Na gen-t, genética é aposta de Mufarej e fundos por mais diversidade na indústria farmacêutica

Lançada oficialmente nesta segunda-feira, startup brasileira de estudos genômicos da cientista Lygia Pereira captou R$ 10 milhões para mudar pesquisas genéticas no país
Lygia Pereira, CEO da gent-t: biotech vai criar primeiro banco genético privado do país (Germano Lüders/Divulgação)
Lygia Pereira, CEO da gent-t: biotech vai criar primeiro banco genético privado do país (Germano Lüders/Divulgação)
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Maria Clara Dias

Publicado em 12/09/2022 às 10:00.

Última atualização em 12/09/2022 às 16:09.

Muitos investidores já avaliam os retornos potenciais de empresas com alguma ação ou produto novato dedicados à diversidade e impacto social. Pouco se fala, porém, dos ganhos reais da aplicação prática da visão em favor da diversidade em setores mais tradicionais, como a ciência. Na contramão dessa lógica está a gen-t, biotech que pretende mudar a maneira como a indústria farmacêutica olha para diferentes vieses sociais e culturais na hora de fabricar medicamentos.

A empresa, criada pela pesquisadora e geneticista brasileira Lygia Pereira, chega ao mercado nesta semana, e pretende alterar de vez o status quo adotado por fabricantes de medicamentos no Brasil ao criar o primeiro banco genético privado do país.

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Como surgiu a gen-t

A gen-t surge como uma spin-off do projeto DNA do Brasil, um programa de mapeamento do genoma da população criado pelo Ministério da Saúde e liderado por Lygia, que é também doutora em genética humana e professora na Universidade de São Paulo (USP).

A proposta do projeto — e agora também da gen-t — é mapear o código genético de milhares de brasileiros com o objetivo de encontrar similaridades e os melhores caminhos para identificação precoce de doenças crônicas e sequenciar códigos que podem dar à medicina de precisão novos vieses com base em informações reais de uma população tão miscigenada como a do Brasil.

Em linhas gerais, estudos acadêmicos e desenvolvimentos científicos hoje tomam como base, em sua maioria, genomas de ancestralidade europeia, o que reduz as chances de análises mais detalhadas de outras etnias.

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“Viajei por muitos países e tive encontros com muitos especialistas para entender que a percepção da comunidade científica era de que estávamos desenvolvendo tecnologias apenas para populações brancas”, diz Pereira, em entrevista à EXAME.

No Brasil, a demanda por diversidade nos bancos de dados e estudos sobre genoma humano começou ainda em 2017, explica Pereira. O passo seguinte foi levar a iniciativa que considera a importância da diversidade étnica e racial para além das competências públicas. “Entendi que era possível ampliar o leque dos estudos genômicos para além da iniciativa pública. Era, sem dúvida, uma oportunidade de empreender”, diz.

Como está sendo construída a plataforma

Neste primeiro momento, a gen-t funcionará como uma plataforma aberta dedicada a recrutar brasileiros que são usuários do sistemas de saúde populares do país.

Na plataforma, chamada de gen-t do Brasil, essas pessoas participarão de uma pesquisa e terão seus dados, hábitos e históricos clínicos de saúde coletados após a assinatura de um termo de consentimento. A meta é, em cinco anos, ter um sistema robusto com informações de cerca de 200.000 brasileiros.

Parceria com dr.consulta

As pesquisas da gen-t começam a partir da parceria com a rede de medicina popular dr.consulta, onde profissionais da biotech devem recrutar pacientes em quatro diferentes clínicas na cidade de São Paulo. Por lá, esses funcionários irão explicar como funciona o programa e fazer uma primeira triagem de saúde nos participantes que inclui exames rotineiros de sangue e pressão arterial, por exemplo.

“Chegar a 200 mil pessoas é uma meta ambiciosa, mas possível”, diz. Para chegar ao resultado, a empresa já busca novas parcerias com outros players ligados à saúde popular, mas em outras cidades do país. “A ideia é chegar aos quatro cantos do país para ampliar ainda mais o discurso da diversidade que temos no Brasil”, diz. “É uma meta ambiciosa, mas possível”.

A biotech conta também com a parceria estratégica da multinacional alemã QIAGEN, especialista em tecnologia de diagnósticos moleculares, para as extrações de DNA dos pesquisados.

Para onde vão os dados?

De acordo com a CEO, a indústria farmacêutica é a primeira interessada nos dados gerados pela plataforma de diversidade genômica da gen-t. Munidas de informação sobre o perfil genético da população dos mercados que atendem, essas empresas podem derrubar o tempo de desenvolvimento de novos produtos e criar medicamentos muito mais assertivos para doenças. “Existe uma demanda muito grande dessa indústria em ter acesso de dados sobre genoma e saúde de diferentes populações'', diz.

Do lado comercial, fabricantes também podem reformular todo o portfólio com base nas doenças mais comuns de uma população, dando maior ou menor espaço para medicamentos específicos. Em outra frente, o acesso privilegiado a informações de saúde da população pode servir de estímulo para que uma empresa inclua um fenótipo ainda inexplorado em seu catálogo.

Diante disso, a gen-t passa a funcionar no modelo B2B, fazendo contratos com farmacêuticas e biotechs que podem usar a inteligência de dados ligados à diversidade genética para acelerar seus processos de desenvolvimento e inovação. “Vamos encurtar o pipeline de desenvolvimento de medicamentos, ajudando essas empresas a responderem questões essenciais de forma rápida”, diz.

Segundo Pereira, a gen-t já conversa com pelo menos três empresas do setor. As conversas avançadas já vão ajudar a enriquecer o recrutamento para doenças e fenótipos específicos que são do interesse dessas empresas. “Surgimos como uma aceleradora de inovação dos outros, mas nosso objetivo é, no longo prazo, também gerar inovação própria”, diz.

Investimentos da gen-t

Sem tino empreendedor, mas com familiaridade ao mundo acadêmico, Pereira desenvolveu uma apresentação de Powerpoint sobre o projeto, assim que percebeu que a ideia poderia se tornar um negócio. O pitch desengonçado chamou a atenção de Eduardo Mufarej, sócio fundador da GK Ventures, um fundo dedicado a “resolver problemas do Brasil”.

A convite de Mufarej, o investidor americano especializado em biotecnologia Daniel Gold avaliou a mesma apresentação. Juntos, os dois fizeram o primeiro investimento na empresa, ainda no papel: a contratação de uma consultoria capaz de transformar aquele pitch principiante em um modelo de negócios real.

Agora, Gold e Mufarej se unem aos investidores Armínio Fraga, sócio fundador da Gávea Investimentos, e a farmacêutica americana Roivant Sciences em um aporte de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões) na empresa.

O investimento serve de pontapé para que a empresa de fato deixe o campo das ideias e de fato contrate  um time de operações clínicas e tecnologia para desenvolvimento da plataforma. O investimento também permitiu que fossem elaborados MVPs para começar os recrutamentos de brasileiros na capital paulista.

“Teremos um biobanco que permitirá um uso contínuo de armazenamento de amostras. Trará a possibilidade de desenvolver parâmetros, oxigenar a saúde pública, impulsionar a predição de doenças e as pesquisas por novos medicamentos, e ajudar pacientes em todo o mundo”, explica Mufarej, em nota.

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