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A sexta-feira 13 do petróleo: rali de 35% em 2026 assusta mercados

Guerra no Irã, bloqueio do Estreito de Hormuz e cortes de produção levam o Brent ao maior patamar desde 2022 e reacendem temores de inflação global

Petróleo: commodity subiu 35% no ano (Boris Zhitkov/Getty Images)

Petróleo: commodity subiu 35% no ano (Boris Zhitkov/Getty Images)

Publicado em 13 de março de 2026 às 06h01.

A sexta-feira 13 é mundialmente conhecida como um dia de má-sorte. E a superstição parece ter chegado também aos mercados.

Em meio à guerra no Irã e ao risco de uma das maiores interrupções de oferta da história do petróleo, o Brent voltou a ultrapassar a marca de US$ 100 por barril consolidando um rali de até 35% em 2026, segundo dados compilados pela EXAME.

No início do ano, o barril era negociado entre US$ 68 e US$ 70. Em poucas semanas, a escalada geopolítica mudou completamente o cenário.

Nesta sexta-feira, 13, o Brent chegou a cerca de US$ 102, enquanto o WTI, referência americana, operava perto de US$ 96,9.

O movimento coloca o petróleo novamente nos níveis mais altos desde a crise energética de 2022e recoloca no radar de investidores e governos um velho fantasma: o impacto da energia cara sobre inflação e crescimento econômico.

O rali do petróleo em 2026

A trajetória de alta ganhou velocidade nas últimas semanas. Apenas em um pregão recente, o Brent chegou a saltar cerca de 9%.

Oscilações diárias entre 8% e 10% tornaram-se frequentes no mercado de energia.

Na segunda-feira, 9, o barril havia atingido cerca de US$ 88 a US$ 89. Dias depois, o preço rompeu novamente o patamar psicológico dos US$ 100.

Segundo o Goldman Sachs, o Brent deve registrar média superior a US$ 100 em março, refletindo a volatilidade causada pela guerra no Oriente Médio e pelos danos à infraestrutura energética da região.

Na segunda, os preços chegaram a tocar US$ 119,50 por barril — o maior nível desde meados de 2022.

Apesar da escalada recente, o banco projeta uma eventual normalização ao longo do ano, com o Brent recuando para a faixa de US$ 70 caso as interrupções no fluxo global de petróleo se estabilizem.

O cenário muda completamente, porém, se o bloqueio do Estreito de Hormuz persistir.

Nesse caso, o banco estima que o preço médio do Brent no quarto trimestre poderia saltar de US$ 71 para cerca de US$ 93 por barril.

MêsBrent Médio (USD/barril)WTI Médio (USD/barril)Alta Brent YTD (%)Alta WTI YTD (%)
Jan 202664.5960.040.00.0
Fev 202664.5164.51-0.17.4
Mar 2026 (até 13)100.3296.7055.361.1

O gargalo do Estreito de Hormuz

O centro da crise está no Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta.

Por ele passa cerca de um quinto de toda a produção mundial de petróleo e gás. Com o conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, a região tornou-se um dos pontos mais sensíveis da geopolítica energética global.

Declarações atribuídas ao novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, reforçaram o temor no mercado. Segundo mensagens transmitidas pela televisão estatal do país, o fechamento do estreito continuará sendo usado como “instrumento de pressão”.

O bloqueio da rota e os ataques a navios elevaram o risco para o transporte de energia. Estimativas indicam que cerca de 15 milhões de barris de petróleo por dia e outros 5 milhões de barris de derivados deixaram de circular normalmente no mercado global.

Para a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), o conflito pode provocar “a maior interrupção de oferta da história do mercado global de petróleo”.

Cortes de produção ampliam a crise

Além do bloqueio logístico, a produção também começa a cair.

Segundo a IEA, países do Golfo que dependem do estreito para exportação — como Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Qatarreduziram produção diante das dificuldades de exportação.

Até a terça-feira, 10, os cortes somavam pelo menos 10 milhões de barris por dia entre petróleo e derivados.

O cenário pode piorar se o fluxo marítimo não for restabelecido rapidamente.

Muitos produtores da região têm poucas alternativas logísticas para escoar petróleo, enquanto instalações de armazenamento começam a se aproximar da capacidade máxima.

Nem reservas estratégicas seguram os preços

Na tentativa de estabilizar o mercado, 32 das maiores economias do mundo anunciaram a liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas de petróleo.

É o maior movimento coordenado desse tipo realizado.

Mesmo assim, o impacto pode ser limitado.

Com o fluxo de petróleo interrompido no Golfo, analistas estimam que esse volume poderia ser absorvido pelo mercado em cerca de 26 dias.

Os Estados Unidos também adotaram medidas emergenciais. O governo autorizou temporariamente a compra de petróleo russo que estava em navios antes de 12 de março, em uma licença válida até 11 de abril.

A autorização tem caráter restrito e busca aliviar a escassez no curto prazo sem gerar benefício financeiro relevante para o governo russo.

O impacto vai além do petróleo

A disparada do petróleo começa a gerar efeitos na economia global.

Segundo a consultoria Capital Economics, preços sustentados entre US$ 90 e US$ 100 por barril aumentam o risco de inflação e podem desacelerar o crescimento das principais economias.

No Brasil, economistas também acompanham o movimento com atenção. Projeções do Itaú apontam inflação de cerca de 3,8% em 2026, com balanço de riscos altista justamente por causa do choque nos preços do petróleo.

Nos mercados financeiros, a tensão geopolítica pesa sobre os ativos. Bolsas na Ásia, Europa e Estados Unidos têm reagido diretamente às notícias sobre o conflito e ao risco de novas interrupções no fornecimento de energia.

Pressão política e efeitos no setor

A alta do petróleo também reacende debates sobre tributação no setor.

No Brasil, uma medida provisória recente instituiu uma taxação de 12% sobre exportações de petróleo cru.

Segundo analistas da Genial Investimentos, a medida tem impacto direto na receita das empresas e pode afetar especialmente companhias com maior exposição às exportações.

O problema, segundo o relatório, vai além do efeito imediato sobre o caixa.

A repetição de impostos extraordinários quando o preço do petróleo sobe cria um precedente que pode afetar a percepção de risco do setor.

Projetos de exploração e produção de petróleo costumam levar até 10 anos entre a descoberta e a primeira extração, exigindo investimentos bilionários em plataformas, embarcações e infraestrutura.

Mudanças frequentes na tributação podem reduzir o apetite de investidores por novos projetos no país.

Um mercado refém da geopolítica

Para investidores, o petróleo em 2026 voltou a ser dominado por aquilo que mais assusta os mercados de energia: a geopolítica.

Analistas avaliam que o mercado começa a precificar um conflito mais longo no Oriente Médio, o que mantém a volatilidade elevada.

Enquanto o Estreito de Hormuz continuar no centro da disputa e a oferta global permanecer pressionada, o mercado de petróleo deve seguir vivendo semanas — ou mesesde turbulência.

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