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Do forno improvisado ao milhão: o empresário que montou uma pizzaria com escala de trabalho 4x3

Com massa de longa fermentação e feita até com gelo, Sudário Silva criou a pizzaria Port’Alba e estruturou um negócio que avança no interior paulista

Sudário da Silva, fundador da pizzaria Port’Alba: “Eu sempre pensava que o doido que montar uma pizzaria aqui em São Roque iria ganhar dinheiro — só que eu não sabia que esse doido era eu” (Sudário Silva/Divulgação)

Sudário da Silva, fundador da pizzaria Port’Alba: “Eu sempre pensava que o doido que montar uma pizzaria aqui em São Roque iria ganhar dinheiro — só que eu não sabia que esse doido era eu” (Sudário Silva/Divulgação)

Publicado em 27 de dezembro de 2025 às 16h49.

Última atualização em 28 de dezembro de 2025 às 11h52.

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Quando abriu a primeira operação, Sudário Silva não tinha capital, ponto comercial nem plano de marketing. O início foi literal: um forno improvisado montado na cozinha do bar do irmão, em São Roque (SP), e a convicção de que havia espaço para um produto diferente no interior paulista. Décadas depois, o fundador da Port’Alba comanda um negócio que fatura cerca de R$ 1,5 milhão por ano — e chama atenção por um modelo pouco comum no setor: escala de trabalho 4x3, com salário integral.

A pizzaria nasceu como disc pizza e delivery, mas rapidamente esbarrou em um gargalo operacional.

“O forno de barro não aguentava a demanda”, diz o empresário.

A virada veio quando decidiu priorizar salão e experiência, apostando que o delivery “não constrói nome”.

Aos poucos, mesas entraram, a equipe cresceu e o foco passou a ser produto e processo.

O empresário que se descobriu com o que mais amava comer: pizza

Filho mais velho de cinco irmãos, Sudário Silva nasceu na Vila Medeiros, na Zona Norte de São Paulo, em uma família pobre. A infância foi marcada por trabalho cedo: aos 6 anos, já buscava “uns trocos” na rua e entregava o dinheiro para a mãe. Pouco depois, virou vendedor ambulante — primeiro com pirulitos de banca, depois com pirulitos e doces feitos em casa, além de sonhos e salgados. Foi ali que aprendeu, na prática, a lógica de margem, giro e sobrevivência.

A adolescência trouxe o primeiro emprego formal: aos 13 anos, entrou em uma fábrica de calçados, onde aprendeu a fazer sapato “de ponta a ponta” e ganhou gosto por dominar processos. Passou também por um escritório de contabilidade, lidando com rotinas comerciais e abertura de firma, até migrar para o universo das redações — trabalhou à noite na Folha de S.Paulo, digitando e preparando textos em um tempo de máquinas grandes, fitas e revisão manual.

Em busca de melhores salários, seguiu para gráficas e editoras e depois entrou no setor de propaganda médica e indústria química, com passagens por laboratórios. Foi nessa fase que desenvolveu um olhar técnico que, mais tarde, levaria para a pizza: testes, proporções, padronização e “receita” como processo.

Em 1981, já casado e com filhos, mudou-se para São Roque (SP) e notou um vazio no mercado local: não havia pizzaria. A decisão de empreender veio com improviso e intuição — e também com tropeços. Entre tentativas, expansão mal controlada e recomeços, Sudário se reencontrou no que mais gostava de comer: pizza, transformada em negócio com identidade própria na Port’Alba, onde hoje une técnica, gestão e uma escala de trabalho incomum no setor.

Produto como estratégia de margem

O diferencial da Port’Alba não está no volume, mas na técnica. Sudário defende a longa fermentação, descanso de massa e blends de farinha para alcançar um resultado mais leve e previsível — e, sobretudo, com custo controlado.

“A pizza, no fundo, pode custar barato se o processo estiver certo”, afirma.

A lógica é inspirada no modelo italiano: insumo adequado, padronização e desperdício mínimo para sustentar margens sem recorrer a preço baixo.

Erros de expansão e a volta ao básico

Antes do atual ciclo, o empreendedor viveu a expansão precoce: abriu segunda unidade, entrou em uma indústria de discos de pizza e diversificou demais. A falta de controle financeiro drenou caixa da operação principal. “Gestão é tudo”, afirma.

O aprendizado levou ao fechamento das frentes deficitárias e, anos depois, à retomada com investimento enxuto, espaço pequeno e proposta clara de valor.

Pessoas no centro: a escala 4x3

Hoje, a Port’Alba opera de quinta a domingo. Funcionários trabalham quatro dias e folgam três, recebendo como se trabalhassem o mês inteiro. A ideia é reduzir rotatividade e aumentar engajamento, ao mesmo tempo em que o time tem tempo para descanso ou renda complementar.

“Se o funcionário fica, o custo cai e a qualidade sobe”, diz Sudário.

O modelo também ajuda a concentrar demanda nos dias de maior fluxo, elevando produtividade por hora aberta.

Próximo passo: crescer sem pressa

Com faturamento estável na casa do milhão e meio, o plano não é abrir várias lojas de imediato. A estratégia passa por ganhar visibilidade em São Paulo, atrair fluxo para São Roque e ampliar o ecossistema no entorno da pizzaria — com loja e ações que transformem a visita em passeio.

“É fazer a casa encher de quinta a domingo”, afirma Sudário, que afirma que quando o assunto é continuidade do negócio, se diz animado com o legado para os filhos Guilherme e Tiago.

Ao trocar a corrida por escala por disciplina operacional, a Port’Alba mostra que, mesmo em um setor competitivo, produto bem definido, gestão financeira e um modelo de trabalho inteligente podem levar um negócio do improviso ao milhão.

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