Publicado em 25 de março de 2026 às 20h05.
Última atualização em 27 de março de 2026 às 20h08.
O avanço da inteligência artificial reacendeu um temor antigo no mercado de trabalho: a substituição em massa de pessoas por máquinas.
Na Dell, uma das maiores fornecedoras globais de infraestrutura de tecnologia, a leitura é outra. Para Diego Puerta, presidente da companhia no Brasil, a IA muda funções — mas não elimina a necessidade de trabalho humano.
“Os empregos não vão acabar com a IA”, afirmou Puerta durante conversa no estúdio da EXAME no South Summit Brazil, um dos maiores eventos de inovação do Brasil. “A tecnologia amplia nossa capacidade. Quem decide, quem comanda, somos nós. A IA participa, colabora, sugere.”
A discussão ganha força agora com a aceleração dos investimentos em IA e a pressão das empresas por produtividade. No South Summit Brasil, em Porto Alegre, o executivo detalhou como a Dell está posicionando seu negócio nesse novo ciclo — e por que aposta mais em transformação do que em substituição.
Para a empresa, o próximo passo está menos no hype e mais na aplicação prática — levar a inteligência artificial para onde os dados são gerados, do hospital ao porto, passando pela indústria.
A mudança na Dell começa pela base do negócio. A companhia, historicamente associada a computadores, hoje se posiciona como uma empresa de infraestrutura para IA. Esse segmento já representa mais de 60% da receita global, que supera 113 bilhões de dólares.
A tese é simples: IA depende de processamento e armazenamento — e isso não acontece só na nuvem.
“Existe uma percepção de que IA está na nuvem, mas ela precisa estar onde os dados estão — na rua, no hospital, no carro. É lá que os problemas acontecem”, diz.
Para isso, a empresa criou o chamado Dell AI Factory — uma arquitetura integrada que combina hardware, software e serviços para rodar IA em diferentes ambientes, com menor latência e mais controle de dados.
A estratégia ganha forma em casos práticos. Um deles está no Porto de Santos, maior da América Latina. A Brasil Terminal Portuário (BTP) usava monitoramento manual para coordenar variáveis como clima, trânsito e movimentação de cargas.
Com IA, o processo mudou. Hoje, algoritmos analisam dados em tempo real e sugerem cenários operacionais, acelerando decisões e reduzindo gargalos. “Você oferece muito mais capacidade para os operadores trabalharem. A IA amplia o potencial humano”, afirma.
Outro exemplo vem de um projeto social. Em parceria com a ONG Gerando Falcões, a Dell desenvolveu um simulador de entrevistas com IA para jovens em situação de vulnerabilidade. O sistema identifica pontos de melhoria e ajusta o treinamento em tempo real.
O impacto foi direto na empregabilidade: 75% dos participantes conseguiram trabalho em até seis meses, segundo a empresa.
Apesar do avanço técnico, Puerta aponta outro gargalo: adaptação humana. A resistência à IA, segundo ele, repete padrões de outras revoluções tecnológicas. “Toda mudança gera apreensão. Já vimos previsões catastróficas antes que não se concretizaram”, diz.
Ao mesmo tempo, ele destaca uma contradição recente: a escassez de profissionais qualificados em tecnologia ainda é alta, mesmo com o discurso de substituição. “Há pouco tempo falávamos da falta de mão de obra. Agora se fala em desemprego em massa. O mercado se ajusta.”
Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores. O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.
Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.
A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.
Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.
A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.
Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.
Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.
A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.
A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.
Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.