Muito além da folia, estes blocos de Carnaval viraram negócio sério

Empreendimentos que começaram pela vontade de movimentar as ruas de São Paulo viraram companhias com várias linhas de negócio

Quem frequenta blocos de Carnaval como Bangalafumenga, Bloquinho, Chucrute Zaidan e Sargento Pimenta pode até pensar que estes são movimentos um tanto improvisados. As danças e músicas do momento, junto da uma profusão de bebidas e cores, pode até passar a ideia de espontaneidade. Por trás da aparente despreocupação, porém, há meses de ensaios, dezenas de contratações e uma receita que pode representar vários múltiplos do valor investido na criação dos blocos.

Alguns organizadores já perceberam que sua experiência não precisa ficar restrita ao começo do ano. De negócios do Carnaval, seus empreendedores criaram companhias com várias linhas de negócio, de eventos corporativos a projetos sociais. É o caso, na cidade de São Paulo, de negócios como a Oficina da Alegria e movimentos como o TechFolia.

Do Carnaval a empresas e teatros

O Bangalafumenga é um bloco que existe no Rio de Janeiro desde 1998. Em uma viagem para passar o Carnaval na cidade em 2011, Alan Edelstein, César Pacci, Fernando Pegoretti e Flavia Doria viram como uma festa semelhante a essa faltava na cidade de São Paulo. Os ex-marqueteiros em multinacionais decidiram, então, levar o Bangalafumenga para lá como um negócio, aproveitando seus conhecimentos corporativos.

“Queríamos empreender com propósito e levar algo diferente para a cidade. Depois da primeira temporada de ensaios de percussão, vimos como as pessoas conheceram gente nova e tiveram novas experiëncias”, afirma Doria. Os primeiros ensaios tiveram 60 alunos e a mensalidade bancou o custo com equipamentos, espaço e instrutores.

Para o primeiro Carnaval do Bangalafumenga em São Paulo, os empreendedores conseguiram o patrocínio de marcas como Antarctica, de bebidas, e Trident, de alimentos. Com o sucesso, decidiram criar uma empresa que administraria diversas atividades com temática carnavalesca: a Oficina da Alegria. Hoje, o grupo administra os blocos Bangalafumenga, Sargento Pimenta, Fogo e Paixão, Os Capoeira e Bloquinho.

A Oficina da Alegria abriu um braço corporativo e realizou oficinas para empresas como Bradesco, Natura, Santander e Roche, ensinando em duas horas valores como trabalho em equipe por meio da percussão e pelo ritmo. Também realiza blocos personalizados para negócios como a Companhia Tradicional do Comércio, dona do bar Pirajá, e para o Shopping Eldorado.

Recentemente, a Oficina da Alegria passou a investir fora dos blocos, mas mantendo o propósito de levar a cultura do Carnaval para suas atividades. Há eventos durante o ano todo, indo de festas juninas e comemorações de futebol, mas mantendo as músicas e danças carnavalescas. O negócio realizou uma peça infantil, chamada Bento Batuca, e fez uma parceria com o grupo musical infantil Palavra Cantada para 2019.

Peça Vento Batuca, da Oficina da Alegria Peça Bento Batuca, da Oficina da Alegria

Peça Bento Batuca, da Oficina da Alegria (Oficina da Alegria/Divulgação)

A Oficina da Alegria não abre faturamento, mas afirma ter fechado todos os seus anos de operação com lucro. Seus blocos e oficinas representam metade do faturamento do negócio e atraíram 150 mil pessoas em 2018. A Oficina da Alegria espera um aumento de 25% para este ano, chegando a 200 mil frequentadores. Em abril, já se abrem inscrições para as oficinas voltadas a blocos do ano seguinte.

A equipe, que começou com quatro sócios, hoje possui dez funcionários fixos e 20 em contratação freelancer, para atividades como contabilidade e assessoria de imprensa. Nos meses de Carnaval, a geração de emprego vai para mais de 800 pessoas, em cargos como artistas, administração, produção de eventos, limpeza e segurança. Apenas a bateria do Bangalafumenga tem 240 pessoas.

Já o faturamento deve subir 40%, tanto pelo aumento de ticket médio nos próprios blocos quanto pelas outras frentes da Oficina da Alegria. O plano para este ano inclui a expansão para outras regiões, como o interior de São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e o próprio Rio de Janeiro.

Startups no Carnaval

Giliardi Rodriguez, ou Giba, é sócio-diretor da startup de tecnologia para relacionamento com os clientes Piattino. Olhando da sacada de seu escritório para a avenida Doutor Chucri Zaidan, local que reúne diversas empresas de tecnologia na cidade de São Paulo, imaginou que ali poderia ser um bom local para o ainda incipiente Carnaval paulistano, em 2016. Havia espaço e pouca concorrência de outros blocos.

Rodriguez começou a cooptar o pessoal de sua própria companhia para a elaboração de um plano de negócios, combinando o andamento do projeto por meio de aplicativos como o Trello, e contratou a startup WeDoLogos para criar a identidade visual do novo bloco, que se chamaria Chucrute Zaidan. Depois, o empreendedor conheceu baterias e pessoas que entendessem do negócio do Carnaval para começar os ensaios e a seleção das músicas correspondentes.

O primeiro bloco Chucrute Zaidan aconteceu em 2017. Em 2018, atraiu três mil pessoas, muitas das empresas de tecnologia que rodeiam a avenida, além de famílias e seus bichinhos de estimação. As músicas vêm principalmente do samba, com artistas como Adoniran Barbosa.

Bloco Chucrute Zaidan, em São Paulo Bloco Chucrute Zaidan, em São Paulo

Bloco Chucrute Zaidan, em São Paulo (TechFolia/Divulgação)

Com patrocínio da empresa de equipamentos Multilaser, o bloco teve tecnologias como um “Tinder” próprio, que conectava pessoas presentes para formar relacionamentos profissionais ou amorosos, e uma série de lixeiras para descartes de objetos eletrônicos, como baterias e pilhas.

O número de frequentadores animou Rodriguez a criar uma empresa por trás do Chucrute Zaidan, chamada TechFolia. O empreendimento se define como um movimento para conectar empresas de tecnologia para promover conscientização e engajamento sobre arte, música e tecnologia. Em 2018, a iniciativa faturou 150 mil reais. Rodriguez investiu 30 mil reais no projeto.

“O bloco tomou uma proporção boa e queremos sair um pouco mais do calendário oficial do Carnaval, virando uma plataforma de eventos nos moldes do SXSW [festival americano que une música e tecnologia]”, afirma Rodriguez. “Há empresas que fazem produtos muito bons, de esporte a saúde, e queremos que mais pessoas conheçam como tecnologias mudam suas vidas e as associem com entretenimento.”

Neste ano, o TechFolia melhorará seu “Tinder” para que ele se torne uma plataforma para acompanhar o Carnaval de rua em São Paulo e outras ações de entretenimento e sustentabilidade. O abadá poderá ser obtido por meio do descarte de objetos eletrônicos, reforçando o compromisso sustentável do bloco. A expectativa do Chucrute Zaidan é atrair dez mil frequentadores em 2019.

Hoje, o TechFolia é uma equipe de vinte pessoas e que chega a 50 durante os blocos. Para os próximos anos, Rodriguez pretende incorporar ao bloco tecnologias como acompanhamento por streaming, pagamentos por aproximação, exibição de posts em redes sociais por um painel, realidade aumentada e descontos em aplicativos de mobilidade urbana.

Para isso, o Techfolia precisará formar mais parcerias. “Fazemos um chamado para que as empresas tragam suas experiências ao Carnaval. Queremos mostrar que a tecnologia hoje não está apenas com gigantes, mas em pequenos negócios que podem aplicá-las até em maquiagem e roupas, por exemplo.”

De veteranos a estreantes, o Carnaval de São Paulo fica cada vez a cara da cidade – uma oportunidade de negócio.

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