Donald Trump, presidente dos EUA, ao anunciar nova série de navios de guerra, que ele chamou de 'classe Trump', em 22 de dezembro (Andrew Caballero-Reynolds/AFP)
Repórter de internacional e economia
Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 06h01.
Em dezembro, o presidente Donald Trump anunciou uma nova política para a América Latina, que prevê maior controle dos Estados Unidos sobre a região.
A proposta retoma conceitos da Doutrina Monroe, um ideal do século 19 que defendia o afastamento de potências europeias da política das Américas e, na prática, foi usada para que os Estados Unidos intervissem em vários países para defender seus interesses.
No começo de janeiro, Trump aplicou sua proposta no mundo real e prendeu o presidente Nicolás Maduro, da Venezuela. Para o professor Ronaldo Carmona, este foi o ato inicial desta nova doutrina, que acabou sendo apelidada de "Donroe" por analistas.
"Qual é a mensagem que esse ato transmite aos demais países? A de que qualquer tentativa de oposição ao objetivo declarado e proclamado na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos — estabelecer a dominância sobre o hemisfério ocidental — não será tolerada", diz Carmona, em entrevista à EXAME.
"No que diz respeito ao objetivo principal, também proclamado nesse documento, trata-se de expurgar a presença de potências extrarregionais, especialmente a China, da América Latina", afirma.
Carmona é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), um think tank, e professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Guerra. Também foi chefe de planejamento do Ministério da Defesa. Leia a seguir a íntegra da conversa.
Quais são os efeitos da invasão para a relação entre os EUA e a América Latina?
Essa ação militar norte-americana na Venezuela foi o ato inaugural da Nova Doutrina Monroe, que foi expressa no documento chamado Estratégia de Segurança Nacional, que veio a público no início de dezembro.
Independentemente de gostarmos ou não do Maduro, ele era um presidente em funções, e foi literalmente extraído de um forte militar em Caracas. Ou seja, ele foi sequestrado, essa é a palavra, por um comando de forças especiais. E estamos falando da Venezuela, um país que, em termos relativos, talvez seja o segundo em poderio militar na América do Sul, perdendo apenas para o Brasil.
Qual é a mensagem que esse ato transmite aos demais países? A de que qualquer tentativa de oposição ao objetivo declarado e proclamado na Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos — estabelecer a dominância sobre o hemisfério ocidental — não será tolerada.
Portanto, toda ação de rebeldia em relação à hegemonia do poder americano será contrarrestada. Para os pequenos países, a mensagem é clara: há uma obrigatoriedade de alinhamento às posições do Trump.
No que diz respeito ao objetivo principal, também proclamado nesse documento, trata-se de expurgar a presença de potências extrarregionais, especialmente a China, da América Latina.
Essa é a mensagem dirigida sobretudo aos pequenos países: não tolerar a presença chinesa, nem estabelecer relações com a China, especialmente no âmbito do projeto da Nova Rota da Seda, pois isso não será tolerado pela administração Trump.
Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, ao ser levado por agentes para audiência em Nova York (XNY/Star Max/GC Images/Getty Images)
A ação contra Maduro poderá de fato reduzir a presença da China e da Rússia na América Latina?
O objetivo fundamental dos Estados Unidos é expurgar a presença chinesa e russa da América Latina, conforme declarado explicitamente na Estratégia de Segurança Nacional. A Venezuela era o país onde essa presença era mais robusta, razão pela qual foi o primeiro alvo. Isso também serve como mensagem aos demais países de que tal presença não será admitida.
Ao mesmo tempo, esse cenário pode levar a uma acomodação de interesses entre grandes potências, com a formação de esferas de influência — um velho conceito da geopolítica —, permitindo maior liberdade de ação de China e Rússia em seus ambientes geográficos imediatos. A gente caminha para um mundo em que haja uma espécie de acomodação de interesses entre as grandes potências.
Como o Brasil deve se posicionar neste momento? Como preservar sua posição de líder regional e evitar problemas com os EUA?
A posição do Brasil é bastante delicada. Desde a proclamação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, há um choque direto entre a posição americana de estabelecer um domínio hemisférico pleno e o objetivo brasileiro.
Esse é um objetivo de Estado, que vai além do governo de turno e está consagrado na Constituição: a atuação do Brasil em favor da integração da América Latina. Isso também se reflete na nossa Estratégia de Defesa, que prevê projetar poder no entorno estratégico sul-americano.
Esses objetivos brasileiros colidem frontalmente com os objetivos americanos de estabelecer dominância plena sobre o hemisfério. Soma-se a isso o elemento político-ideológico, com a eleição de sucessivos governos de direita na América Latina, alinhados ao Trump e hostis à integração regional.
O caso do Javier Milei é emblemático. Hoje há uma ameaça concreta ao Mercosul. A Argentina está ávida para assinar um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos que eliminaria a base do bloco: a tarifa externa comum. Nem mesmo em crises anteriores isso esteve em questão, nem no governo de Menem, nem durante o governo Bolsonaro.
Além disso, o Paraguai adota uma posição de extremo alinhamento, inclusive em matéria de segurança, com os Estados Unidos. Nesse contexto, sustentar a liderança regional torna-se extremamente difícil para o Brasil, já que questões ideológicas se sobrepõem a interesses de Estado. Trata-se de um fenômeno novo, que dificulta profundamente a capacidade brasileira de exercer seus interesses estratégicos.
O Brasil deve persistir no caminho da autonomia, da soberania e da independência. O país não deve se curvar, de maneira alguma, aos objetivos americanos de colocar o Brasil e a América Latina a serviço de seus interesses geopolíticos. Nossa tradição diplomática, iniciada ainda no governo Vargas, na Segunda Guerra Mundial, é a do não alinhamento, e deve seguir nessa toada. O Brasil é grande demais para se subordinar a outra potência.
Do ponto de vista estratégico, o Brasil almeja se tornar uma potência e ser um dos polos de poder mundial em um cenário de multipolarização do mundo. Precisamos continuar manobrando nesse sentido. Não sem grandes dificuldades, inclusive porque há setores expressivos da sociedade brasileira que defendem um abandono dessa posição clássica e uma subordinação aos interesses americanos. Isso não atende ao interesse nacional.
O Brasil é uma das dez maiores economias do mundo, um dos maiores territórios, com inúmeras riquezas e grande população. Um país com essas características jamais pode “jogar na segunda divisão”. Precisa atuar em defesa de seus próprios interesses que, nesse cenário mundial, diz respeito à defesa de um mundo multipolar que lhe permita desenvolver o seu projeto nacional com maior autonomia e independência.
Caso as forças americanas invadam a Venezuela, qual a capacidade do país de resistir?
O cenário de uma invasão militar terrestre americana à Venezuela é pouco provável. A Venezuela é um país grande, e uma invasão exigiria uma mobilização de forças bastante expressivas, muito superior àquela já realizada, sobretudo aeronavais, em frente à sua costa.
Uma invasão por terra demandaria forças ainda maiores. Hoje, tudo caminha para uma certa acomodação. Isso se observa tanto nas declarações de Trump e de Marco Rubio quanto nos sinais vindos da Venezuela, como a carta da presidente em exercício Delcy Rodríguez propondo um acordo.
O próprio Maduro chegou a propor que houvesse liberdade de ação às empresas americanas no setor petrolífero. O problema é que ele não era tido como um interlocutor confiável. Sua remoção abre espaço para uma acomodação.
As forças opositoras, em especial a senhora Maria Corina Machado e seus principais líderes, estão no exílio e têm pouca representatividade interna. Assim, o cenário mais provável é uma acomodação que atenda aos interesses geoeconômicos de Washington, especialmente no acesso a recursos naturais e ao petróleo.

Houve outros casos de cerco marítimo, como o que os EUA estão fazendo na Venezuela? Quanto tempo isso pode durar?
Apesar da expressiva força aeronaval mobilizada há meses em frente à Venezuela — incluindo o porta-aviões Gerald Ford e diversas embarcações — ainda não há um bloqueio naval propriamente dito.
O que houve foram ações contra embarcações suspeitas de narcotráfico e contra navios sancionados pelo Departamento do Tesouro americano, impedidos de transportar petróleo. Isso pode evoluir para um bloqueio naval completo. Essa possibilidade foi mencionada por Marco Rubio como forma de estrangulamento financeiro do governo venezuelano caso não haja cooperação por parte de Delcy Rodríguez.
Um bloqueio ocorreria se os interesses americanos não forem atendidos. Até porque um objetivo fundamental é controlar as fontes de matéria-prima e impedir o acesso chinês ao petróleo venezuelano, já que hoje entre 70% e 80% da produção é destinada à China.
Quais poderão ser os efeitos da ação contra a Venezuela para Cuba?
A situação de Cuba é bastante precária. Uma acomodação entre Caracas e Washington pode resultar na diminuição do apoio venezuelano à ilha, agravando ainda mais sua situação econômica. Cuba já enfrenta pressões de diferentes intensidades há décadas, inclusive em níveis máximos sob certos governos americanos, mas tem conseguido sustentar seu regime político e social.
Salvo uma ação militar direta dos Estados Unidos — o que não está fora do radar após declarações recentes de Trump —, é improvável que haja uma queda do governo cubano. Cuba tende a resistir, inclusive com apoio da Rússia e da China.