é uma vantagem. “O país tem diversas indústrias tradicionais, como moda, luxo, alimentação e automotiva, que ainda não foram transformadas pela transformação digital. Isso é uma grande oportunidade para as startups”.

Station F, campus de startups em Paris, França: obras de arte dividem espaço com locais de trabalho e ambientes de grandes empresas

Station F, campus de startups em Paris, França: obras de arte dividem espaço com locais de trabalho e ambientes de grandes empresas (Patrick Tourneboeuf/Divulgação)

Um olho nas estrelas, outro no planeta Terra

Uma das startups alojadas atualmente na Station F é a Interstellar, criada por Barbara Belvisi, a mais jovem fundadora de um fundo de venture capital na Europa, também entrou na lista Global Top 100 da Forbes em 2018. 

Sua carreira se desviou por outros caminhos antes de voltar à paixão de infância, o espaço. Formada em uma escola de negócios, trabalhou como gestora de investimentos e abriu seu próprio fundo de investimentos aos 27 anos, o Hardware Club.

Em 2018, decidiu abrir seu negócio: um sistema sustentável para a vida em outros planetas. O sistema funciona em equilíbrio entre o oxigênio e a água necessária para o consumo humano e o cultivo das espécies vegetais e a gestão dos resíduos gerados no processo. 

No mesmo ano, fez uma visita à SpaceX, fabricantes de foguetes e satélites espaciais do  empreendedor Elon Musk, também dono e presidente da fabricante de carros elétricos Tesla. Foi quando entendeu que sua ideia de negócio não só era viável como necessária. “Se vamos fazer as primeiras viagens para Marte em alguns anos, precisamos criar esse sistema e testá-lo na Terra agora”, diz Belvisi.

Por enquanto, Belvisi e sua equipe estão imersos em pesquisas sobre as variedades vegetais mais nutritivas. Segundo ela, as variedades hoje usadas pela agricultura de massa não contém todos os nutrientes necessários. Por isso, sua pesquisa envolve sementes antigas e espécies hoje esquecidas, como o caso de uma “cenoura branca dragão”.

No fim do ano, a empreendedora planeja abrir o primeiro protótipo de seu sistema no deserto de Mojave, na Califórnia, Estados Unidos. 

Com o aumento das mudanças climáticas, gasto de recursos naturais e geração de lixo, muitos se voltam para o espaço como uma alternativa para o futuro da espécie humana. Já a Interstellar é movida pela paixão pelo espaço, mais do que pela desesperança com o planeta Terra, diz a fundadora.

“Eu não sou parte do time Plano B. Acredito que faz todo sentido que a humanidade descubra e ocupe outros planetas, é o que fizemos desde sempre pelo nosso planeta”, diz. “Além disso, não acho que podemos fingir que, se não soubemos cuidar da Terra e prosperar por aqui, vamos dar certo em outro planeta.”

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Station F, campus de startups em Paris, França: áreas de refeição bonitas e abertas ao público externo

Station F, campus de startups em Paris, França: áreas de refeição bonitas e abertas ao público externo (Patrick Tourneboeuf/Divulgação)

Um novo diagnóstico para o Alzheimer

Outra startup alocada na Station F é a AgenT, que desenvolve um novo diagnóstico para Alzheimer. Nos próximos trinta anos, a população com a doença deve triplicar e, por enquanto, não há cura. Segundo os fundadores, é possível desacelerar o desenvolvimento da doença se o diagnóstico é feito com décadas de antecedência, mais ainda não há testes clínicos existentes – justamente o que a AgenT quer criar. A startup trabalha com amostras vindas de hospitais para validar seus conceitos. 

O trabalho é bastante científico e a equipe passa grande parte do tempo analisando dados laboratoriais. No entanto, para os fundadores, criar uma startup é um caminho muito mais ágil do que a via acadêmica. “Ter dinheiro de investidores, ao invés de bolsa acadêmica, é um incentivo para trabalhar rapidamente”, diz Baptiste Billoir, cofundador e CFO. “A criação de modelos e de negócios viáveis levaria uma década em um laboratório”, afirma Jérôme Braudeau, cofundador e CEO.

O modelo de negócios – criar exames médicos mais rápidos e baratos – lembra a história da Theranos, startup de exames de sangue que prometia milagres fundada por Elizabeth Holmes. A Theranos levantou 1 bilhão de dólar em investimentos e foi avaliada em 9 bilhões de dólares. Mas o aparelho não funcionava e amostras falsas foram denunciadas por ex-funcionários – e a empresa perdeu todo o seu valor.

“Ouvimos dúvidas e piadas dos investidores. Mas somos mais auditados e precisamos provar melhor nossas análises. A queda da Theranos tornou o mercado mais sério e mais aberto à boa ciência”, diz Billoir.

A comparação do empreendedorismo na França com o do Vale do Silício – lar da Tesla, da Theranos e de centenas de outras startups – é inevitável. Mas não é o objetivo de quem trabalha em Paris. 

“Não somos o Vale do Silício. O Vale é um ótimo lugar para empreender, mas não é um modelo que queremos replicar em Paris”, diz Varza, americana. A França está trabalhando para mostrar que pode se tornar um novo polo de inovação no mundo, com suas próprias características e atrativos.

A matéria completa sobre a Station F e o aumento do empreendedorismo na França está na edição 1204 da Revista Exame.

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