Uma estudante da Universidade Adolfo Ibáñez do Chile observa amostras de urina em 28 de março de 2024 em Santiago (AFP Photo)
Repórter
Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 08h01.
O mais recente ranking publicado pelo Centro de Estudos Científicos e Tecnológicos (CWTS), conectado à Universidade de Leiden, na Holanda, revela as 10 universidades com o maior número de pesquisas publicadas em 2025. A China domina a lista com 8 representantes, incluindo os dois primeiros colocados, que ultrapassam até mesmo Harvard.
Desde 2020, a China vem investindo bilhões de dólares em pesquisa científica e desenvolvimento. Dados oficiais do governo apontam que, apenas em 2024, os gastos nessa área ultrapassaram os 3,6 trilhões de yuan (US$520 bilhões). E o esforço que trouxe frutos: com 878.300 artigos publicados em 2024, comparados aos 26.200 em 2020, a China se tornou oficialmente o país mais academicamente produtivo do mundo.
O crescimento é projetado para continuar em 2026, conforme a China ajusta suas políticas em relação ao décimo quinto plano dos 5 anos, que abrangerá os anos de 2026-2030.
O atual plano enfatiza atingir um “alto nível de autossuficiência científica e tecnológica” a fim de acelerar o desenvolvimento de tecnologias chave dentro do país. Um editorial publicado pelo jornal acadêmico The Lancet aponta que a emergência da China como um líder global de pesquisa altera profundamente o cenário científico global.
A apuração descreve a estratégia chinesa como “coordenada pelo Estado e orientada por missões, direcionando vastos recursos para áreas específicas, como semicondutores e materiais avançados”.
Ranking das 10 universidades mais publicadas de 2025, divulgado pelo CWTS Leiden University. A coluna P destacada em cinza revela o número total de publicações, com P (top 10%) representando o número de publicações consideradas no top 10% de seus campos e PP (top 10%) revelando a proporção de publicações nesse percentil (CWTS Leiden University/Divulgação). (Divulgação CTWS Leiden University/Internet)
Apesar dos evidentes resultados, a estratégia tem seus lados negativos, continua o levantamento:
“A negligência da pesquisa movida pela curiosidade acarreta o risco de perder descobertas transformadoras e inesperadas. Existem disparidades e desigualdades geográficas no financiamento da pesquisa, com concentração no leste da China e em algumas instituições de ponta. Os pesquisadores chineses estão sendo incentivados a publicar uma proporção definida de seus trabalhos em plataformas acadêmicas nacionais para reforçar a autossuficiência e fortalecer o portfólio nacional de publicações — a longo prazo, essa tendência poderá remodelar o cenário global da publicação científica", releva o levantamento, reiterando que o desenvolvimento científico global depende de transparência e cooperação ao invés de isolamento e autossuficiência.
A pressão sobre pesquisadores na China, combinada pelo cenário acadêmico competitivo, analisa o editorial, deu origem a uma grande quantidade dos chamados “paper mills”: empresas fraudulentas dentro da academia que publicam pesquisas de baixa qualidade, com frequência plagiadas, e vendem créditos de autoria para esses estudos.
Uma apuração do Financial Times revela que, segundo analistas, a produção impressionante da China é acompanhada por uma significativa base de pesquisas fraudulentas e de baixa qualidade. O veículo reporta que acadêmicos reclamam da pressão esmagadora para publicar e conseguir boas posições em universidades de pesquisa.
Falando ao Financial Times anonimamente, um professor de Física de uma importante universidade de Pequim diz: “Para sobreviver na academia chinesa, temos muitos indicadores chave de performance para satisfazer. Então, quando publicamos, focamos em quantidade acima de qualidade. Quando potenciais empregadores olham para nossos currículos, é muito mais fácil para eles julgarem o volume da nossa produção do que a qualidade da nossa pesquisa”.
Em referência à sua própria base de dados, o jornal acadêmico reconhece as contribuições chinesas mas corrobora as preocupações de fraude.
“As submissões da China para os periódicos The Lancet aumentaram acentuadamente na última década e publicamos artigos que demonstram que a China é líder em qualidade de pesquisa, e não apenas em quantidade. No entanto, também observamos estudos, particularmente ensaios clínicos, que não atendem consistentemente aos padrões internacionais para o desenho de ensaios", diz trecho do editorial. "É evidente a necessidade de reforçar a adesão às normas globais e aos padrões de reporte estabelecidos, à medida que a China aprofunda seu envolvimento na colaboração e liderança global.”
Em 2025, como parte de uma “tentativa urgente” de responder a esses problemas, continua o editorial do The Lancet, o governo chinês intensificou a repressão contra as paper mills e lançou uma campanha nacional para lidar com a situação.
“No nível institucional”, diz a apuração, “o treinamento em integridade na pesquisa tornou-se obrigatório em muitas das principais universidades da China.” Essas medidas, analisa o jornal acadêmico, são essenciais para preservar a confiança internacional nas contribuições chinesas, cada vez mais presentes e importantes.