José Carlos Doherty, Amy Barnes, Jens Nielsen e Carlos Takahashi: na Brazil House, eles discutiram os entraves ao avanço das finanças sustentáveis (Brazil House/Divulgação)
Editora de projetos especiais
Publicado em 30 de janeiro de 2026 às 19h05.
* De Davos, na Suíça
O dinheiro está lá. As tecnologias também. O que não está claro é o caminho entre um compromisso climático bem-intencionado e um projeto capaz de receber bilhões em investimento.
Essa foi a conclusão incômoda de um painel que reuniu gestores de ativos, seguradoras, associações do mercado financeiro e líderes do setor climático para discutir o futuro das finanças sustentáveis.
Ao longo do debate, ficou evidente que o problema não é falta de discurso nem de apetite do mercado. O entrave está na execução: projetos pequenos demais, riscos difíceis de segurar, padrões pouco claros e um ambiente geopolítico que afasta o investidor institucional — especialmente nos países emergentes.
Logo no início, Jens Nielsen, fundador e CEO do World Climate Foundation, colocou um freio no entusiasmo automático com coalizões climáticas. “Não tenho certeza se todas as coalizões e organismos setoriais estão fazendo as coisas da maneira correta”, disse. Para ele, a existência de uma aliança não garante impacto.
Segundo Nielsen, o primeiro problema é conceitual. Sustentabilidade ainda significa coisas diferentes para atores diferentes. “O que é sustentabilidade? Quais são as metas? Para onde estamos mirando? Sem isso, não há como organizar a ação coletiva.”
O segundo entrave é a falta de compromisso real. “Não adianta definir padrões se alguém pode simplesmente optar por sair quando fica desconfortável.”
Na visão do executivo, coalizões só funcionam quando conseguem gerar mudança concreta — e isso depende de articulação entre setores, países e modelos financeiros. “Já existem soluções, já existe financiamento e há governos dispostos a agir. O problema é que eles não trabalham juntos.”
Nielsen usou a história da energia eólica como exemplo de oportunidade perdida. “A Dinamarca inventou os aerogeradores modernos nos anos 1970. Levamos 40 anos para torná-los realmente lucrativos.”
Segundo ele, a escala global poderia ter vindo muito antes.“Se tivéssemos trabalhado além das fronteiras, isso teria acontecido mais rápido”. A lógica, segundo ele, vale hoje para clima e biodiversidade: soluções existem, mas não chegam ao mercado na velocidade exigida pela crise climática.
Amy Barnes, head de Energia e Potência e Estratégia de Clima e Sustentabilidade da Marsh, trouxe uma visão menos maniqueísta sobre o papel da regulação. “Eu não acho que a regulação seja sempre algo ruim”, afirmou.
Ela citou o caso da Copenhagen Atomics, empresa dinamarquesa que desenvolve pequenos reatores nucleares modulares. “Eles têm o tamanho de um contêiner e podem fornecer energia barata, acessível e de baixo carbono a regiões remotas”. O paradoxo é regulatório. “A Dinamarca não tem energia nuclear. A empresa não pode testar a tecnologia no próprio país.”
Para Barnes, o problema não é regular, mas errar o timing. “Quando a regulação vem antes de o modelo de negócio estar claro, ela pode confundir processos e sufocar a inovação.”
No Brasil, a experiência foi diferente. José Carlos Doherty, diretor-executivo da Anbima, afirmou que a autorregulação ajudou a preparar o terreno para regras mais robustas. “No nosso caso, as coalizões aceleraram a curva de aprendizado.”
Ele citou o mercado de fundos sustentáveis. “Muitos gestores usavam o nome ‘fundo verde’, mas não sabíamos se eram realmente ESG.”
A solução veio antes do regulador. “Criamos um sistema de autorregulação, testamos o mercado e, quase um ano depois, veio a regulação formal.”
Segundo Doherty, o processo ajudou a organizar o setor. “Deu tempo para o mercado absorver boas práticas antes da regra obrigatória.”
Uma das perguntas mais diretas veio da plateia: como financiar projetos comunitários de restauração, como manguezais e florestas, se eles não são vistos como ativos? Amy Barnes respondeu sem rodeios. “Não é possível financiar algo que não pode ser segurado. E não é possível segurar algo que não pode ser medido.”
Ela citou um projeto nas Filipinas como exemplo de sucesso. “A restauração de manguezais reduziu em 65% os danos causados por tempestades de média intensidade”. Esse impacto virou preço. “Houve uma redução de 12% nos prêmios de seguro para os ativos protegidos por esses manguezais.”
Quando o debate avançou para a América Latina, o risco geopolítico apareceu como o maior fator de afastamento do capital institucional. “O seguro funciona bem quando algo é um risco, não uma certeza”, explicou Barnes, ao comentar a dificuldade de cobertura em determinados territórios.
Ela lembrou que riscos como expropriação, inadimplência e controle cambial costumam ser seguráveis — mas não em todos os países. Parcerias com bancos multilaterais e de desenvolvimento podem ajudar, mas não resolvem tudo, disse ele.
No encerramento, Carlos Takahashi, chairman da BlackRock Brasil, trouxe uma visão pragmática sobre blended finance, a combinação de capital público e privado. “Os modelos atuais ainda não são eficientes.”
Ele citou o Eco Invest, iniciativa do Tesouro Nacional. “É um exemplo interessante de como o setor público pode iniciar projetos em agricultura, recuperação de áreas degradadas e ecoturismo.”
Para Takahashi, o papel do Estado deveria ser mais focalizado. “O capital público precisa reduzir risco geográfico e político. Se isso for feito, o privado entra.”
No fim, o painel deixou um diagnóstico desconfortável: o dinheiro climático não foge por falta de vontade. Ele foge porque, em muitos casos, o risco é grande, o projeto pequeno, e o caminho até o retorno longo demais para o mercado financeiro atual.