A sexta-feira 13 é mundialmente conhecida como um dia de má-sorte. E a superstição parece ter chegado também aos mercados.
Em meio à guerra no Irã e ao risco de uma das maiores interrupções de oferta da história do petróleo, o Brent voltou a ultrapassar a marca de US$ 100 por barril — consolidando um rali de até 35% em 2026, segundo dados compilados pela EXAME.
No início do ano, o barril era negociado entre US$ 68 e US$ 70. Em poucas semanas, a escalada geopolítica mudou completamente o cenário.
Nesta sexta-feira, 13, o Brent chegou a cerca de US$ 102, enquanto o WTI, referência americana, operava perto de US$ 96,9.
O movimento coloca o petróleo novamente nos níveis mais altos desde a crise energética de 2022 — e recoloca no radar de investidores e governos um velho fantasma: o impacto da energia cara sobre inflação e crescimento econômico.
O rali do petróleo em 2026
A trajetória de alta ganhou velocidade nas últimas semanas. Apenas em um pregão recente, o Brent chegou a saltar cerca de 9%.
Oscilações diárias entre 8% e 10% tornaram-se frequentes no mercado de energia.
Na segunda-feira, 9, o barril já havia atingido cerca de US$ 88 a US$ 89. Dias depois, o preço rompeu novamente o patamar psicológico dos US$ 100.
Segundo o Goldman Sachs, o Brent deve registrar média superior a US$ 100 em março, refletindo a volatilidade causada pela guerra no Oriente Médio e pelos danos à infraestrutura energética da região.
Na segunda, os preços chegaram a tocar US$ 119,50 por barril — o maior nível desde meados de 2022.
Apesar da escalada recente, o banco projeta uma eventual normalização ao longo do ano, com o Brent recuando para a faixa de US$ 70 caso as interrupções no fluxo global de petróleo se estabilizem.
O cenário muda completamente, porém, se o bloqueio do Estreito de Hormuz persistir.
Nesse caso, o banco estima que o preço médio do Brent no quarto trimestre poderia saltar de US$ 71 para cerca de US$ 93 por barril.
| Mês | Brent Médio (USD/barril) | WTI Médio (USD/barril) | Alta Brent YTD (%) | Alta WTI YTD (%) |
|---|---|---|---|---|
| Jan 2026 | 64.59 | 60.04 | 0.0 | 0.0 |
| Fev 2026 | 64.51 | 64.51 | -0.1 | 7.4 |
| Mar 2026 (até 13) | 100.32 | 96.70 | 55.3 | 61.1 |
O gargalo do Estreito de Hormuz
O centro da crise está no Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.
Por ele passa cerca de um quinto de toda a produção mundial de petróleo e gás. Com o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, a região tornou-se um dos pontos mais sensíveis da geopolítica energética global.
Declarações atribuídas ao novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, reforçaram o temor no mercado. Segundo mensagens transmitidas pela televisão estatal do país, o fechamento do estreito continuará sendo usado como “instrumento de pressão”.
O bloqueio da rota e os ataques a navios elevaram o risco para o transporte de energia. Estimativas indicam que cerca de 15 milhões de barris de petróleo por dia e outros 5 milhões de barris de derivados deixaram de circular normalmente no mercado global.
Para a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o conflito pode provocar “a maior interrupção de oferta da história do mercado global de petróleo”.
Cortes de produção ampliam a crise
Além do bloqueio logístico, a produção também começa a cair.
Segundo a IEA, países do Golfo que dependem do estreito para exportação — como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Qatar — reduziram produção diante das dificuldades de exportação.
Até a terça-feira, 10, os cortes somavam pelo menos 10 milhões de barris por dia entre petróleo e derivados.
O cenário pode piorar se o fluxo marítimo não for restabelecido rapidamente.
Muitos produtores da região têm poucas alternativas logísticas para escoar petróleo, enquanto instalações de armazenamento começam a se aproximar da capacidade máxima.
Nem reservas estratégicas seguram os preços
Na tentativa de estabilizar o mercado, 32 das maiores economias do mundo anunciaram a liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas de petróleo.
É o maior movimento coordenado desse tipo já realizado.
Mesmo assim, o impacto pode ser limitado.
Com o fluxo de petróleo interrompido no Golfo, analistas estimam que esse volume poderia ser absorvido pelo mercado em cerca de 26 dias.
Os Estados Unidos também adotaram medidas emergenciais. O governo autorizou temporariamente a compra de petróleo russo que já estava em navios antes de 12 de março, em uma licença válida até 11 de abril.
A autorização tem caráter restrito e busca aliviar a escassez no curto prazo sem gerar benefício financeiro relevante para o governo russo.
O impacto vai além do petróleo
A disparada do petróleo já começa a gerar efeitos na economia global.
Segundo a consultoria Capital Economics, preços sustentados entre US$ 90 e US$ 100 por barril aumentam o risco de inflação e podem desacelerar o crescimento das principais economias.
No Brasil, economistas também acompanham o movimento com atenção. Projeções do Itaú apontam inflação de cerca de 3,8% em 2026, com balanço de riscos altista justamente por causa do choque nos preços do petróleo.
Nos mercados financeiros, a tensão geopolítica já pesa sobre os ativos. Bolsas na Ásia, Europa e Estados Unidos têm reagido diretamente às notícias sobre o conflito e ao risco de novas interrupções no fornecimento de energia.
Pressão política e efeitos no setor
A alta do petróleo também reacende debates sobre tributação no setor.
No Brasil, uma medida provisória recente instituiu uma taxação de 12% sobre exportações de petróleo cru.
Segundo analistas da Genial Investimentos, a medida tem impacto direto na receita das empresas e pode afetar especialmente companhias com maior exposição às exportações.
O problema, segundo o relatório, vai além do efeito imediato sobre o caixa.
A repetição de impostos extraordinários quando o preço do petróleo sobe cria um precedente que pode afetar a percepção de risco do setor.
Projetos de exploração e produção de petróleo costumam levar até 10 anos entre a descoberta e a primeira extração, exigindo investimentos bilionários em plataformas, embarcações e infraestrutura.
Mudanças frequentes na tributação podem reduzir o apetite de investidores por novos projetos no país.
Um mercado refém da geopolítica
Para investidores, o petróleo em 2026 voltou a ser dominado por aquilo que mais assusta os mercados de energia: a geopolítica.
Analistas avaliam que o mercado já começa a precificar um conflito mais longo no Oriente Médio, o que mantém a volatilidade elevada.
Enquanto o Estreito de Hormuz continuar no centro da disputa e a oferta global permanecer pressionada, o mercado de petróleo deve seguir vivendo semanas — ou meses — de turbulência.
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