Executivos de Gerdau, Vale, Randoncorp e Be8 Energy na Brazil House, em Davos: o papel da indústria brasileira na transição energética.
Editora de projetos especiais
Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 11h23.
*De Davos, na Suíça
No painel “Além da COP30: liderança industrial para o clima, a natureza e o crescimento”, realizado na Brazil House, em Davos, executivos de Gerdau, Vale, Randoncorp e Be8 Energy compartilharam como vêm transformando metas ambientais em decisões operacionais, investimentos bilionários e inovação tecnológica — inclusive em setores historicamente considerados difíceis de descarbonizar.
Para Marcos Cantarino, gerente de Relações Institucionais da Gerdau, a discussão sobre clima precisa partir da realidade industrial. A siderurgia, lembra ele, é essencial para infraestrutura, energia, mobilidade e desenvolvimento — e justamente por isso precisa assumir protagonismo na transição.
“A siderurgia é um setor difícil de descarbonizar, mas também é parte da solução. Hoje, cerca de 70% da nossa produção já vem de aço feito a partir de sucata, o que coloca a economia circular no centro da nossa estratégia climática.”
Além da reciclagem, a Gerdau vem ampliando o uso de energia renovável, com investimentos em fontes solar e hidrelétrica, e apostando no carvão vegetal como alternativa ao carvão mineral.
“Não existe transição sem política pública, sem cadeia produtiva e sem sociedade. Para destravar investimentos, precisamos de previsibilidade regulatória e de um ambiente que incentive capital de longo prazo”, afirmou Cantarino.
Marcos Cantarino, da Gerdau: “siderurgia é um setor difícil de descarbonizar, mas também é parte da solução”
Na Vale, a descarbonização deixou de ser um capítulo apartado de sustentabilidade para se tornar eixo estratégico do negócio. Segundo Grazielle Parenti, vice-presidente de Sustentabilidade da companhia, o próprio portfólio da mineradora passou por uma revisão profunda.
“Nosso minério de ferro é de altíssima qualidade, e isso é fundamental para reduzir emissões no processo siderúrgico dos nossos clientes. A descarbonização não acontece só dentro da Vale, mas ao longo de toda a cadeia.”
Um dos destaques é o desenvolvimento de briquetes de minério, que permitem reduzir em até 70% o consumo de energia nos altos-fornos. “Foram quase 18 anos de desenvolvimento. Isso mostra que essa é uma indústria de visão de longo prazo, intensiva em capital, que exige persistência e parceria.”
A Vale também foi pioneira ao estabelecer metas para o escopo 3 — as emissões indiretas da cadeia — e vem investindo em biocombustíveis, eletrificação e na descarbonização do transporte marítimo. “As soluções existem, mas ainda são caras. O desafio agora é escala. Não há impacto sem escala — e não há escala sem um modelo econômico viável.”
Grazielle Parenti, da Vale: “o futuro pode ser caro, mas não agir custa muito mais”
Se há um setor que chegou a Davos com soluções prontas para rodar, foi o de biocombustíveis. Para Camilo Adas, diretor de Transição Energética da Be8 Energy, a empresa nasceu, há duas décadas, já orientada pela lógica da transição energética.
“Desde o começo, acreditamos que usar recursos renováveis da natureza era muito mais estratégico do que depender de combustíveis fósseis. Nosso processo é totalmente circular: não existe resíduo.”
A companhia investe em biodiesel, etanol, novos combustíveis renováveis e hidrogênio. Um dos projetos mais simbólicos foi uma viagem de 4 mil quilômetros pelo Brasil com caminhões abastecidos exclusivamente com biocombustível, sem qualquer adaptação nos motores. “Mostramos que é possível reduzir emissões agora, sem mudar o veículo, sem mudar a infraestrutura. A transição não pode esperar.”
Para Adas, a COP30 precisa marcar uma virada prática. “Não precisamos de mais diagnósticos. Precisamos de uma COP da ação. Se não encontrarmos formas de financiar essa transição, empresas quebram — e o planeta não pode esperar.”
Na Randoncorp, a agenda climática está diretamente conectada à inovação e à eficiência operacional. Segundo Joarez José Piccinini, diretor de Relações Institucionais da Randoncorp e presidente do Conselho do Banco Randon, a companhia trabalha com metas públicas de redução de até 42% das emissões dos escopos 1 e 2 até 2030 — e avança de forma consistente para cumpri-las.
“A descarbonização só acontece quando vira estratégia. No nosso caso, isso significa biomassa, energia limpa e muita inovação dentro da operação.”
Entre os projetos mais emblemáticos está um sistema de recuperação de energia cinética em carretas, que transforma a energia gerada na frenagem em potência adicional para o veículo. “Esse sistema pode reduzir o consumo de diesel em até 25%. É bom para o meio ambiente, mas também para o bolso do transportador.”
A empresa também aposta em nanotecnologia para reduzir peso, aumentar a durabilidade dos veículos e ampliar a eficiência logística. “Não existe transição sustentável sem competitividade econômica. Quando a inovação gera ganho ambiental e financeiro, ela escala.”
Joarez José Piccinini, da Randoncorp: “quando a inovação gera ganho ambiental e financeiro, ela escala”
Apesar dos avanços, os executivos foram unânimes em apontar o financiamento como o grande gargalo. Juros elevados, risco tecnológico e retorno de longo prazo ainda afastam parte do capital. “Pesquisa e desenvolvimento são caros, incertos e levam tempo. Sem instrumentos financeiros adequados, a transição não ganha escala”, resumiu Piccinini.
Ainda assim, a mensagem final foi de convicção. Mesmo em um cenário global mais instável, as empresas afirmaram que não há volta. “A estratégia está definida. O mercado apoia, a sociedade cobra e o planeta não negocia”, disse Grazielle Parenti. “O futuro pode ser caro, mas não agir custa muito mais.”