Economia circular está diretamente relacionada ao ganho de competitividade

Afirmação é de Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI. Confira, na íntegra, a entrevista exclusiva com o especialista
Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI: agenda de economia circular tem reflexos importantes na transição para uma economia de baixo carbono (Boi Tempo/Divulgação)
Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI: agenda de economia circular tem reflexos importantes na transição para uma economia de baixo carbono (Boi Tempo/Divulgação)
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Da Redação

Publicado em 08/08/2022 às 10:30.

Última atualização em 08/08/2022 às 10:32.

Em 2019, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) realizou uma pesquisa nacional para verificar como o termo “economia circular” estava sendo tratado pelo setor industrial no Brasil. Alguns achados da pesquisa identificaram que, apesar de 76,5% dos entrevistados terem alguma prática de economia circular, 70% foram apresentados ao tema pela primeira vez.

“Nesse contexto, identificamos um grande potencial para valorizarmos as boas práticas que já são realizadas pelo setor industrial brasileiro hoje e fomentar investimentos em inovação, melhoria de processos e fortalecimento das cadeias de valor”, afirma Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI. Em entrevista à EXAME, Bomtempo falou sobre economia circular na indústria brasileira. Confira:

EXAME - Como está o avanço da economia circular na indústria brasileira?

Davi Bomtempo - A indústria brasileira tem adotado práticas para o melhor aproveitamento dos recursos naturais há bastante tempo. Desde a proposta por uma produção mais limpa apresentada em 1989 pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês), o desafio da busca por maior eficiência dos processos produtivos e a relação com ganhos econômicos para as empresas têm ganhado força.

Nessa jornada, diversas abordagens e ferramentas com propósitos similares surgiram. Podemos citar alguns como as normas da série ISO 14.000, avaliação do ciclo de vida, simbiose industrial, logística reversa, “design for environment”, “cradle to cradle” (berço ao berço), entre outros. A indústria entende que a economia circular faz parte desse processo evolutivo, em que o melhor uso dos recursos naturais e a perspectiva econômica somam esforços para atender às demandas sociais de consumo e ao mesmo tempo manter o meio ambiente equilibrado.

Tem alguns exemplos que poderia citar de casos "modelo" de economia circular na indústria nacional?

Temos diversos bons exemplos no setor industrial. A Sinctronics, por exemplo, primeiro ecossistema integrado de soluções sustentáveis voltado para o mercado de eletroeletrônicos, integra ações voltadas para a logística reversa, processamento dos materiais, investimentos em pesquisa e desenvolvimento em busca não só de novos usos para os componentes recebidos, como também para garantir a qualidade do material produzido, pensa os materiais em ciclos contínuos – fabricação, uso, recuperação, desmonte e re-fabricação.

A Braskem, líder global na produção de biopolímeros em escala industrial, assumiu, em 2018, compromisso público em prol da economia circular. A empresa está à frente de iniciativas para concepção de novos produtos para ampliar e facilitar a reciclagem e a reutilização de embalagens plásticas. Investiu em novas resinas de origem renovável, como o polietileno “I’m green”, feito à base de cana-de-açúcar e com o apoio a novas tecnologias, modelos de negócios e sistemas de coleta, triagem, reciclagem e recuperação de materiais.

A Malwee, empresa do setor têxtil, criou o movimento chamado DES.A.FIO, para promover a moda circular e minimizar os impactos que o descarte irresponsável provoca na natureza. O DES.A.FIO, por sua vez, integra o novo posicionamento da marca, iniciado em 2020: “Moda Sem Ponto Final”. Trata-se de uma reformulação das coleções para prolongar a vida útil das roupas, produzindo peças mais duráveis e que podem ser mantidas no guarda-roupas por muito mais tempo.

O que a CNI tem feito para incentivar a indústria brasileira na adoção de práticas de economia circular?

Desde que identificamos o potencial competitivo da economia circular para o setor industrial brasileiro, em 2014, temos aprofundado o assunto com os setores privado, público e a academia. Diversos diálogos foram promovidos com atores interessados, com o intuito de achar um entendimento comum e clarear o caminho que o Brasil deve seguir nesse tema.

Elaboramos um estudo com a Universidade de São Paulo (USP) em que trouxemos um arcabouço conceitual robusto e elencamos as oportunidades e os desafios da agenda. Pesquisamos também a interação que o tema de economia circular tem na indústria 4.0. Para direcionar melhor os nossos trabalhos, construímos, com os diversos setores industriais brasileiros, o caminho estratégico para a indústria brasileira em relação à economia circular.

Em 2019 divulgamos todos esses trabalhos, adicionado a uma pesquisa com o setor industrial brasileiro e um vídeo explicativo, com a abordagem adotada pela CNI, em um grande evento internacional, o encontro “Economia Circular e a Indústria do Futuro”.

Desde então, assumimos a liderança nos diálogos internacionais que acontecem no âmbito do Comitê Técnico de Economia Circular da ISO (ISO / TC 323), com a participação de especialistas do setor industrial brasileiro nos diversos grupos de trabalho e no grupo de alto nível do Comitê.

Além disso, a CNI coordena a Comissão de Estudo Especial de Economia Circular da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT / CEE 323). Desta forma, temos amadurecido o tema internamente, no contexto brasileiro e de países em desenvolvimento, e levado um posicionamento construído de forma colaborativa e com consistência técnica para os diálogos em nível internacional.

Recentemente, participamos de uma iniciativa da Comissão de Meio Ambiente do Senado, em que foi elaborado uma minuta de Projeto de Lei para a Política Nacional de Economia Circular. Foi uma ótima oportunidade para apresentarmos o entendimento que construímos com nossa base industrial sobre o tema, e reforçarmos a importância de relacionar a economia circular com a gestão estratégica dos recursos naturais e a redução de emissões de gases de efeito estufa no Brasil por meio do mapeamento e rastreamento desses recursos em nosso território, do incentivo à pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica e colaboração entre os diversos atores da sociedade.

Por que a CNI entende que o tema da economia circular é relevante hoje para o país?

A economia circular está diretamente relacionada ao ganho de competitividade do setor privado e à credibilidade do setor público brasileiro. Tornar os processos produtivos mais eficientes, fortalecer as cadeias de valor, investir em pesquisa, design e inovação, bem como desenvolver sistemas de informações públicos e transparentes, que auxiliem no registro, mapeamento e rastreamento inteligente dos estoques e fluxos de recursos em nosso território, são pontos chaves da agenda de economia circular, com reflexos importantes na transição para uma economia de baixo carbono.

Temos um país de dimensões continentais, megabiodiverso, com abundância de recursos naturais, uma matriz energética das menos emissoras no mundo, um parque industrial diversificado, ao mesmo tempo, com uma grande desigualdade social, alto grau de informalidade, com infraestrutura precária, tanto de saneamento básico como de logística. A expectativa da CNI é que a economia circular possa valorizar nossos pontos fortes e ajudar a solucionar os problemas sociais e de infraestrutura de maneira inovadora e colaborativa, fomentando o envolvimento dos diversos atores da sociedade na busca por soluções efetivas.