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Ele transforma imóveis ‘sob pressão’ em dinheiro sem precisar vender — e mira R$ 230 milhões

Proptech cria alternativa para quem precisa de caixa: vende o imóvel, continua morando e pode recomprar depois

Daniel Gava, CEO da Rooftop: "O mercado todo se posicionava contra o devedor" (divulgação/Divulgação)

Daniel Gava, CEO da Rooftop: "O mercado todo se posicionava contra o devedor" (divulgação/Divulgação)

Isabela Rovaroto
Isabela Rovaroto

Repórter de Negócios

Publicado em 23 de abril de 2026 às 06h00.

Existe um paradoxo silencioso nos bairros nobres das grandes cidades brasileiras. Proprietários de apartamentos avaliados em R$ 2 milhões, às vezes mais, vivem sufocados por dívidas do imóvel ou pela pressão de manter um negócio, financiar a operação da empresa ou cobrir rombos de caixa. O patrimônio está ali, mas sem liquidez. E vender para resolver o problema significaria abrir mão de algo que levou uma vida para construir.

Ao observar esse cenário, Daniel Gava, advogado de formação e empreendedor serial, decidiu mudar de lado. Ao invés de lucrar com a expropriação de quem está em dificuldade, ele criou uma solução para quem quer manter o imóvel, mas precisa urgentemente do dinheiro que ele representa.

O resultado é a Rooftop, proptech que desenvolveu o HomeCash, produto que a empresa define como solução para imóveis sob pressão, e que começa a ganhar escala nacional com um modelo de microfranquias em acelerada expansão.

Na prática, o modelo funciona como uma venda com retorno planejado: a Rooftop compra o imóvel, injeta dinheiro imediato na conta do proprietário e, ao mesmo tempo, permite que ele continue morando ali como inquilino.

Com o caixa em mãos para resolver dívidas ou investir no próprio negócio, o cliente ganha tempo para se reorganizar — e pode, no futuro, recomprar o imóvel ou vendê-lo em melhores condições.

Em 2026, a empresa quer chegar a R$ 230 milhões em alocação no fundo HOMS11, o que representa entre 230 e 250 operações individuais, receita de R$ 20 milhões e 60 franqueados em operação simultânea.

O fundo tem estrutura perpétua, com novas emissões previstas de forma contínua, o que dá à empresa independência para crescer sem depender de captações pontuais.

Quem é o fundador da Rooftop

Gava nasceu em Presidente Prudente, interior de São Paulo, e se formou em direito pela PUC-SP. Trabalhou em grandes escritórios paulistanos antes de empreender pela primeira vez, em 2009, na área de crédito.

A empresa que fundou evoluiu para uma plataforma de fidelização para o varejo físico, aproveitando a abertura do mercado de adquirência no Brasil. Em 2020, o negócio foi vendido a um banco paulistano.

Mas desde 2007, em paralelo, Gava nunca saiu do mercado de ativos imobiliários estressados, nome técnico para imóveis com problemas judiciais ou financeiros atrelados à propriedade ou ao proprietário.

Era um mercado que ele conhecia bem, e quando fundou a Rooftop, foi natural partir daí. Inicialmente, a empresa levantou um fundo imobiliário listado para aproveitar oportunidades em leilões. O modelo funcionava. Mas algo incomodava o fundador.

"O mercado todo se posicionava contra o devedor. Ele identificava um problema, investia expertise para participar de um leilão e muitas vezes levava a uma perda patrimonial para o cliente. A oportunidade que vimos foi: esse devedor pode ser ajudado, ao invés de ter seu ativo expropriado", diz Gava.

Foi dessa inquietação que nasceu o HomeCash. A ideia central é inverter a lógica do mercado de ativos estressados: ao invés de se posicionar como comprador oportunista no leilão, a Rooftop entra antes — como parceira do proprietário, oferecendo uma saída estruturada que preserva, ao menos parcialmente, o seu patrimônio e o seu plano de vida.

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Como funciona o HomeCash: venda, alugue, recompre

O mecanismo tem três etapas. Primeiro, a Rooftop adquire o imóvel do proprietário por meio do fundo imobiliário listado na B3, o HOMS11, e o cliente recebe aproximadamente 60% do valor de mercado à vista.

Depois o proprietário permanece no imóvel como inquilino, pagando um aluguel mensal acordado, e usa o capital recebido para reorganizar suas finanças: quitar dívidas, injetar no negócio, resolver o que for necessário. Em até 18 meses, ele decide o próximo passo.

As opções no final do contrato são três: recomprar o imóvel usando financiamento bancário, consórcio ou capital próprio; seguir como locatário de forma permanente, ou optar pela venda a terceiros. Neste último caso, se o imóvel for vendido por valor acima do preço acordado com a Rooftop, o cliente ainda participa da valorização.

"A proposta é que o cliente use o recurso como quiser e continue morando no imóvel, mantendo flexibilidade financeira sem precisar vender definitivamente o ativo", explica Gava.

O produto não é um empréstimo, não há análise de crédito do proprietário nem exigência de comprovação de renda. A garantia é o próprio imóvel, que já pertence ao fundo.

Isso o diferencia do crédito com garantia imobiliária (o chamado home equity), no qual o bem continua no nome do cliente e serve como colateral. No HomeCash, a transferência de propriedade é real — o que, segundo a empresa, permite uma operação mais ágil e juridicamente mais limpa para ambas as partes.

O foco está em imóveis residenciais de alto padrão, na faixa entre R$ 1 milhão e R$ 7 milhões, em grandes centros urbanos. O público-alvo são empreendedores e profissionais liberais: pessoas com patrimônio relevante mas fluxo de caixa sob pressão.

A expansão com microfranquias

Durante um período, a Rooftop operou exclusivamente com vendas internas — o cliente chegava por mídia paga ou orgânica e era atendido por um time interno. Mas Gava percebeu que o modelo tinha um limite estrutural.

"É uma venda consultiva, técnica, onde a geração de credibilidade e confiança são pontos sensíveis. Um produto de ticket alto, que envolve o bem mais valioso da família, não se vende bem por anúncio digital", afirma.

A solução foi construir, ao longo do segundo semestre de 2025, um canal de microfranquias. Os franqueados são profissionais com histórico em mercado financeiro, crédito ou bancos, que levam o HomeCash à sua rede de relacionamento de forma consultiva e presencial.

"São pessoas que já estiveram do outro lado da mesa: gerentes de banco, assessores financeiros, profissionais que estruturavam crédito para empresas e famílias. Agora conseguem oferecer esse novo produto para quem está buscando capital", diz Gava.

O modelo de franquia foi desenhado para ser enxuto. Não exige escritório físico nem equipe própria. O investimento inicial é de aproximadamente R$ 40 mil, com payback projetado em até dois meses.

A remuneração esperada após o 12º mês varia entre R$ 30 mil e R$ 50 mil mensais — patamar que, segundo a empresa, o franqueado atinge com um a dois negócios fechados por mês.

"Nossa preocupação não é vender franquia. É ter um franqueado alinhado com a missão: popularizar o HomeCash. Assim como as pessoas conhecem o financiamento imobiliário e o consórcio, elas vão passar a conhecer o HomeCash como a solução para imóveis sob pressão", afirma o CEO.

A empresa encerrou 2025 com 7 microfranquias ativas. Em abril de 2026, já são 20. A meta é chegar a 60 unidades até dezembro, com entrada de 6 a 8 novos franqueados por mês.

A velocidade de maturação é um dos dados que a empresa usa para atrair novos franqueados. Das sete unidades que completaram cerca de três meses de operação, cinco já atingiram o payback sobre o investimento inicial.

Os franqueados já somam cerca de 30 contratos fechados, com ticket médio de R$ 1,2 milhão por operação. Parte dos negócios foi fechada durante ou logo após o período de treinamento.

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