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Sem minerais críticos, a transição energética não acontece

Debate em Davos expõe limites, riscos e oportunidades da mineração do futuro

O futuro da mineração: painel reuniu John Defterios, da CNN, Gustavo Pimenta, da Vale; Rohitesh “Ro” Dhawan, do ICMM; e Amy Peck, da EndeavorXR.

O futuro da mineração: painel reuniu John Defterios, da CNN, Gustavo Pimenta, da Vale; Rohitesh “Ro” Dhawan, do ICMM; e Amy Peck, da EndeavorXR.

Gabriella Sandoval
Gabriella Sandoval

Editora de projetos especiais

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 11h18.

Última atualização em 29 de janeiro de 2026 às 11h27.

*De Davos, na Suíça

A transição energética, a inteligência artificial e a digitalização da economia costumam ocupar o centro das discussões sobre o futuro. Menos visível, mas absolutamente essencial, está o setor que fornece a base material para que tudo isso exista: a mineração. Em Davos, essa relação direta ganhou protagonismo em um painel dedicado a discutir como a indústria pode se transformar para atender a uma demanda crescente sem perder legitimidade social.

Moderado pelo jornalista americano John Defterios, da CNN, o debate reuniu Gustavo Pimenta, CEO da Vale; Rohitesh “Ro” Dhawan, presidente e CEO do ICMM; e Amy Peck, fundadora e CEO da EndeavorXR. Ao longo da conversa, ficou claro que a questão já não é mais se a mineração será parte da transição energética, mas como ela vai responder a uma pressão inédita por escala, eficiência e responsabilidade.

A base invisível da transição energética

Por trás da expansão das energias renováveis e da corrida por inteligência artificial está uma demanda sem precedentes por minerais críticos e minério de ferro de alta qualidade. Segundo estudos citados no painel, a oferta desses insumos precisará crescer. O desafio, destacaram os participantes, é fazer essa expansão de forma sustentável.

“Existem vários estudos que indicam que precisaremos aumentar a oferta entre quatro e cinco vezes em relação a tudo o que conseguimos desenvolver até hoje”, disse Gustavo Pimenta, CEO da Vale. Para ele, não há espaço para ilusões: “A necessidade por minerais críticos é real — e não haverá inteligência artificial nem transição energética se não conseguirmos fornecê-los.”

Crescer sem repetir o passado

Diante desse cenário, o CEO da Vale explicou que a empresa vem estruturando sua estratégia em torno do conceito de “mineração do futuro”, baseado em três pilares. O primeiro deles é a digitalização completa das operações, com foco em segurança e eficiência.

“Precisamos pensar digitalmente nossas operações, retirar pessoas de ambientes de risco e tornar as operações mais seguras. Caminhões autônomos, por exemplo, são mais eficientes: usam menos combustível, não operam sob fadiga humana e funcionam de forma mais estável.”

O segundo pilar está ligado à circularidade e à redução do impacto ambiental. “É preciso usar menos terra e menos água. Pretendemos produzir cerca de 10% do nosso minério de ferro global a partir do reprocessamento de rejeitos.”

O terceiro pilar, segundo Pimenta, é o mais desafiador: reposicionar a mineração perante a sociedade. “Precisamos mostrar à sociedade que a mineração pode gerar um impacto ambiental e social líquido positivo – e demonstrar que não somos apenas essenciais, mas que nossa atividade pode tornar o mundo melhor do ponto de vista ambiental e social.”

Provocado sobre como medir esse impacto de forma concreta, o executivo reconheceu erros históricos. “Precisamos de métricas claras de segurança, estabilidade operacional e progresso das comunidades ao redor das nossas operações. Sim, cometemos erros no passado — a Vale inclusive — e precisamos aprender com eles. Mas acredito fortemente que a indústria pode evoluir para gerar impacto positivo líquido no futuro.”

Gustavo Pimenta, CEO da Vale: “Mineração do futuro precisa ser mais segura, digital, circular e conectada com a sociedade. Se fizermos isso direito, ela não será vista como parte do problema, mas como parte essencial da solução.”

Tecnologia como alavanca — e não como ameaça

Do ponto de vista global, Rohitesh Dhawan trouxe exemplos que ajudam a traduzir esse discurso em números e território. “Para cada hectare de terra que a Vale impacta com mineração, ela conserva ou protege 11 hectares. Isso é impacto líquido positivo.” O executivo descreveu o contraste visível na Amazônia. “Quando você sobrevoa a Amazônia, vê um mar de desmatamento. De repente, surge uma ilha de floresta primária preservada porque a Vale está ali. São 800 mil hectares — cinco vezes o tamanho de Londres.”

Segundo Dhawan, os efeitos vão além da preservação ambiental. “Há 25 milhões de pessoas vivendo na Amazônia. As pessoas, os animais, o sequestro de carbono, a qualidade do ar que essa floresta oferece não existiriam se a Vale não estivesse lá.” Ele também citou exemplos de como tecnologia e trabalho humano podem caminhar juntos, como na mina Los Bronces, no Chile.

“Muitas operações não são feitas no local da mina, mas em um centro remoto integrado, no 44º andar de um prédio em Santiago.” E completou: “Parecia mais um pit stop de Fórmula 1 do que uma mina. Isso mantém as pessoas seguras, amplia a participação feminina na mineração e, quando algumas funções se tornaram redundantes, ninguém foi demitido. Todos foram requalificados.”

O fator humano no centro da equação

A contribuição de Amy Peck trouxe profundidade à discussão tecnológica, com foco nos chamados digital twins. “Digital twin é exatamente o que parece: uma réplica digital de um ativo físico ou espaço. Ele permite integrar dados em camadas, visualizar operações, rodar simulações e entender causa e efeito — tanto para humanos quanto para máquinas.” Apesar do alto investimento inicial, ela defendeu uma implementação progressiva. “Pode começar simples e evoluir para sistemas bidirecionais, com otimização em circuito fechado e automação avançada, sempre com humanos no loop.”

O tema da força de trabalho apareceu como um dos mais sensíveis do painel. Para Gustavo Pimenta, automação e inteligência artificial não devem ser vistas como sinônimo de perda de empregos. “A transformação digital não pode ser vista apenas como substituição de pessoas por máquinas. Pelo contrário: ela muda o perfil das funções e exige um investimento enorme em capacitação.”

Segundo ele, a Vale vem retirando pessoas de ambientes de risco e criando oportunidades ligadas a dados, operação remota e manutenção avançada. “A mineração do futuro só faz sentido se for também uma mineração que gere oportunidades reais para as pessoas.”

Rohitesh Dhawan reforçou que o desafio está em escalar essas práticas globalmente. “Não estamos falando apenas de engenheiros de software ou cientistas de dados. Estamos falando de operadores, técnicos, pessoas que trabalham há décadas no setor.”

Para Amy Peck, tornar a tecnologia acessível é parte da solução. “Quando um operador consegue ‘ver’ o sistema, entender o que está acontecendo e testar cenários em um ambiente virtual antes de agir no mundo real, a confiança aumenta. Isso reduz erros, melhora a segurança e acelera o aprendizado.”

Geopolítica, cadeias globais e a corrida contra o tempo

A discussão avançou para a geopolítica da mineração e das cadeias globais de suprimento, especialmente a concentração do processamento de minerais críticos. “A concentração excessiva de etapas críticas da cadeia em poucos países cria riscos — econômicos, geopolíticos e até ambientais.”, afirmou Pimenta. Ao mesmo tempo, ele vê oportunidades para países com base mineral e matriz energética mais limpa, como o Brasil.

Amy Peck destacou o papel da tecnologia na transparência dessas cadeias. “Tecnologias como digital twins, blockchain e sistemas avançados de dados permitem rastrear materiais desde a origem até o produto final. Isso não é apenas uma questão de eficiência, mas de confiança.”

No encerramento, o tom foi de urgência. A demanda por minerais críticos já está contratada, e o tempo para agir é curto. “A mineração do futuro precisa ser mais segura, mais digital, mais circular e mais conectada com a sociedade”, afirmou Pimenta. “Se fizermos isso direito, a mineração não será vista como parte do problema, mas como parte essencial da solução.”

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